Flávio e Lula trocam ofensas e discutem crime, dívidas e Vorcaro em último debate
Confronto na Globo começou ameno, mas terminou agressivo
No último debate antes do segundo turno, Flávio Bolsonaro e Lula protagonizaram um confronto tenso marcado por ataques pessoais e troca de acusações. Enquanto o senador criticou os gastos públicos, a inflação e defendeu medidas rígidas contra o crime, o presidente rebateu promessas econômicas, focou no endividamento das famílias e ligou o adversário a milícias. Ambos ainda trocaram farpas sobre supostas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro e patrimônios pessoais na reta final da disputa.
Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizaram na noite desta sexta-feira (23) o último debate do segundo turno das eleições presidenciais, a menos de dois dias para a abertura das urnas, enquanto buscam cada voto possível para definir uma disputa que se desenha como a mais acirrada da história.
Os dois postulantes iniciaram o confronto na TV Globo evitando passos em falso para não perder votos e com uma postura mais branda do que a vista no último domingo (18), mas pouco a pouco o debate ganhou temperatura, com trocas de acusações entre os dois lados.
"Meu adversário não conhece o Brasil. A única imagem do estado do Amazonas que ele conhece é do pai dele imitando pessoas morrendo sem oxigênio [na pandemia de Covid-19]", disse Lula ao responder a uma pergunta de Flávio sobre a região Norte.
"Flávio, um pouco de seriedade quando você fala com as pessoas, se não elas pensam que você está brincando", acrescentou o presidente. O senador, por sua vez, ironizou a insistência de seu adversário em pedir que os espectadores consultassem o Google para buscar mais informações sobre os temas discutidos.
"Lula, quem governa o Brasil é você ou o Google?", questionou o filho de Jair Bolsonaro. Durante o primeiro bloco, Flávio ainda desmentiu acusações da campanha petista e prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação e que não vai privatizar a Petrobras, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Além disso, saiu em defesa do governo de Javier Milei na Argentina, tido como modelo pela equipe econômica do senador. "Milei teve que arrumar o que a esquerda fez", disse.
Em outro momento, Flávio ironizou o fato de Lula ter perdido um dedo da mão em um acidente de trabalho. "Não adianta nada o salário mínimo ser de R$ 1,6 mil se você dá com uma mão e tira com os nove dedos", afirmou. A declaração irritou o presidente, que pediu direito de resposta.
"Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. Ele vai ter que pedir desculpas. Eu era menor [quando ocorreu o acidente] e não vou aceitar que um grã-fino venha me chamar de nove dedos", declarou.
Em seguida, Flávio se desculpou e logo emendou que era Lula quem devia pedir perdão pelas mazelas sociais do Brasil. O senador também cobrou direito de resposta por ter sido chamado de miliciano e foi atendido, mas não mencionou a acusação e usou o tempo para abordar outros temas.
Na maior parte do tempo, Flávio tentou encurralar Lula com o endividamento dos brasileiros, além de acusar o governo de gastar em excesso, impedindo a queda da taxa básica de juros e impulsionando a inflação.
Lula, por sua vez, prometeu "acabar com as dívidas" das famílias e defendeu a proibição das casas de apostas online, "que eu sei que meu adversário não gostou". "Nós vamos acabar com as bets, e sei que as mulheres são favoráveis", acrescentou.
Criminalidade e Trump
O combate ao crime organizado foi o principal tema do terceiro bloco do debate, quando Lula questionou Flávio por que ele atuou na defesa de um policial acusado de assassinar a menina Ana Clara, de cinco anos, com tiros de fuzil, quando já era senador. A mãe da criança estava na plateia.
"Não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos, mas era uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada, e eu tenho confiança de que sequer foi esse policial [o autor dos disparos]", salientou.
Além disso, reforçou o discurso linha dura, com as promessas de reduzir a maioridade penal para 14 anos nos crimes hediondos, de aprovar a castração química para estupradores e de definir o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias como organizações narcoterroristas, em linha com a postura de Donald Trump.
Lula replicou que Flávio quer apenas entregar o Brasil para "Trump cuidar" e que "todo mundo sabe" da relação do filho de Bolsonaro "com muita coisa ruim do Rio de Janeiro". "Tem discurso dele defendendo miliciano, ele condecorou miliciano, deu emprego para mãe do chefe do gabinete do ódio", declarou o petista, confundindo gabinete do ódio com o Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel formado por policiais fluminenses.
No quarto e último bloco, os dois candidatos duelaram com tema livre e trocaram acusações sobre as relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio acusou Lula de ganhar de presente um uísque que custa R$ 50 mil por dose, enquanto o petista disse que o senador pediu R$ 134 milhões ao empresário para o filme "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro.
"O amigo do Vorcaro é você, o filhote do Vorcaro é você", afirmou o presidente da República, que ainda acusou o adversário de não entregar seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Lula também perguntou a Flávio como ele, com um salário de R$ 46 mil, conseguiu comprar uma "casa de R$ 10 milhões". "Foi com meu trabalho, sou empresário e advogado", rebateu.
No fim do debate, o senador foi chamado novamente de miliciano e desta vez se defendeu da acusação. "Desde 1500, nunca fui acusado de envolvimento com milícias. Eu vou combater os milicianos e classificar as milícias como organizações terroristas", garantiu.
Neste sábado (24), os dois encerrarão suas campanhas com comícios nos três maiores colégios eleitorais do Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Lula fará caminhadas na praia de Copacabana e na Avenida Paulista, enquanto Flávio participará de eventos em Belo Horizonte e no Rio.
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