Ninguém apontou erros do município, diz prefeito de Santa Maria
Um mês após a tragédia que matou 239 pessoas na boate Kiss, ninguém apontou erros da prefeitura de Santa Maria (RS), afirmou nesta quarta-feira o chefe do Executivo municipal Cezar Schirmer. Com documentos à mão da fiscalização do Corpo de Bombeiros na casa noturna que pegou fogo no dia 27 de janeiro, o prefeito diz que não serão abertas sindicâncias enquanto não houver uma definição clara de alguma omissão por parte do município.
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"Aquilo (o alvará de prevenção contra incêndios do Corpo de Bombeiros) é um documento que diz que toda a legislação está sendo cumprida. Não é minha tarefa responsabilizar este ou aquele. O que quero dizer é que até este momento não é dito que a prefeitura errou aqui ou acolá. Se um fiscal não agiu correto (...), bom, se isso vier a acontecer, claro que nós vamos tomar providências", disse Schirmer em entrevista ao Terra.
Na opinião do prefeito, a lei estadual é clara ao colocar o Corpo de Bombeiros como responsável pelo exame dos planos e inspeções dos sistemas de prevenção contra incêndio. A prefeitura não pode questionar um laudo aprovado pela corporação, segundo ele.
O incêndio de Santa Maria deu início a um processo de fiscalização massiva de casas noturnas por todo o Brasil. "Não é só aqui, é em todo o Brasil, acho que no planeta inteiro estão avaliando a situação das casas noturnas. Já oferecemos sugestões à Câmara dos Deputados... talvez o ideal seria uma legislação nacional, unificadora", disse.
Referência em voluntariado
Na opinião do prefeito, a tragédia precisa trazer ensinamentos. "Eu acho que a tragédia não pode terminar em si, tem que deixar ensinamentos, aprendizagem. É possível transformar Santa Maria em referência nacional em muitas coisas. No voluntariado, por exemplo. No dia da tragédia foi um trabalho fenomenal, centenas de pessoas que se apresentaram para distribuir água, comida", lembrou.
Schirmer disse que a ajuda das pessoas evitou problemas de informação no difícil momento do reconhecimento de corpos no Centro Desportivo Municipal (CDM), no mês passado. "Isso é uma coisa notável, a organização, que normalmente nessas tragédias sempre dá problema, porque as pessoas não são bem informadas, aqui, graças a Deus, não houve uma reclamação", ressaltou.
Ideias de homenagens às vítimas são muitas na mesa do prefeito, que acredita que ainda não é tempo de pensar em memoriais. Os projetos vão desde a criação de um centro de estudos de políticas para a juventude até a criação de um monumento em memória dos mortos na tragédia.
Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou mais de 230 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.
Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.
Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.
Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.
Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.
A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.
No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.