Como pesquisas falsas influenciam eleições
Pesquisas eleitorais falsas e deepfakes com jornalistas têm sido usadas para manipular o voto útil e enfraquecer a confiança nas urnas. Especialistas alertam que esses levantamentos mostram apenas o retrato do momento, e não previsões exatas, diferenciando-se de enquetes informais por utilizarem rigor científico e amostras estatísticas. Para combater a desinformação, a veracidade das pesquisas deve ser checada no sistema do TSE, onde o registro prévio é obrigatório por lei.
Vídeos falsos, enquetes que se passam por pesquisa e campanhas contra institutos exploram dúvidas sobre recurso estatístico para influenciar eleitores e enfraquecer a confiança nas eleições.Na campanha eleitoral para o pleito presidencial deste ano, vídeos compartilhados principalmente no TikTok, Facebook e WhatsApp mostram âncoras e jornalistas da TV Globo com suas imagens e vozes manipuladas por inteligência artificial para apresentar supostos levantamentos de intenção de voto sem qualquer registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Agências de checagem brasileiras têm detectado a disseminação de deepfakes que simulam reportagens, sobretudo do Jornal Nacional, para divulgar pesquisas inexistentes. Circulam tanto resultados falsos favoráveis a Flávio Bolsonaro como ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Esse tipo de conteúdo falso não é novo, mas chegou a um nível de realismo preocupante neste ano, segundo constatou o Observatório IA nas Eleições, uma iniciativa de especialistas para monitorar o uso de inteligência artificial em período eleitoral.
"Quando você cria uma imagem que é muito real, e uma situação que é muito verossímil, você tem um combo perfeito para que as pessoas acreditem que aquelas imagens são efetivamente reais e que determinado candidato está à frente, ou não. Então há um impacto potencial muito grande, especialmente utilizando imagens de figuras com muita credibilidade, como jornalistas", disse à DW Liz Nóbrega, diretora da Aláfia Lab, uma das organizações por trás do observatório.
A melhor forma de saber se uma pesquisa é verdadeira é consultando o site do TSE que reúne as pesquisas devidamente registradas. É que, no Brasil, a divulgação de pesquisas eleitorais é regulamentada pela Lei das Eleições e pelas resoluções do TSE. Qualquer levantamento destinado à divulgação pública precisa ser registrado previamente no sistema PesqEle, da Justiça Eleitoral, pelo menos cinco dias antes da publicação.
No registro, é possível dados como metodologia, número de entrevistados, período das entrevistas, o questionário aplicado, nome do estatístico responsável, quem contratou a pesquisa e quem a financiou.
Estratégia de ataques às pesquisas
Por terem o potencial de contribuir para o chamado "voto útil", as pesquisas estão no centro da desinformação eleitoral. Além disso, pesquisas falsas também alimentam vieses de confirmação, segundo explica Mara Telles, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel). Ou seja: os eleitores reforçam suas próprias convicções quando consomem conteúdos falsos que confirmam preferências e crenças prévias.
"Isso pode gerar raiva quando o seu voto não corresponde, o seu resultado não corresponde àquilo que estava na pesquisa [falsa]. Gera raiva, gera desqualificação das pesquisas [legítimas] e gera desqualificação ou falta de credibilidade do resultado", diz Telles.
Uma das estratégias mais usadas por grupos políticos, sobretudo quando em desvantagem nas pesquisas, é o ataque à credibilidade das sondagens. Diferenças em relação ao resultado das urnas são tratadas como prova de fraude, manipulação ou má conduta dos institutos.
Na corrida presidencial de 2022, por exemplo, o governo de Jair Bolsonaro, em meio à trama golpista, promoveu intensa campanha contra o trabalho dos institutos de pesquisa. A alegação era de que as sondagens subestimaram de propósito o apoio a Bolsonaro, que foi ao segundo turno contra Lula com 43% dos votos, muito acima das estimativas, mesmo considerando as margens de erro.
O ministério da Justiça pediu à época a abertura de inquérito na Polícia Federal sobre a atuação dos institutos de pesquisas eleitorais - o que foi barrado. A bancada bolsonarista no Congresso trabalhou, sem sucesso, pela instalação de uma CPI das pesquisas eleitorais e apresentou um projeto de lei que previa até dois anos de prisão de dirigentes e estatísticos e multa de até R$ 5 milhões quando a diferença de uma pesquisa e as eleições for maior que a margem de erro.
O tom de perseguição às pesquisas se converteu em uma onda de hostilidade contra pesquisadores. Luciana Chong, diretora-geral do Datafolha, relatou à Folha de S.Paulo, em setembro de 2022, o aumento de casos de pessoas que passavam gritando, acusando o instituto de ser comunista ou tentando filmar os entrevistadores para intimidá-los. Telles não vê o mesmo clima se repetir nas eleições deste ano.
"Em 2022, chegou muita denúncia para Abrapel de pesquisadores que nem queriam fazer as pesquisas em campo, uma vez que poderia haver muita violência política contra eles. Este ano não recebemos muitas reclamações."
Pesquisa não pretende acertar o resultado
Telles frisa que pesquisas não são feitas para acertar resultados, mas para mostrar um retrato do momento e guiar estratégias. "Então, falar que as pesquisas erram significa dizer que elas pretendiam acertar o resultado, e não é isso. Elas capturam as tendências e dizem o que está acontecendo naquele momento, com uma margem de erro. É por isso que o nome é intenção de voto, não voto."
Essa discussão voltou a ganhar volume em julho deste ano, após o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, propor a criação de um "selo de acurácia eleitoral", uma espécie de prêmio para institutos cujas pesquisas mais se aproximassem dos resultados das urnas. A proposta foi amplamente criticada e não avançou.
"Como você vai garantir quem vai ganhar? A pesquisa não faz prognósticos. Ela pode, entre aspas, 'acertar', mas o seu índice de acerto só pode ser mais ou menos verificado quanto mais se aproxima o dia das eleições", acrescenta Telles.
Diferença entre enquete e pesquisa
Há ainda uma vertente de desinformação que apresenta enquetes de redes sociais e votações online como indicadores mais confiáveis do que pesquisas eleitorais.
Pesquisas eleitorais e enquetes de redes sociais são instrumentos completamente diferentes, destaca Telles. As pesquisas seguem metodologia estatística, usam amostras construídas para representar o perfil do eleitorado e precisam ser registradas na Justiça Eleitoral com informações sobre financiamento, tamanho da amostra, margem de erro, método de coleta, entre outros.
Já as enquetes funcionam por participação espontânea. Qualquer pessoa pode votar, muitas vezes mais de uma vez ou mobilizada por grupos organizados. Como não há controle sobre quem responde nem preocupação em reproduzir as características da população, seus resultados não representam o conjunto dos eleitores. O próprio TSE define enquete como uma sondagem informal, sem rigor técnico.
"Nunca conheci alguém que participou de uma"
Um argumento recorrente contra as pesquisas eleitorais é o de que "nunca conheci ninguém que foi entrevistado". A frase engana ao ocultar a lógica básica desses levantamentos.
Pesquisas não são feitas para ouvir todos os eleitores, algo impossível em um país com mais de 150 milhões de votantes. Em vez disso, os institutos selecionam uma amostra, um grupo menor de pessoas capaz de representar as características do conjunto do eleitorado.
Para montar essa espécie de retrato em miniatura do país, os institutos recorrem a dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do TSE. A amostra é construída para reproduzir a composição da população em aspectos como sexo, faixa etária, escolaridade, renda e região.
Depois de definido o tamanho da amostra, começa o trabalho de campo. Dependendo do instituto, as entrevistas podem ser presenciais, telefônicas ou online.
Por que existe a margem de erro?
Toda pesquisa trabalha com uma margem de erro, geralmente entre dois e três pontos percentuais para mais ou para menos. Ela existe porque os institutos ouvem apenas uma parcela dos eleitores, e não a população inteira. Se um candidato aparece com 30% das intenções de voto e a margem de erro é de dois pontos porcentuais, seu resultado real pode estar entre 28% e 32%.
Outro dado importante é o nível de confiança, geralmente de 95%. Isso significa que, se o levantamento fosse repetido diversas vezes seguindo a mesma metodologia, os resultados tenderiam a permanecer dentro daquela margem na grande maioria das vezes.
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