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Brasil

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Entre memória e medo, idosos se tornam fator decisivo no 2º turno da eleição

22 out 2026 - 12h36
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Resumo
Representando quase um quarto do eleitorado, os votantes com mais de 60 anos tornaram-se decisivos no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. O petista lidera as intenções de voto no grupo, impulsionado por memórias de avanços sociais passados e pelo receio dos idosos quanto a cortes em aposentadorias ou ameaças à democracia. A campanha de Lula busca reduzir a abstenção dessa faixa etária para vencer a disputa, enquanto Flávio nega eventuais perdas e tenta reter sua base de apoiadores mais velhos.

Quando Rony Amaral e sua mãe, Aisa, votarem no segundo turno das eleições presidenciais neste domingo, ‌eles passarão a integrar uma força cada vez mais decisiva na disputa pelo Palácio do Planalto: os eleitores com mais de 60 anos.

Amaral, de 71 anos, e sua mãe, de 91, fazem parte desse grupo em crescimento, que atualmente representa quase um quarto do eleitorado brasileiro e pode ajudar a determinar o resultado da disputa presidencial mais acirrada da história do país.

"Eu voto e faço campanha para que todos os mais velhos, meus amigos da minha idade, exerçam esse direito. Eu vou com amor votar", contou Amaral à Reuters em uma entrevista no Rio de Janeiro. 

O segundo turno das eleições brasileiras neste fim de semana colocará ⁠frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que contrariou as pesquisas ao liderar o primeiro turno no início do mês.

Agora, os ‌eleitores com mais de 60 anos — que aumentaram 74% desde 2010 e que tendem a apoiar Lula, segundo as pesquisas — podem inclinar o resultado a favor do atual presidente e candidato à reeleição.

De acordo com a última pesquisa Quaest, Lula lidera as intenções de voto entre os idosos com 48%, um número superior ‌aos 42% que pretendem votar em Flávio Bolsonaro. Há quatro anos, na eleição de 2022, Jair ‌Bolsonaro -- pai de Flávio -- vencia Lula nesta faixa etária por uma pequena diferença, de 50,2% a 49,8%, segundo pesquisa na véspera da votação.

Ao contrário ⁠dos eleitores mais jovens, que, segundo as pesquisas, tendem a apoiar Flávio, o apoio dos eleitores mais velhos a Lula está ligado às lembranças de melhorias no padrão de vida, incluindo aumentos do salário mínimo, investimentos em saúde pública e outros benefícios associados aos governos anteriores de Lula, disse Cila Schulman, diretora-executiva da empresa de pesquisas Ideia.

"Essa é uma lembrança que os mais jovens não têm", disse Schulman.

Para uma parte dessa população há um temor de que esses benefícios possam ser afetados em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, já que informações atribuídas a sua campanha apontam que sua futura equipe econômica fala em desvincular o reajuste ‌das aposentadorias do salário mínimo e mesmo retirar o ganho real que voltou a ser pago no governo de Lula. 

Flávio negou que adotará essas mudanças. 

"O que vejo é ‌um medo entre as pessoas com mais de 60 ⁠anos de que fiquem sem assistência. Até ⁠mesmo alguns da direita compartilham desse medo", disse Amaral.

Mas os temores não são apenas esses. Há, ainda, medo do que uma vitória de Flávio significaria para a democracia brasileira. ⁠A memória vem da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente ‌atacaram as sedes dos Três Poderes em janeiro ‌de 2023 depois da derrota eleitoral, e também dos anos de ditadura militar, de 1964 a 1984. 

Essa é uma das principais questões que aparece em uma pesquisa qualitativa feita pela campanha de Lula para entender quem vota e o motivo de votar no presidente. 

Em sua casa na zona rural de Manaus, Olga Darc Pimentel, de 78 anos, disse à Reuters que estava profundamente preocupada com o segundo turno.

"A gente lembra o terror que foi ⁠a pandemia aqui, o descompromisso. A diferença entre os dois governos é total, especialmente aqui na Amazônia", disse, explicando por que vai votar em Lula, e apelando para todos que votem. "É a única maneira da gente melhorar o caos."

A campanha de Flávio não respondeu às perguntas da Reuters sobre seu menor apoio entre os eleitores mais velhos e as preocupações deles. Em discursos, o senador tentou rebater o que chama de uma campanha do PT para colocar medo nos eleitores e garantiu que não mexerá em direitos e "governará para todos."

Em seus comícios e manifestações, os ‌idosos também marcam presença. Apesar na queda nas intenções de voto nessa faixa, um grupo em torno de 40% ainda prefere o nome Bolsonaro. 

Isaltina Rosa Peixoto, de 73 anos, funcionária pública aposentada do antigo Ministério do Exército, estava em uma das recentes manifestações de Flávio no Rio de Janeiro. Disse que ⁠conheceu Jair Bolsonaro pessoalmente e acredita que Flávio dará continuidade e renovará o legado de seu pai.

"Não tenho medo porque sei que ele fará o que for melhor", defendeu.  

Apesar de sua crescente importância, os idosos são amplamente ignorados nas campanhas políticas do Brasil, disse Schulman. 

Mas, este ano, em uma eleição extremamente apertada, essa geração ganhou importância dentro da campanha petista. Um site e campanhas de mídia passaram a visar o que o partido está chamando de "geração Lula" - idosos com mais de 70 anos, com idades próximas às do presidente.

É uma esperança de obter votos que ajudem a reverter o desempenho do atual presidente no primeiro turno, quando ficou dois pontos percentuais atrás de Bolsonaro.

Solange Lisboa, de 74 anos, entrou na mobilização petista.

"Eu acho importante os velhos terem representatividade", disse, enquanto participava de uma das plenárias chamadas pelo partido nas últimas semanas.  

Sem a obrigatoriedade de votar depois dos 70 anos, a abstenção nessa faixa etária sobe muito. No primeiro turno, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 49% dos eleitores dessa faixa etária não compareceram para votar.

Ana dos Reis, 76 anos, foi uma delas. Mas a moradora de Brazilândia, na zona norte de São Paulo, mudou de ideia para esse segundo turno. 

"No primeiro turno eu não estava animada, mas agora como está essa demanda, eu vou. Quem sabe, talvez meu voto seja o que o Lula precisa para vencer?", disse.

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