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Tragédia em Santa Maria

Boate Kiss: quatro meninas seguem internadas em hospitais

Jovens internadas já passaram pela pior fase e conseguiram sair de UTIs, mas ainda não têm previsão de alta

26 abr 2013 - 21h10
(atualizado às 21h10)
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Cristina Peiter recebeu a visita do Guri de Uruguaiana, um famoso comediante local, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Cristina Peiter recebeu a visita do Guri de Uruguaiana, um famoso comediante local, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Foto: Facebook / Reprodução

Passados três meses da tragédia, quatro jovens seguem lutando por sua vida em hospitais de Porto Alegre. Todas já passaram por momentos mais difíceis, em UTIs, entre a vida e a morte. Aos poucos, elas se recuperam e já contam os dias para voltar para casa.

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No Hospital Mãe de Deus, segue internada Ritchieli Pedroso Lucas, 19 anos, que já saiu da UTI. Ela recebe acompanhamento constante do pai e da mãe. “Ela está melhorando bem. Ainda não tem previsão de alta, mas está melhorando”, disse o pai, Bráulio, nesta sexta-feira, por telefone, de Porto Alegre. Ritchieli é irmã de Driele Pedroso Lucas, 23 anos, que foi a 241ª vítima da tragédia.   

No Hospital de Clínicas, restam três internadas. Uma delas é Cristina Peiter, 23 anos, aluna do curso de Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que já recebeu a visita do Guri de Uruguaina, um famoso comediante local, no quarto. Nesta sexta-feira, também em Porto Alegre, a mãe dela, Nilva, disse que a filha está bem, após passar por uma cirurgia na mão esquerda, em razão das queimaduras nos tendões. “Nos próximos dias, vão fazer uma avaliação da cirurgia e até já dá para pensar em alta”, torce Nilva.     

Cristina, que é natural de Três de Maio, está consciente, com os problemas respiratórios sanados. Ao lado dela no hospital, de forma permanente, estão os pais, Astor e Nilva, que deixaram a vida em Casca para se revezar no auxílio à filha. A jovem segue firme no propósito de se formar em Engenharia Florestal depois que o semestre acabar em agosto. Apenas um trabalho de conclusão e o estágio a separam do diploma.

Quem também se recupera é Renata Pase Ravanello, 25 anos. Nesta sexta-feira, ela chegou a dar entrevista ao vivo para uma rádio. Funcionária concursada da prefeitura da Júlio de Castilhos, no centro do Estado, Renata é advogada e mora em Santa Maria. Está terminando uma pós-graduação em Direito do Trabalho. Ela teve cerca de 20% do corpo queimado. De acordo com o irmão, Jonas, a jovem ainda não tem previsão de alta, mas se recupera bem, acompanhada pelos pais em Porto Alegre. Depois de 26 dias no CTI do Clínicas, Renata já está recuperada da parte respiratória, mas depende da cicatrização das queimaduras para voltar para casa.

A reportagem do Terra não conseguiu contato com familiares de Mariane Wallau Vielmo, 24 anos, a terceira internada no Clínicas. De acordo com a assessoria de comunicação do hospital, não havia notícias sobre uma possível alta dela nesta sexta-feira. Estudante de Sistemas de Informação no Centro Universitário Franciscano (Unifra), Mariane, natural de Santiago, na região central do Estado, trabalha em Santa Maria.

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos

Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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