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Jorge Amado subvertia espaço reservado à elite, diz biógrafa

10 ago 2017
17h00
atualizado às 17h00
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Se estivesse vivo, o escritor baiano Jorge Amado completaria 105 anos hoje (10). A fundação que leva o seu nome, em Salvador, completa 30 anos e essa dupla comemoração é lembrada na 1ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que tem programação aberta para o público a partir de hoje, no Centro Histórico da capital baiana.

Entre as mesas de debates mais aguardadas está a da biógrafa de Jorge Amado, a jornalista baiana Josélia Aguiar, que foi curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2017.

Após seis anos estudando a vida, a obra e os detalhes da história de Jorge Amado, a escritora fala da expectativa a respeito do lançamento da biografia que deve ocorrer até o fim deste ano e destaca que a vida de Amado foi repleta de acontecimentos relevantes.

Em conversa com a Agência Brasil, a escritora e doutoranda da Universidade de São Paulo (USP) avalia que Amado não teve muito espaço dentro da crítica literária brasileira por tratar de temas ligados à pobreza e exclusão.  "Aqui [no Brasil], se você escreve um pouco mais de sociedade, dizem que você virou sociólogo, é uma forma de exclusão e de manter o espaço da literatura como de elite. E Jorge Amado subvertia isso, porque os personagens dele eram o povo", analisa.

Evento

A Flipelô tem programação gratuita e aberta ao público a partir de hoje (10) e vai até o próximo domingo (13). Além de Jorge Amado, também serão homenageadas no evento as escritoras Zélia Gattai (mulher de Amado) e Myriam Fraga (amiga do casal). Na programação, está prevista a participação de escritores, escritoras e artistas baianos e do cenário nacional, como o rapper Emicida, o professor Pasquale Cipro Neto, a escritora mineira Conceição Evaristo, a escritora Talita Rebouças, entre outros, que somam 220 convidados em mais de 60 atividades que incluem música, teatro, filmes, debates, exposições e lançamentos de obras literárias. Todas as informações e a programação completa podem ser consultadas no site da Flipelô.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Josélia Aguiar à Agência Brasil na véspera de sua participação na 1ª Festa Literária Internacional do Pelourinho.

A jornalista baiana Josélia Aguiar é uma das escritoras convidadas da 1ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador   
A jornalista baiana Josélia Aguiar é uma das escritoras convidadas da 1ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador
Foto: Agência Brasil

Esta é uma festa literária, na Bahia, na capital, na terra de Jorge Amado. É a primeira edição e você está na programação...

Josélia Aguiar: Estarei nessa mesa sobre biografia, junto com a Antonella Rita Roscilli, que é a biógrafa de Zélia Gattai. O meu livro sai, provavelmente, no fim do ano e é um projeto que começou em 2011 e tive que demorar, mesmo, porque era muita coisa para, de fato, conhecer do Jorge Amado. Ele teve uma vida com muitas mudanças, muitas reviravoltas, muitas viradas, ele morou em muitos lugares. A obra dele viaja muito ainda, está em todos os países. Então isso me fez ter que fazer uma pesquisa muito abrangente. E depois consolidar, escrever isso é um segundo trabalho imenso.

Você se debruçou por tantos anos sobre a vida e a história de Jorge Amado. O que você destaca e o que mais te chamou atenção sobre ele?

Tem algumas coisas que as pessoas falam sobre Jorge Amado, que não correspondem, exatamente, ao que aconteceu. Por exemplo, a ideia de que o sucesso dele, no exterior, estava relacionado ao Partido Comunista, como se o partido tivesse ajudado ele a fazer uma carreira internacional. E, na verdade não foi isso. Ele começa a carreira dele por conta própria e outros fatores, além do político, contribuem para que ele tenha sucesso, por exemplo, o fato de ele tratar da vida da população negra da Bahia. Isso fez com que editores franceses se interessassem por essas histórias, num momento em que a França tinha muita curiosidade em conhecer esse "outro" que era dos trópicos. Ele começa uma carreira internacional e, quando se torna uma pessoa do partido, ele já é um nome. Então, o partido [comunista] entende isso e também passa a investir [nele]. Claro que há um segundo momento de divulgação da obra dele, que é quando ele vai para o exílio em 1948 [em Paris] e começa a ser traduzido no Leste Europeu, nos países comunistas. Aí sim, pode-se dizer que, pelo fato de ser comunista e militante, ele saía pelas editoras comunistas [em publicações]. Mas quando ele se afasta do partido e continua a obra, ele tem outro boom de divulgação internacional quando os livros passam a ser adaptados para o cinema. Por exemplo, nos anos 1970, ele tem um novo boom na Europa. Nos anos 80, um novo boom no mesmo continente. Mesmo países que estavam fechados para ele - como os Estados Unidos -, justamente por ele ser comunista, passaram a publicar o Jorge Amado e ele passou a ser um best seller. Quando lançou Gabriela Cravo e Canela (1958) e depois Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966), ele se torna best seller nos Estados Unidos e vai para a lista do [jornal] The New York Times. E isso só foi possível porque ele deixou de ser comunista, motivo pelo qual ele era proibido de ser publicado nos Estados Unidos.

Qual obra de Jorge Amado mais te interessa? Qual seria o carro-chefe ou marco da carreira do escritor?

Ele teve alguns marcos: Cacau, Suor e Jubiabá (1934) fez com que ele se tornasse um escritor naquele Brasil do Rio de Janeiro, nos anos 30, muito bem acolhido pelos críticos, e essas obras começaram a firmar o nome dele como um jovem autor promissor. Depois eu diria que Gabriela Cravo e Canela marcou muito uma nova fase, apesar de que ele não gostava de dividir a obra dele entre antes e depois de Gabriela, e com alguma razão. Mas eu diria que foi o livro que contribuiu para que ele fosse publicado naqueles países que estavam fechados para ele, como Estados Unidos e Portugal. Então Gabriela passa a ser conhecido em todo o mundo, sem distinção ideológica. Eu acho o Tenda Dos Milagres (1968)  muito importante também, porque era o livro com o qual ele mais se identificava: o Pedro Archanjo era o personagem que seria o alter ego de Jorge Amado. Eu, particularmente, adoro Os Velhos Marinheiros (1961): o Quincas Berro D'Água e o Vasco Moscoso de Aragão [personagens]. Para mim, aquilo é incrível e também adoro o Navegação de Cabotagem (1992). Eu acho a forma de contar as histórias totalmente transgressora, no sentido de que ele brinca muito com os episódios: os dramáticos misturados com os engraçados. Ele tira o drama e faz sem fio condutor e isso é um projeto de fazer memória muito transgressor.

Você demonstra uma certa paixão ou encantamento ao falar do objeto do seu estudo, o escritor Jorge Amado. Quando começou essa paixão e o que te despertou a estudá-lo?

Eu tenho cuidado ao falar disso, eu me apaixonei já pela pesquisa, porque se costuma achar que, para estudar o Jorge Amado, tem de estar apaixonado, mas para estudar o Mário de Andrade, não. Quando se estuda determinados autores por anos seguidos, o pesquisador é visto como dedicado, em uma jornada exaustiva. E quando é sobre Jorge Amado, parece que foi apenas porque existia uma certa má vontade da crítica mais tradicional à obra dele. Mas o que aconteceu é que eu já trabalhava em São Paulo, no jornal Folha de São Paulo, e o editor tinha interesse de fazer o livro, me convidou e, naquele momento, eu tive receio porque eu achava que todo mundo conhecia tudo de Jorge Amado. Ele me convenceu, com muita razão, de que ninguém sabia muitos detalhes de Jorge Amado, sobretudo episódios da vida dele, antes de a Zélia Gattai [esposa de Jorge Amado] começar a documentar. Eu comecei a entender, de fato, que ele é um grande personagem.

Casa onde Jorge Amado morou é hoje um memorial aberto à visitação
Casa onde Jorge Amado morou é hoje um memorial aberto à visitação
Foto: Valter Pontes/Agecom

Para você, a crítica literária não foi gentil com Jorge Amado?

Tem momentos em que a crítica gosta muito da obra dele e isso dura muito tempo, mesmo quando tem muita gente falando mal, ao mesmo tempo tem muita gente falando bem. O que acontece é que, em determinado momento dos anos 70, a crítica literária passa a ter modelos que não são necessariamente consensuais, só que passa a predominar um tipo de crítica literária que desconsidera procedimentos, escolhas literárias e elementos da literatura de Jorge Amado. Mas isso não significa que ele não era um bom autor e isso confunde as pessoas, porque elas falam que ele é muito lido, apesar da crítica. Que crítica? Essas pessoas detêm, mesmo, o poder de dizer? A crítica não é uma ciência exata, ela tem níveis de subjetividade determinados, inclusive, pelas escolhas que se faz de teoria. Aqui no Brasil, eu percebi que a teoria literária também é uma forma de exclusão, porque tudo aquilo que trata um pouco mais da realidade e fala de pessoas pobres ou negras, por exemplo, a crítica diz que é estudo sociológico e, na verdade, essa forma de pensar esquemática era apenas uma maneira de manter o espaço da literatura distante dessas questões do país. Aqui, se você escreve um pouco mais de sociedade, dizem que você virou sociólogo, é uma forma de exclusão e de manter o espaço da literatura como de elite. E Jorge Amado subvertia isso, porque os personagens dele eram o povo, como ele dizia.

Voltando para a Flipelô, que começa hoje para o público. A programação diversificada, com a presença de escritores e escritoras negras é importante, sobretudo por estar na Bahia e na terra de Jorge Amado, um dos homenageados?

Sem dúvida, eu acho superimportante destacar como fiquei contente quando vi a quantidade de escritores baianos e de várias regiões. Eu acho isso importantíssimo para que se conheçam esses trabalhos. É um ponto muito positivo.

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Agência Brasil Agência Brasil

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