Eleições de 2026 instauram era dos 'políticos influencers' e acirram antagonismo
Nomes populares nas redes sociais se elegeram com votações históricas
As eleições de 2026 consolidaram os "políticos influencers" e aprofundaram a polarização no Brasil. Nomes da extrema direita, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, bateram recordes históricos de votos para o Congresso usando a economia da atenção digital. Embora a esquerda tenha reagido com nomes expressivos como Erika Hilton e Jones Manoel, analistas alertam que a lógica individualista das plataformas enfraquece o debate público e perpetua um clima permanente de confronto político.
Por Lucas Rizzi - Além de aprofundar a polarização política no Brasil, as eleições gerais de 2026 marcaram a ascensão definitiva dos "políticos influencers", candidatos que, impulsionados por uma legião de seguidores nas redes sociais, transferiram o debate político dos plenários e das ruas para as plataformas digitais e alcançaram votações históricas nas urnas.
O movimento é liderado pelos campeões de popularidade Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), cada um com pouco mais de 3 milhões de votos para a Câmara dos Deputados, número que pulverizou o recorde anterior, de 1,8 milhão, estabelecido por Eduardo Bolsonaro em 2018.
Expoente da nova extrema direita brasileira, Nikolas, com 23 milhões de seguidores, já é um dos principais nomes do cenário político nacional e, aos 30 anos de idade, um virtual candidato a presidente quando completar a idade mínima de 35. Pavanato, por sua vez, ganhou fama defendendo a proibição de transexuais em banheiros femininos e se contrapondo à comunidade LGBTQIA+.
Já Eduarda Campopiano (PL-SP), vereadora de apenas 23 anos, se tornou a deputada estadual mais votada em São Paulo, com quase 2 milhões de votos, se apresentando como "a maior inimiga das feministas" e relacionando indígenas ao canibalismo.
"Existe uma mudança na própria natureza da representação política e, para entendê-la, é preciso olhar para a economia da atenção que organiza as plataformas digitais", explica Thais Pavez, cientista política, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e diretora da consultoria Estratégia Latina, em entrevista à ANSA.
"O que as redes fazem é sincronizar em grande escala marés de ódio e amor. Tudo é muito dicotomizado: ame ou odeie. E a extrema direita soube surfar nessas marés melhor do que ninguém, mobilizando sentimentos como raiva e vingança", acrescenta Pavez, que acompanha de perto esse fenômeno no Brasil.
Segundo Pavez, as votações expressivas alcançadas por políticos influencers evidenciam uma transformação na forma como as pessoas se sentem representadas. Se antes o eleitor votava e só via novamente o rosto de seu candidato depois de quatro anos, agora ele se sente parte de um movimento filmado e transmitido diariamente nas redes sociais, assim como um internauta se sente "amigo" de um influenciador que publica seu dia a dia no Instagram ou no TikTok.
"No fundo, as redes sociais são uma forma de compensação na esfera digital da crise política das instituições. A promessa das plataformas é de que vai ter um contato mais direto, uma proximidade com esse político, mas é uma lógica muito individualista e que não consegue produzir um debate de ideias", diz a pesquisadora.
Ao mesmo tempo, os "coaches" também ganham espaço, calcados em promessas de enriquecimento rápido a uma população endividada e desesperada com o elevado custo de vida, seja por meio de apostas, bitcoins ou supostos métodos infalíveis para mudar o "mindset" e crescer na carreira.
Em 2024, o coach de extrema direita Pablo Marçal quase foi eleito prefeito de São Paulo, e agora ele é cotado para ser ministro em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. "Eles acabam sendo modelos de sucesso em redes sociais onde não há espaço para o fracasso, e as pessoas votam em uma promessa de que elas também podem vencer", ressalta Pavez.
Reação
Erika Hilton é a mulher mais votada para a CâmaraSe é fato que território das redes sociais tem sido amplamente dominado pela extrema direita, também é verdade que a esquerda deu sinais de reação nas eleições de 2026.
Ana Elisa, estudante e influenciadora petista de 21 anos, foi eleita deputada federal por Minas Gerais com mais de 500 mil votos, perdendo no estado apenas para Nikolas, e já foi convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para arejar a estratégia digital de sua campanha.
A mulher mais votada para a Câmara, Erika Hilton (Psol-SP), com 1,6 milhão de votos, tem forte presença nas redes e foi capaz de mobilizar multidões virtuais em prol do fim da escala 6x1. Já em Pernambuco, o influenciador comunista Jones Manoel saiu do ambiente digital, onde ganhou fama com vídeos em defesa de uma "revolução" brasileira e debatendo com figuras de extrema direita, diretamente para o Congresso, com quase 250 mil votos para deputado federal.
"O caso do Jones é muito expressivo, com uma forma de ocupar as redes que levou a uma mobilização", afirma Pavez. O problema é que, da forma como as plataformas são estruturadas, cada lado se retroalimenta, surfando em sua própria maré de sentimentos adversos e, segundo a pesquisadora, "reforçando" uma situação de "guerra" política que, nos dias de hoje, parece estar longe do fim.
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