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Família de vítima da Kiss convive com lembranças de sucessivas perdas

27 jan 2014
19h13
atualizado às 23h52
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No Cemitério Municipal de Santa Maria, onde estão enterradas dezenas de vítimas da tragédia na Boate Kiss, Clarice Izabel Simões Côrte Real, 47 anos, acariciava a foto da filha, Carolina, exposta em uma das milhares de lápides espalhadas pelo terreno. A dor da perda da filha, que completa um ano nesta segunda-feira, é o mais recente episódio vivenciado por uma família marcada pela ausência.

No Cemitério Municipal de Santa Maria, Clarice relembra a perda da filha, Carolina
No Cemitério Municipal de Santa Maria, Clarice relembra a perda da filha, Carolina
Foto: Daniel Favero / Terra

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A segunda-feira foi de peregrinação entre a boate e os cemitérios da cidade, e de reencontro com as lembranças daquela trágica madrugada de 27 de janeiro de 2013. No olhar vazio de pais, irmãos, tios e avós, o semblante de uma população que vive em luto diário.

Acompanhando a nora, Maria Izolina Côrte Real, 70 anos, avó de Carolina, lembra que os meses de dezembro e janeiro são especialmente difíceis para a família. Antes de visitar o túmulo da neta, Maria Izolina já havia revivido o luto pelas mortes do marido e de seu filho. "Final de ano é sempre terrível, porque meu marido morreu em dezembro. Em janeiro, foi meu filho, e agora minha neta...", diz a idosa, fitando o vazio sob o sol escaldante de Santa Maria.

"Minha filha morreu aos 18 anos, no terceiro semestre da faculdade... ela tinha a vida inteira pela frente", lamenta Clarice, amparada pela sogra e pela cunhada, Sandra Côrte Real, 38 anos. Vestindo uma camiseta com o rosto da sobrinha, Sandra externava uma revolta comum a quase todos que perderam seus entes queridos na tragédia.

"Pouco antes do incêndio, eu presenciei a abordagem da polícia a um vendedor de abacaxis, que foi proibido de trabalhar porque não tinha alvará. Eu juro, um PM deu um coice no carrinho dele, derrubou os abacaxis na rua. Como é que a prefeitura cobra alvará do vendedor de abacaxi e, ao mesmo tempo, deixa uma boate funcionar tanto tempo sem documento?", questiona.

Em uma cidade dividida entre a memória latente da dor e a vontade de superar a tragédia, Sandra se exalta ao falar daqueles que não querem mais conviver com o luto das famílias de vítimas da Boate Kiss. "Essas pessoas que dizem que não querem mais saber disso, que querem que a gente esqueça isso... para mim, não são nem seres humanos. É muita insensibilidade achar que a gente vai conseguir esquecer uma vida que tiraram da gente", protesta.

"Não é fácil. Não tem um dia que passe sem que eu fique pensando na minha neta. Tem vezes que bate um desânimo, mas...", diz dona Maria, os olhos perdidos, sem que a frase fosse completa.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento. 

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissandro - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

Fonte: Terra
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