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Tragédia em Santa Maria

Sobreviventes da Kiss relatam dificuldades para consultas e remédios

22 ago 2013 - 19h51
(atualizado às 19h51)
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Grupo de 12 sobreviventes da tragédia se reuniram com presidente da associação de familiares das vítimas
Grupo de 12 sobreviventes da tragédia se reuniram com presidente da associação de familiares das vítimas
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

As pessoas que escaparam com vida da tragédia da Boate Kiss foram chamadas para uma reunião pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) para que relatassem as dificuldades pelas quais estão passando em relação aos atendimentos de saúde. Apenas 12 compareceram ao encontro na tarde desta quinta-feira, mas o que eles contaram sobre o descaso que estão enfrentando já foi uma boa amostra do que está acontecendo, quase sete meses depois do incêndio que causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos.

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Na reunião, que foi realizada no prédio da antiga reitoria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), um dos relatos mais frequentes era a respeito da dificuldade para se conseguir remédios na rede pública. Outros jovens falaram dos transtornos por terem de viajar a Porto Alegre e na demora para retorno de consultas e resultados de exames.

A vendedora Jarlene Spitzmacher Moreira, 27 anos, que perdeu na tragédia o marido, Leonardo de Lima Machado, 27 anos, relatou que, nos meses seguintes ao incêndio na Kiss, recebia em casa a visita de psicólogos voluntários, até porque, depois de 18 dias de internação, saiu do hospital em cadeira de rodas. Ela evoluiu para o uso de um andador e, agora, caminha com muletas. Mas, nesse meio tempo, as visitas dos psicólogos cessaram.

Jarlene Spitzmacher Moreira, 27 anos, ainda enfrenta dificuldades de locomoção após incêndio
Jarlene Spitzmacher Moreira, 27 anos, ainda enfrenta dificuldades de locomoção após incêndio
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Jarlene ainda tem muitas dificuldades de locomoção e pegou um ônibus pela primeira vez nesta semana. O que ainda está ocorrendo de forma regular, pela rede pública, é o atendimento por uma psiquiatra do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), a cada 15 dias. Outro empecilho se refere aos medicamentos. Ela precisaria de uma bombinha que não é encontrada na farmácia da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde, para ajudar na respiração, já que inalou muita fumaça. "Nem todas as medicações você encontra lá. Aí eu vou na farmácia e compro", descreveu Jarlene.

Já a estudante Tatiele Arrial, 27 anos, relata que foi "abandonada" pela psiquiatra que a atendia no HUSM. Isso sem falar que precisou esperar 90 dias pelo resultado de um exame feito no setor de pneumologia do hospital. Mas esse não foi o único problema enfrentado por ela. "Peguei ficha e esperei 60 pessoas serem atendidas na 4ª Coordenadoria de Saúde para o farmacêutico me dizer que eu deveria entrar na Justiça para conseguir a medicação que eu precisava", descreveu durante a reunião.

Tatiele ainda relatou que esteve três vezes para consultas no HUSM e nunca foi encaminhada para um exame sequer. Foi só depois de buscar um médico particular, que ela foi diagnosticada com pneumonia.

Delvani Rosso, 21 anos, falou sobre outra dificuldade comum a muitos sobreviventes: as necessidades de viagens a Porto Alegre. Certa vez, ele iria em uma van providenciada pela Secretaria de Saúde de Santa Maria, mas, quando chegou no local de saída do veículo, marcado para partir à 1h, descobriu que iria com doentes de todos os tipos e, com medo de uma infecção, devido à saúde debilitada, desistiu.

Em outra ocasião, Delvani iria para Porto Alegre para tirar as medidas da malha que teria de usar por causa das queimaduras. Ele e mais dois sobreviventes, todos com familiares de acompanhante, foram às 4h para o local de saída. Esperaram, esperaram, e só por volta das 6h30 descobriram que o veículo não iria sair, porque o registro da viagem não havia sido providenciado junto ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer). "Nos fizeram de bobo", declarou Delvani.

A experiência do rapaz serviu de motivo para questionamentos sobre a necessidade de ir a Porto Alegre para fazer a medição da malha, quando um profissional poderia ir até Santa Maria fazer esse trabalho, com vários sobreviventes de uma só vez. Para completar, Delvani ainda passou por uma situação que seria cômica, se não fosse trágica. "A minha malha veio com peitinhos, era de mulher. Tive que mandar de volta para depois receber outra", relembra o jovem.

Renata Pase Ravanello, 25 anos, a penúltima sobrevivente do incêndio a ganhar alta em Porto Alegre, disse que sentiu "má vontade" no atendimento feito no HUSM. "O médico me atendeu, mas não tocou em mim nem pediu exame complementar", contou.

Ingrid Preigschadt, 21 anos, que recebeu alta do Hospital Conceição, em Porto Alegre, no início de fevereiro, revelou que o aparelho que deveria fazer o exame de difusão pulmonar - que poderia detectar doenças como fibrose e enfisema - no HUSM está estragado há meses, o que foi mencionado também por outra jovem. Ela ainda fez um relato comum aos sobreviventes, sobre a troca constante dos psicólogos que atendiam no Centro de Atendimento Psicossocial, mantido pela prefeitura de Santa Maria.

Ingrid até desistiu do tratamento, porque, a cada consulta, tinha que relatar tudo o que tinha passado novamente, para outro profissional. "Quando foi feito o primeiro mutirão de atendimento em Santa Maria (no HUSM), abandonei o tratamento em Porto Alegre porque disseram que ia ter o mesmo aqui (em Santa Maria). Foi a pior coisa que eu fiz", contou Ingrid. 

Diante de tantos relatos de dificuldades, o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira, disse que vai procurar representantes da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde e do HUSM para saber o que pode ser feito pelas autoridades para melhorar o atendimento. "Logo depois da tragédia, muitas autoridades vieram a Santa Maria e disseram que esses atendimentos teriam prioridade. Vamos cobrar isso", disse Adherbal. 

De acordo com o diretor clínico do HUSM, o médico Arnaldo Teixeira Rodrigues, pode ter havido algum tipo de demora nos atendimentos e nos retornos de consulta por conta da grande demanda enfrentada pelo hospital. "Mas nada que interferisse nos tratamentos", relata. Rodrigues admitiu que houve um problema na instalação do aparelho que faz o exame de difusão pulmonar, mas que ele não é indispensável para o diagnóstico. "Os tratamentos, os retornos, as consultas seguem normalmente", argumenta o médico.

Em viagem, a titular da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde, Ilse Melo, não foi localizada pelo Terra para comentar os relatos das vítimas.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos

Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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