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Excesso de confiança ao volante é maior em países com estradas mais perigosas, como Brasil, alerta estudo

O excesso de confiança dos motoristas pode ser um perigo nas estradas. Um novo estudo global realizado pela Economist Enterprise, com o apoio da fornecedora italiana de tecnologia de freios Brembo, revela uma discrepância entre a percepção de segurança dos motoristas e a avaliação dos especialistas em segurança viária. O Brasil está entre os países com maior risco de acidentes no trânsito.

17 jul 2026 - 10h52
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Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

Imagem ilustrativa de uma autoestrada de Los Angeles, em janeiro de 2024.
Imagem ilustrativa de uma autoestrada de Los Angeles, em janeiro de 2024.
Foto: © FREDERIC J. BROWN / AFP / RFI

Enquanto nove em cada dez motoristas afirmam se sentir seguros ao volante, menos da metade dos especialistas em segurança viária compartilha essa percepção. 

O estudo intitulado 'Safety in Motion: Driving Trust in Modern Mobility' (Segurança em Movimento: promovendo confiança na mobilidade moderna, em português), revela uma diferença de 45 pontos percentuais entre a percepção dos motoristas e a avaliação dos profissionais de transporte responsáveis por projetar, desenvolver e operar sistemas de mobilidade. Para os especialistas, esta "lacuna de confiança" significativa pode comprometer os esforços para reduzir as vítimas de acidentes de trânsito.

Estima-se que anualmente 1,2 milhão de pessoas morrem nas estradas do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos.

Para elaborar o relatório foram ouvidas mais de 6.100 pessoas, entre elas mais de mil especialistas do setor dos transportes, no Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos - que, juntos, respondem por cerca de 75% da produção global de veículos.

Jean Todt, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para a segurança rodoviária, alertou que o excesso de confiança pode se tornar um risco à segurança em si, se incentivar os motoristas a assumirem riscos desnecessários ou a se tornarem menos atentos ao volante. "Muitos motoristas não entendem as capacidades dos sistemas de direção autônoma. Não devemos presumir que a tecnologia possa substituir nossa atenção", disse.

Todt, que é ex-executivo da Peugeot e da Ferrari, também atuou como presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), durante a coletiva de imprensa em 8 de julho da qual a RFI participou.

Desafios de segurança

Os autores do estudo afirmam que os desafios de segurança estão mudando à medida que os veículos se tornam cada vez mais avançados e automatizados. Falhas mecânicas não são mais vistas como a principal ameaça. Apenas 3% dos profissionais do setor identificaram defeitos em veículos como uma das principais causas de acidentes.

Em vez disso, 30% afirmam que o uso inadequado ou a má compreensão dos sistemas de assistência ao motorista representam a principal causa dos problemas de segurança na mobilidade. Enquanto 24% apontam os recursos que desviam a atenção dos condutores como o risco mais relevante. Os próprios usuários também classificam seu comportamento ao volante como a principal preocupação.

Influência da publicidade

Quase dois terços dos entrevistados do setor disseram que a publicidade tende a exagerar as capacidades dos sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS), podendo assim influenciar a percepção da realidade da segurança que os veículos oferecem. Muitos acreditam que as mensagens promocionais podem dar aos motoristas a impressão de que menos atenção é necessária.

Segundo os especialistas, a forma como as tecnologias de assistência ao condutor são divulgadas também pode contribuir para o problema: 65% afirmam que a publicidade superestima as capacidades dos sistemas; 62% afirmam que ela transmite a impressão de que o motorista precisa prestar menos atenção e 60% consideram que os benefícios são enfatizados, enquanto as limitações recebem pouca visibilidade.

Brasil: motoristas confiantes em estradas perigosas

A pesquisa aborda vários fatores de acordo com o padrão de confiança encontrado. Segundo o relatório, os motoristas brasileiros, chineses e indianos declaram se sentir mais seguros comparados aos condutores de outros países.

Paradoxalmente, a confiança dos motoristas aumenta nos países onde as estradas são mais perigosas, demonstrando que sua percepção é menos influenciada pela tecnologia do que por outros fatores, como a cultura local. 

Segundo Pratima Singh, responsável pela área de Políticas Públicas e Insights da Economist Enterprise e chefe da pesquisa, nos países emergentes a confiança dos motoristas aumentou rapidamente acompanhando a modernização.

"No Brasil, na China e na Índia, a confiança do público cresceu acompanhando um processo acelerado e visível de modernização - com novas infraestruturas, veículos mais inteligentes e tecnologias mais avançadas. Mas essa confiança evoluiu mais rapidamente do que os indicadores reais de segurança. Quando as pessoas acreditam que os sistemas são mais seguros do que realmente são, tendem a não manter o nível de atenção necessário para preservar sua segurança nas vias." disse Singh.

Diferentes perfis da população

A pesquisa também detalha a percepção de seguridade de diferentes grupos, de acordo com a renda e faixa etária. A confiança na segurança da mobilidade não é uniforme entre os diferentes perfis da população. Motoristas de baixa renda têm quase o dobro de probabilidade de relatar baixa ou moderada confiança na segurança de seus deslocamentos diários em comparação com pessoas de renda média e alta.

Entre as gerações, os Millennials (nascidos entre 1980 e 1996) são os mais confiantes (94% relatam alto nível de confiança), enquanto a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) e os Baby Boomers (entre 1945 e 1964) demonstram maior ceticismo - 12% e 16%, respectivamente, afirmam ter baixa ou moderada confiança em sua segurança no dia a dia.

Público quer medidas mais rigorosas de segurança

Apesar do elevado nível de confiança, 88% dos motoristas apoiam a adoção de medidas mais rigorosas de segurança viária - incluindo a redução dos limites de velocidade e uma maior fiscalização - e afirmam que estariam dispostos a pagar mais por sistemas de transporte mais seguros. Ainda assim, 68% dos especialistas apontam a falta de coordenação entre reguladores e indústria como o principal obstáculo para o avanço da segurança.

"Reduzir essa lacuna de confiança exige uma ação conjunta de todo o ecossistema da mobilidade", afirmou Matteo Tiraboschi, Presidente Executivo do Conselho de Administração da Brembo.

"A indústria precisa continuar inovando de forma responsável, enquanto os formuladores de políticas públicas devem criar marcos regulatórios eficazes. Juntos, também precisam ajudar as pessoas a compreender tanto as capacidades quanto as limitações das novas tecnologias", concluiu Tiraboschi.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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