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TJ rejeita recurso e libera construção de prédios no Bosque dos Salesianos, na zona oeste de SP

Justiça considerou legal o corte de 118 árvores no no Alto da Lapa e manteve sentença que validou Termo de Compromisso Ambiental

1 out 2026 - 23h16
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Resumo
Por 3 votos a 2, o Tribunal de Justiça de SP rejeitou recurso do Ministério Público e liberou a construção de duas torres pela Tegra no Bosque dos Salesianos, na zona oeste da capital. A decisão validou a retirada de 118 árvores, autorizada pela Prefeitura mediante o plantio compensatório de 1.799 mudas, sob o argumento de predomínio de espécies exóticas. A liberação contraria ambientalistas e moradores, que alertam para riscos de alagamentos e perda ambiental. Ainda cabe recurso.

Em julgamento realizado nesta quinta-feira, 1.º, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu em favor da Prefeitura de São Paulo e da construtora Tegra e considerou legal o corte das 118 árvores que a empresa realizou no Bosque dos Salesianos, na zona oeste da capital, em novembro do ano passado.

A decisão, tomada pela 2.ª Câmara de Direito Ambiental, rejeita o recurso apresentado pelo Ministério Público e mantém a sentença que validou o Termo de Compromisso Ambiental (TCA) emitido pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) para o empreendimento no Bosque dos Salesianos.

A construtora pretende construir duas torres no local e a decisão do TJ-SP abre caminho para o empreendimento. Ainda cabe recurso. "O acórdão ainda não foi publicado. A Prefeitura aguarda a publicação do documento para conhecimento integral da decisão", disse a administração municipal em nota divulgada no início da noite. Questionada, a Tegra ainda não retornou.

Obras paradas no terreno do Bosque dos Salesianos, localizado no Alto da Lapa, zona oeste de São Paulo.
Obras paradas no terreno do Bosque dos Salesianos, localizado no Alto da Lapa, zona oeste de São Paulo.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

A limpeza do terreno chegou a ser feita sob autorização da Prefeitura, mas, após o Ministério Público entrar com um recurso para barrar a obra, a Justiça determinou que o empreendimento fosse suspenso até o recurso ser analisado.

A nova decisão desta quinta foi definida por 3 votos contrários ao recurso contra 2 favoráveis. Um dos argumentos usados pelos desembargadores contrários ao recurso foi o de que a área possui mais vegetação exótica do que nativa.

"A divergência é bastante elucidativa quanto ao resultado de perícia técnica, que assenta a existência de vegetação exótica, muito mais do que paisagística, sem grande importância quanto à configuração de um maciço vegetal que sustente algum tipo de interesse", disse um dos magistrados.

Outro desembargador, que votou favoravelmente ao recurso, contra-argumentou. O magistrado citou o Decreto Estadual nº 30.443, de 1989, que considera a vegetação existente no bosque como patrimônio ambiental do município de São Paulo, independentemente da sua natureza.

"A norma não distingue espécies nativas e exóticas, não exige metragem mínima e não condiciona a proteção ao caráter espontâneo da vegetação. O critério eleito pelo Estado foi puramente locacional", disse.

"Por isso, com a devida vênia, a constatação do laudo de avaliação ambiental de que a área apresenta feição de jardim, com 67%, 66% e 49% de exemplares exóticos, nada diz sobre a incidência da proteção estadual", acrescentou.

O Coletivo Bosque dos Salesianos, que defende a proteção da área, diz que a decisão é contrária à vontade de 57 mil pessoas, que assinaram um abaixo-assinado em favor da preservação do bosque.

"É estarrecedor que uma Câmara Reservada do Meio Ambiente chegue a esse resultado, ignorando a situação de emergência climática que vivemos, o clamor popular em defesa do meio ambiente e indo na contramão das ações mundiais pela sua preservação", disse o grupo por meio de nota.

Entenda a briga na Justiça

O bosque ocupa um terreno de aproximadamente 7 mil m² entre as ruas Pio XI, Sales Júnior e Presidente Antônio Cândido, no Alto da Lapa. A área pertencia à Universidade Salesiana — dona de um terreno de 16 mil m² — e foi adquirida pela Tegra em 2024 para a implantação do empreendimento imobiliário.

A Tegra, por sua vez, dizia possuir as autorizações necessárias para a execução da obra. Entre elas estão o Termo de Compromisso Ambiental (TCA), firmado com a Prefeitura de São Paulo, e o Alvará de Execução de Edificação Nova.

Pelo acordo ambiental, a empresa recebeu autorização para realizar o manejo de 118 árvores, incluindo exemplares nativos, exóticos, invasores e já mortos, comprometendo-se a plantar 1.799 mudas de espécies nativas — parte delas no próprio terreno e a maior parcela em outros espaços.

O termo também prevê investimentos em melhorias urbanas e na revitalização de praças do bairro.

No fim de 2024, o Ministério Público ajuizou uma ação civil pública e pediu a concessão de tutela de urgência para impedir a retirada da vegetação. A Justiça acolheu o pedido e suspendeu as obras.

Em junho de 2025, porém, o Tribunal de Justiça reformou a decisão e autorizou a retomada do empreendimento. Com isso, a Tegra iniciou, em novembro, a retirada das mais de cem árvores autorizadas pelo TCA, o que motivou novos protestos de moradores e integrantes do Movimento Salve o Bosque.

Após o início da supressão da vegetação, o Ministério Público voltou a recorrer e conseguiu uma nova liminar, já em segunda instância, em dezembro de 2025, suspendendo as intervenções até o julgamento desta quinta-feira — a sessão chegou a ser adiada duas vezes desde agosto, data inicial para apreciação do caso.

Os grupos que defendem a preservação da área sustentam que o bosque é um dos últimos remanescentes de área verde do bairro e tem relevância ambiental e histórica para a região.

Membros do grupo Salve o Bosque, ouvidos pela reportagem, afirmam que o local é importante para a permeabilidade do solo e para a drenagem da água da chuva. Sem ele, dizem, a água deixará de ser absorvida pelo terreno e poderá provocar alagamentos nas partes mais baixas da Lapa, região que já sofre com esse tipo de ocorrência.

Estadão
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