Como PL e Michelle Bolsonaro contribuíram com bancada feminina recorde na Câmara
Partido vem investindo há anos no recrutamento de mulheres, em uma estratégia que teve Michelle Bolsonaro como uma de suas principais articuladoras, afirma cientista política Malu Gatto.
O avanço do PL no primeiro turno consolidou a direita no país e impulsionou uma bancada feminina recorde de 21% na Câmara. Sob a articulação de Michelle Bolsonaro, o partido reduziu a resistência do eleitorado feminino ao adaptar a atuação política à rotina tradicional das mulheres. Contudo, segundo a cientista política Malu Gatto, a maior presença de parlamentares conservadoras tornará a bancada mais heterogênea, dificultando a formação de consensos em torno das políticas públicas de gênero.
O resultado do 1º turno mostrou que o PT não apenas subestimou a força da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), como também não dimensionou o grau de consolidação da direita no país, avalia a cientista política Malu Gatto, professora da University College London (UCL).
Para ela, o desempenho do candidato do PL, que terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), coloca o petista em uma posição especialmente difícil na disputa que começa agora.
"A esquerda subestimou o crescimento da direita, mas subestimou também, e talvez principalmente, a candidatura de Flávio Bolsonaro", afirmou Gatto em entrevista à BBC News Brasil.
Além da vantagem nas urnas, diz, o senador tem maior potencial para atrair os eleitores dos demais candidatos de direita e pode se beneficiar do efeito psicológico de ter largado na frente.
Mas, na avaliação da cientista política e professora de Política Latino-Americana no Instituto das Américas da University College London (UCL), o resultado da eleição vai além da corrida presidencial.
O fortalecimento do PL no Congresso e sua crescente capilaridade nos Estados e municípios indicariam uma transformação mais profunda no sistema partidário brasileiro
"Na ciência política, costumávamos organizar o sistema partidário a partir do PT, mas não podemos mais", afirma. "Temos um novo sistema partidário no qual o PT não é o único partido mais institucionalizado, com capilaridade."
A força do PL entre as mulheres
Outro aspecto que chama a atenção da pesquisadora após o 1º turno é o avanço da direita entre as mulheres e sua capacidade de impulsionar candidaturas femininas.
Ao todo, 12 mulheres foram eleitas para o Senado e 109 para a Câmara dos Deputados — que representam um recorde de 21% de todos os deputados. Uma mulher também foi eleita governadora e outras três passaram para o 2º turno.
O PL foi o partido que mais elegeu senadoras, com 3 representantes. Republicanos, PSDB, Podemos, União e MDB elegeram uma mulher cada.
Já na Câmara, o partido de Flávio Bolsonaro conseguiu eleger 22 mulheres dentro das 121 cadeiras conquistadas, ou pouco mais de 18%. Para efeito de comparação, o PCdoB elegeu 7 mulheres entre seus 11 deputados federais, o que corresponde a 63,6% da bancada.
"Apesar da direita ter elegido mais mulheres em termos absolutos, a proporção de mulheres nos partidos de esquerda foi maior", diz a professora da UCL.
Mas segundo Gatto, o PL foi bem-sucedido em reduzir a resistência que historicamente existiu entre parte do eleitorado feminino em relação ao bolsonarismo.
Esse movimento não surgiu apenas durante a campanha de 2026, diz. Para a pesquisadora, o partido vem investindo há anos no recrutamento de mulheres, em uma estratégia que teve Michelle Bolsonaro como uma de suas principais articuladoras.
"O partido incentivou que as mulheres fizessem e participassem da política de sua própria maneira, sem reproduzir a lógica do fazer política masculina", aponta.
"Uma das dificuldades das mulheres é fazer política enquanto se mantém a responsabilidade de cuidado e o trabalho, mas a forma encontrada por eles foi mais compatível com a vida dessas mulheres."
Mas apesar de positiva para a representatividade, a entrada de mais parlamentares de direita deve tornar a bancada feminina mais heterogênea e aprofundar divergências sobre quais devem ser as prioridades das políticas voltadas às mulheres, diz Malu Gatto.
"Vai ser mais difícil encontrar consenso, criar políticas públicas e legislar com uma bancada tão heterogênea".
Leia, a seguir, a entrevista completa com a cientista política, editada por concisão e clareza.
BBC News Brasil - Qual a sua avaliação geral sobre o 1º turno das eleições? As pesquisas erraram o resultado da eleição presidencial?
Malu Gatto - As pesquisas mostravam uma tendência de crescimento de Flávio Bolsonaro nos últimos dias, com ele basicamente empatado com Lula dentro da margem de erro. Acho que houve uma confiança exagerada na ideia de que Lula estava numericamente na frente de Flávio. As pesquisas não mostravam isso de forma tão eloquente mesmo, mas os dados davam a possibilidade de interpretação de que o resultado poderia ser esse.
Para além disso, vejo que o PL sai muito forte desse primeiro turno. Só no Senado, o partido terá uma bancada enorme, com 28 senadores - contra 8 ou 9 dos segundos maiores partidos. Na Câmara, também conseguiu se consolidar, com expectativa de 121 deputados eleitos. Tudo isso deve impactar muito o 2º turno.
BBC News Brasil - E qual sua expectativa para esse 2º turno?
Gatto - Nunca na história da redemocratização, uma pessoa que perdeu o 1º turno, venceu o 2º, ou seja, Flávio vai muito forte para essa disputa. Ao mesmo tempo, ele em uma margem de vantagem menor do que em outros 2º turnos no passado - são 2 pontos percentuais de diferença, menor do que em 2022 quando Lula ficou 5 pontos a frente de Jair Bolsonaro.
Mas sair na frente no 1º turno é muito importante, pois demonstra viabilidade eleitoral e também tem um efeito psicológico no eleitor - é o que chamamos de bandwagon voting, quando os eleitores transferem seus votos para aquele que está na frente.
Também é importante mencionar que Flávio parece ter maior potencial de crescimento. Todos os demais candidatos à Presidência com algum apoio eleitoral no 1º turno eram candidatos de direita e, ainda que alguns escolham apoiar Lula, esses 8% de votos tendem a ir para ele.
Isso tudo coloca a campanha do Lula em uma posição muito difícil. Eles estavam com uma sensação de "vamos ganhar", que até ajuda na motivação, mas acho que agora tendem a partir para uma campanha mais negativa e defensiva.
BBC News Brasil - A esquerda subestimou o crescimento da direita ou deixou de ver um movimento coordenado da oposição?
Gatto - A esquerda subestimou esse movimento, mas subestimou também, e talvez principalmente, a candidatura de Flávio Bolsonaro. Existia a ideia de que ele não tinha a força do pai, mas, na verdade, o Flávio aumentou a votação de Jair Bolsonaro de 2022.
Além disso, também vejo uma má interpretação do que aconteceu há quatro anos. Ficou perdido em termos de interpretação, talvez, para a campanha do PT, que 2022 não foi uma vitória do Lula, mas sim uma derrota do Bolsonaro. Lula ganhou com 2 milhões de votos, o que é uma margem muito pequena - e para isso acontecer o PT teve que angariar o apoio de todo o espectro ideológico, inclusive da centro-direita, enquanto Bolsonaro quase ganhou sozinho.
A pauta de extrema direita que vai para além de Bolsonaro tem ganhado força no Brasil, que fica claro também a partir da proliferação de outros candidatos de direita, inclusive na disputa presidencial.
BBC News Brasil - Nesse sentido, o Brasil está mesmo acompanhando uma tendência mundial?
Gatto - Existe sim uma tendência global em termos de insatisfação com a política, com os sistemas e instituições, que de muitas formas contribuiu também para o crescimento da direita. No Brasil, o eleitor médio sempre foi conservador em termos de morais e costumes, mas essa nova direita, o bolsonarismo, conseguiu unir os mais conservadores em termos econômicos, com o conservadores em termos das Forças Armadas, com o agronegócio e a direita do âmbito mais religioso. Houve uma repaginada da própria direita, que conseguiu levar o eleitorado junto.
BBC News Brasil - Para além da eleição presidencial, como avalia o crescimento da direita - e especialmente do PL — no Congresso e também nas eleições para governador?
Gatto - Me chama atenção o fortalecimento institucional do PL. Isso já vinha acontecendo desde as eleições municipais de 2024, com o partido demonstrando cada vez mais capilaridade nos município e estados. Na ciência política, costumávamos organizar o sistema partidário a partir do PT, mas não podemos mais. Temos um novo sistema partidário no qual o PT não é o único partido mais institucionalizado, com capilaridade.
Outro ponto importante são as candidaturas femininas sendo elevancadas por partidos de direita e, principalmente, pelo PL. Prova disso é o Distrito Federal, que se torna a única unidade federativa com três senadoras mulheres, sendo duas do PL e uma de um partido aliado, além de provavelmente uma governadora mulher, também pelo PL.
BBC News Brasil - O que significa para o Brasil ter mais mulheres conservadoras ou de direita em posições de poder?
Gatto - No Senado, vemos que a presença feminina cresceu principalmente puxada pela direita. Já na Câmara, o cenário está mais dividido.
Ao todo, foram 109 eleitas, o que aumenta a proporção de mulheres na Câmara dos Deputados para um recorde de 21% e nos tira da lanterna da América Latina [em termos de representatividade feminina]. Agora estamos à frente apenas da Guatemala, que é o único país da América Latina que nunca adotou cotas de gênero. O Brasil tem cotas para mulheres implementadas desde 1998 em eleições gerais e, mesmo assim, continua remando para bater esse recorde, enquanto outros países da região como México, Bolívia, Argentina e Costa Rica têm mais de 40% de representatividade.
Mas observando as bancadas dentro dos partidos, percebemos que, apesar da direita ter elegido mais mulheres em termos absolutos, a proporção de mulheres nos partidos de esquerda foi maior. Isso tem implicações para a atuação da bancada feminina como um todo. A fragmentação causa disputas internas com relação ao que é a pauta feminina e como os direitos das mulheres deveriam ser tratados. Vai ser mais difícil encontrar consenso, criar políticas públicas e legislar com uma bancada tão heterogênea.
BBC News Brasil - As últimas pesquisas antes do 1º turno mostraram um avanço de Flávio Bolsonaro entre o eleitorado feminino. A direita também conseguiu, como a senhora mencionou, eleger muitas mulheres. O que explica esse fenômeno?
Gatto - Em 2018, grande parte do eleitorado feminino foi resistente à candidatura de Jair Bolsonaro, mas o PL entendeu isso em 2022 e, de fato começou, a trabalhar para mudar. A Michelle Bolsonaro trabalhou muito para filiar mulheres no país inteiro e começou a recrutar mais candidatas.
Em 2026, o Flávio tentou de forma muito explícita se apresentar como um candidato mais palatável para as mulheres também, inclusive trazendo a esposa dele para a campanha. No discurso após os resultados do primeiro turno, ele mencionou explicitamente o tema da violência contra as mulheres, tentando sinalizar para esse eleitorado também.
Essas eleições foram muito marcadas por campanhas para se votar mais em mulheres e, ao mesmo tempo, pelo tema da corrupção. E diversas análises e estudos apontam que as mulheres tendem a ser percebidas pelo eleitorado como mais honestas ou menos corruptas. O PL entendeu isso também e tentou colocar as mulheres como outsiders, se usando do sentimento anti-sistema.
O partido, em grande parte encabeçado pela Michelle Bolsonaro, também incentivou que as mulheres fizessem e participassem da política de sua própria maneira, sem reproduzir a lógica do fazer política masculina. Vimos uma ênfase muito grande no feminino tradicional, usando, por exemplo, o âmbito doméstico para encontros políticos.
Parte do motivo pelo qual o PL teve sucesso em recrutar mais mulheres, tanto candidatas quanto filiadas, é porque não estava demandando que elas fossem às reuniãos do partido. Uma das dificuldades das mulheres é fazer política enquanto se mantém a responsabilidade de cuidado e o trabalho, mas a forma encontrada por eles foi mais compatível com a vida dessas mulheres.
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