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Sócia de empresa que instalou barras na Kiss é dispensada de depor

Gilceliane Dias Freitas havia sido arrolada como vítima da tragédia

11 set 2013
14h34
atualizado às 19h38
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Dos seis depoimentos do processo criminal da tragédia da Boate Kiss programados para esta terça-feira, um não foi realizado. Isso porque uma das testemunhas não estava na casa noturna da madrugada de 27 de janeiro deste ano, quando aconteceu o incêndio que causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas. Como nesta fase só são tomados depoimentos de vítimas, ela foi dispensada pelo titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, juiz Ulysses Fonseca Louzada.

<p>Sócia da Hidramix foi dispensada nesta quarta por não ser vítima da tragédia</p>
Sócia da Hidramix foi dispensada nesta quarta por não ser vítima da tragédia
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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A testemunha em questão, programada para ser o segundo depoimento do dia, era Gilceliane Dias Freitas, sócia da empresa Hidramix, que foi a responsável pela instalação de barras antipânico na Kiss. Por engano, ela chegou a ser listada como vítima, na denúncia feita pelo Ministério Público (MP). Sabendo dessa condição, o advogado Jader Marques, que defende o sócio da boate Elissandro Spohr, arrolou a mulher para ser ouvida com o objetivo de pôr em xeque o trabalho do MP.

O depoimento de Gilceliane estava programado para às 10h30, mas ela só apareceu pouco depois das 11h. Antes de ela chegar, o advogado Omar Obregon, defensor do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, já havia solicitado ao juiz que ela não fosse ouvida, por não ser considerada vítima.

Gilceliane se sentou em frente ao juiz Ulysses Louzada. A primeira questão do magistrado foi justamente sobre a presença dela na Kiss, na madrugada do dia 27 de janeiro. Como a resposta foi negativa, a testemunha foi dispensada. O advogado Jader Marques ainda fez menção de querer ouvi-la, mas o juiz afirmou que a sócia da Hidramix não poderia depor nesta fase, reservada para os depoimentos de vítimas.

O único depoimento realizado na manhã desta terça-feira foi o de Renata Graziele Vieira dos Santos, que estava na Kiss como cliente. Ela relatou que, na hora do tumulto, foi indo em direção à saída porque estava sendo empurrada, sem entender o que estava acontecendo. Renata ainda comentou que, ao chegar perto da porta, havia um funcionário da boate com os braços abertos, barrando a saída, dizendo que não havia acontecido nada. A vítima ressaltou que ele não tinha como saber do incêndio na posição em que estava.

Ao responder questionamento do advogado Bruno Seligman de Menezes, que representa o sócio da Kiss Mauro Hoffmann, Renata disse que chegou a ser prensada junto às barras antipânico perto da saída, mas que conseguiu encontrar a porta que dava para a rua “deslizando” junto ao ferro. “A barra, ao mesmo tempo em que atrapalhou, ajudou a sair. Eu tinha caído e só me levantei com a ajuda da barra”, afirmou Renata.

Segurança critica atendimento aos sobreviventes
À tarde, houve mais quatro depoimentos. O mais importante foi o de Jairo da Silva Lima, que atuava como segurança na Kiss. Ele trabalhava na boate havia cerca de sete meses. Apesar de ter feito cursos de prevenção a incêndio, o segurança disse que nunca recebeu qualquer orientação na casa noturna sobre como proceder em situações de pânico.

Jairo também descreveu a dificuldade que as pessoas tiveram para sair da Kiss, especialmente por causa da cortina de fumaça que tomou conta da casa noturna. “Se alguém quiser saber como estava lá dentro, é só fechar os olhos. Não se enxergava nada. Não se via nem um palmo à frente”, contou o segurança. Com problemas respiratórios e tendo que se submeter a sessões de fisioterapia por causa do incêndio, Jairo aproveitou para se queixar do atendimento aos sobreviventes. “A parte dos sobreviventes foi meio que deixada de lado. Acho que, futuramente, quem teve contato com a fumaça pode vir a falecer ou ter consequências mais graves”, opinou.

Depois dele, ainda depuseram mais três clientes da boate, que não acrescentaram novidades em relação a outros depoimentos. No final da audiência, o advogado Jader Marques forneceu o endereço para que a vítima Willian Renato Machado, sobrinho de Kiko Spohr, fosse notificada para dar depoimento em Porto Alegre, por meio de carta precatória. Como se tratava da localização do escritório do defensor na capital gaúcha, o fato foi motivo de comentários irônicos do assistente de acusação Jonas Espig Stecca e do promotor Maurício Trevisan.

Mais seis pessoas devem ser ouvidas nesta quinta
Para esta quinta-feira, há previsão de ouvir mais seis pessoas. Entre elas, um homem que atuava como segurança na Kiss. Em Santa Maria, estão previstos mais depoimentos nos dias 19, 24, 25, 26 e 27 deste mês. Haverá também audiências para ouvir vítimas nas cidades gaúchas de Rosário do Sul, Uruguaiana, Horizontina, Passo Fundo, Quaraí e Caxias do Sul. O titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, juiz Ulysses Fonseca Louzada, já manifestou a intenção de ir a todas essas audiências.

Além de Kiko, Mauro e o vocalista da Gurizada Fandangueira, responde ao processo criminal pelas 242 mortes e os mais de 600 feridos o roadie da banda, Luciano Bonilha Leão. Eles são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual (doloso) e tentativas de homicídio qualificado.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

 

 

 
Fonte: Especial para Terra
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