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RS: discussões e relatos de internados marcam depoimentos da tragédia

Outros seis sobreviventes vão depor na tarde desta quarta-feira no Fórum de Santa Maria

9 jul 2013
21h54
atualizado às 22h09
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Mais cinco sobreviventes foram ouvidos nesta terça-feira no processo criminal da tragédia da Boate Kiss, no salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Santa Maria (RS). Chamou a atenção o relato das vítimas sobre a grande dificuldade que tiveram para sair da casa noturna, no dia 27 de janeiro, e os períodos em que ficaram internadas em consequência do incêndio. O dia também foi marcado por discussões e duelos entre representantes de acusação e defesa. Mais seis testemunhas devem ser ouvidas nesta quarta-feira, a partir das 14h.

Joel Berwanger, 18 anos, que ficou 55 dias internado após o incêndio na Boate Kiss, conseguiu sair com rapidez porque tinha ido ao banheiro perto da saída
Joel Berwanger, 18 anos, que ficou 55 dias internado após o incêndio na Boate Kiss, conseguiu sair com rapidez porque tinha ido ao banheiro perto da saída
Foto: Especial para Terra

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O primeiro depoimento do dia foi de Guilherme Patatt, 18 anos, que disse não ter ideia de como saiu da Kiss, pois desmaiou em frente à porta entre o hall de entrada e o salão principal. Ele estava na área VIP, no mesmo ambiente do palco, mas não viu o início do fogo. Pattat só tomou consciência do que estava acontecendo quando foi “empurrado” por um segurança para deixar a casa noturna. “A princípio, era um briga. Quando cortou a luz e veio a fumaça, aí foi um desespero”, disse. De acordo com Patatt, a porta na frente da qual ele desmaiou estava fechada. “Estava todo mundo batendo na porta e pedindo socorro para sair”, relembrou.

O jovem ficou internado em Porto Alegre por 30 dias. Desses, 15 dias em coma induzido e 19 entubado. Quando ele tentava sair da Kiss, algo caiu do teto sobre um dos braços, que queimou e precisou receber enxertos de pele. Ele tinha ido à casa noturna para comemorar o aniversário do amigo Igor Stephan Pereira, que morreu. Patatt estimou que havia cerca de mil pessoas na boate.

Depois de um intervalo, os depoimentos foram retomados à tarde, com Joel Berwanger, 18 anos, o último sobrevivente a ter alta no Hospital de Caridade, em Santa Maria, depois de 55 dias de internação. Ele conseguiu sair com rapidez porque tinha ido ao banheiro perto da saída com o colega Emílio Buchanelli Bernich, que foi o quarto a depor nesta terça. “Quando me dei conta, estava na rua”, contou Berwanger, que precisou de enxertos em um dos braços e nas costas devido às queimaduras. O final do depoimento do rapaz foi marcado por uma “bronca” do promotor Joel Oliveira Dutra ao assistente de acusação Pedro Misael Correa, depois que ele fez uma pergunta que buscava uma interpretação da testemunha sobre a tese do dolo eventual (quando se assume o risco de matar alguém).

A seguir, veio o depoimento de Kátia Giane Pacheco Tomazetti, que trabalhava na Kiss havia sete meses. Ela estava na cozinha, atrás de um dos bares da casa noturna, na madrugada de 27 de janeiro, e não percebeu o começo do fogo. “Achei que era briga”, contou a jovem, que quase não conseguiu sair de onde estava. “Pareciam uns animais, uns por cima dos outros. Tinha gente entrando na cozinha, no bar, no banheiro”, relembrou. Ela desmaiou ainda dentro da boate. Depois de acordar, ouviu um rapaz perguntando “tem alguém aí?”. Ele chegou a pegá-la, mas alguém atrás da jovem gritou mais alto por socorro. O jovem chegou a largá-la, mas Kátia se agarrou nas pernas dele e, depois, foi retirada por outros dois rapazes, com duas ou três pessoas sobre as pernas dela. Kátia teve quase 50% do corpo queimado e passou 46 dias internada em Porto Alegre. Ela foi mais uma ex-funcionária da Kiss que disse não ter recebidos ordens do outro sócio da casa noturna, Mauro Hoffmann.

Os depoimentos de Patatt, Berwanger e Bernich também foram marcados por um duelo entre e o assistente de acusação que representa a Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Jonas Espig Stecca, e os advogados Jader Marques e Leonardo Santiago, que defendem o sócio da Kiss Elissandro Spohr, o Kiko. Stecca perguntava aos sobreviventes sobre reuniões que teve com eles antes da audiência desta terça. Os jovens afirmaram que não houve combinação e que o advogado só disse para “falarem a verdade”. Já Marques e Santiago questionavam o fato de o assistente de acusação ter repassado com as vítimas os depoimentos dados por elas no inquérito da Polícia Civil.   

O último depoimento do dia foi de Armin Mathias Muller Korb, que seria intimado para depor em Ijuí (RS), mas veio a Santa Maria nesta terça-feira especialmente para a oitiva. Por isso, ele acabou substituindo Bruno Rupollo Grethe, outro sobrevivente que estava previsto para depor hoje, mas não apareceu. Korb chegou a relatar que os seguranças trancaram a porta para exigir os pagamentos das comandas, mas que foi muito rápido, “por 20 ou 30 segundos”. Ele estava com uma amiga e foi em direção à porta assim que viu o fogo começar. “Comentei com minha amiga: ‘olha lá, aquele louco tá colocando fogo na boate’.” Korb ainda contou que, depois de sair, entrou de novo na Kiss “uma três, quatro vezes” para tentar salvar alguém, depois de ouvir pedidos de ajuda feitos por bombeiros.

O último ato da audiência desta terça-feira foi uma discussão entre o advogado Bruno Seligman de Menezes, que defende Mauro Hoffmann, e o promotor Joel Oliveira Dutra. O representante do Ministério Público considerou “subjetiva” uma pergunta feita pelo defensor, que tentava saber de Armin Korb de onde ele tinha constatado que a Kiss tinha lotação para 700 pessoas e abrigava mais de mil na madrugada de tragédia.  

Cerca de 15 familiares de vítimas acompanharam a audiência desta terça-feira. Entre eles, estava o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira. Francisco Willers, pai da jovem Alana, que morreu na tragédia aos 18 anos, saiu de Ijuí para Santa Maria para assistir aos depoimentos. “É impossível que uma tragédia que causou a morte de 242 pessoas passe em branco. Confiamos no trabalho da Justiça, mas foram muitos erros. Muitas pessoas estão fora, não queremos que só os quatro réus paguem por isso”, disse Francisco. Alguns familiares se emocionaram durante a audiência e precisaram de atendimento.

Quatro das 10 testemunhas previstas para esta terça-feira serão ouvidas nas cidades em que estão residindo. Entre esses casos, estão o baterista da banda Gurizada Fandangueira, Eliel Bagesteiro de Lima, e o guitarrista do grupo, Rodrigo Lemos Martins, que serão ouvidos em Rosário do Sul. Outros sobreviventes irão depor em Porto Alegre e Florianópolis.  

A partir das 14h desta quarta, estão previstos mais seis depoimentos. A intenção do juiz Ulysses Fonseca Louzada era ouvir mais duas testemunhas durante a manhã, mas os defensores não foram intimados a tempo da mudança de horário da audiência. Outras oitivas já estão marcadas para os dias 16, 17 e 23 de julho. Já foram ouvidas 28 pessoas. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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