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RS: músico da Gurizada Fandangueira se nega a depor no processo da Kiss

Irmão do vocalista da banda disse que não queria ser ouvido como vítima, mas baixista do grupo confirmou o uso de artefatos pirotécnicos nas apresentações

10 jul 2013
23h03
atualizado às 23h04
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Em mais um dia de depoimentos de sobreviventes no processo criminal da tragédia da Boate Kiss, a expectativa era grande para ouvir dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira. Porém, só um deles falou nesta quarta-feira. O outro, que era percussionista do grupo, disse que não gostaria de ser ouvido na condição de vítima, pois é irmão do vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, acusado de ter iniciado o incêndio na casa noturna ao fazer uso de um artefato pirotécnico.

O baixista da Gurizada Fandangueira, Giovani Rodolfo Kegler durante depoimento no Fórum de Santa Maria
O baixista da Gurizada Fandangueira, Giovani Rodolfo Kegler durante depoimento no Fórum de Santa Maria
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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O fato de o baixista da Gurizada Fandangueira, Giovani Rodolfo Kegler, e o percussionista, Márcio André Jesus dos Santos, terem sido chamados para depor como vítimas já foi motivo do primeiro protesto do dia. O advogado Omar Obregon dos Santos, que defende o vocalista do grupo, Marcelo de Jesus dos Santos, reclamou pelo fato de os dois músicos já terem sido chamados por ele como testemunhas de defesa. “É a inversão do ônus da prova”, disse o defensor. O protesto foi endossado pelas demais defesas.

Dois dos quatro réus do processo e seus defensores
Dois dos quatro réus do processo e seus defensores
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Mesmo assim, o juiz Ulysses Fonseca Louzada decidiu que o baixista, primeiro a depor na tarde desta quarta-feira, poderia ser ouvido. Kegler disse que “não viu bem” como começou o fogo, pois estava concentrado em seu instrumento. “Só me lembro quando começou a pingar algo do teto”, disse o músico. Ele confirmou que a Gurizada Fandangueira usava artefatos pirotécnicos em seus shows, mas declarou que era a primeira vez em que aquele tipo de sinalizador era empregado. Inclusive, segundo ele, era a estreia de Amor de Chocolate, do cantor Naldo, no repertório do grupo. Era essa a música interpretada no momento em que o fogo começou.

Kegler, que tocava na Kiss desde quando a boate abriu, em 2009, também falou com detalhes sobre as reformas pelas quais o local passou. E estimou, com base na experiência que tinha como músico que tocava em diferentes locais, que havia cerca de mil pessoas na Kiss na madrugada da tragédia.

O segundo depoimento do dia foi do operador de som Venâncio da Silva Anschau, que prestava serviços para a Gurizada Fandangueira. Ele disse que não se considerava uma vítima. Anschau declarou que, nas apresentações da banda, tudo o que seria apresentado era definido antes com os responsáveis pelos locais. “No contrato, era definido tudo o que acontecia no show. Em certos locais, o dono da boate dizia que não queria (artefatos pirotécnicos). Dependendo da negociação, o Danilo (Jaques, gaiteiro da banda que morreu na tragédia) avisava o Luciano (Bonilha Leão, produtor de palco da banda e um dos réus)", afirmou o operador de som.

Familiares das vítimas assistem aos depoimentos
Familiares das vítimas assistem aos depoimentos
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Depois, foi a vez de Luciene Louzeiro da Silva, que era frequentadora da boate e estava perto do palco na madrugada da tragédia, depor. Ela e uma amiga chegaram a avisar um integrante da banda sobre o começo do fogo no teto, depois que algo pingou na camisa dele. Com problemas de depressão pelo que viu na boate, Luciene contou em detalhes o que passou na noite da tragédia. O relato dela fez com que a mãe de uma das vítimas que estava assistindo a audiência ficasse emocionada. Ela se levantou, gritando “assassino”, por diversas vezes para os réus Luciano Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos, que estavam no Salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Santa Maria. Ela passou mal e foi retirada do local.

O próximo a falar seria o percussionista da Gurizada Fandangueira, Márcio André Jesus dos Santos, irmão do vocalista da banda. Questionado pelo juiz, ele disse que não queria depor na condição de vítima. O magistrado, então, concordou em cancelar o depoimento.

Bruna Claussen da Silva falou na sequência e contou sua experiência de dois anos como funcionária da Kiss. Sobre a madrugada da tragédia, ela disse que ouviu uma colega dizer que tinha aberto o “montinho das 800 comandas” distribuídas naquela noite, por volta das 2h30, destacando que contavam as comandas de cem em cem.

O último depoimento do dia foi de Matheus da Rosa Abaide, que disse acreditar ter sido um dos 20 primeiros a sair da boate, com a irmã e uma amiga. Ele contou que seguranças chegaram a trancar a saída por alguns segundos, mas que logo chegou Elissandro Spohr, sócio da Kiss e réu no processo, mandando liberar. “Ele chegou e disse ‘deixa sair, deixa sair’”. Ele ainda viu o empresário do lado de fora da casa noturna, lamentando o ocorrido e gritando “minha boate”. O depoimento de Abaide terminou por volta das 19h30.

Durante a audiência desta quarta, o juiz Ulysses Louzada comunicou que chegou à 1ª Vara Criminal de Santa Maria um ofício da 1ª Delegacia de Polícia Civil comunicando a respeito de um inquérito aberto por tentativa de coação a uma testemunha que ainda vai depor. O fato se refere a uma pessoa ligada à administração da casa noturna que teria dado carona a um sobrevivente da tragédia e funcionário da Kiss e dado a entender que reprovou o depoimento da vítima dado no inquérito policial. Outros depoimentos já estão marcados para os dias 16, 17 e 23 de julho. Já foram ouvidas 33 pessoas.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

Especial para Terra
 

 

Fonte: Especial para Terra

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