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Sobram perguntas que vão ficar sem resposta no caso Lázaro

Cássio Thyone, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, comenta desfecho das buscas a Lázaro Barbosa, o 'Serial Killer do DF'

29 jun 2021 05h10
| atualizado às 07h50
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O caso das buscas a Lázaro Barbosa é um evento que vai marcar a história das nossas polícias: pelo tempo de duração, pela repercussão midiática, pelo contingente de policiais envolvidos, entre outros fatores. E como medir a eficiência de uma operação dessas? Pelo tempo? Pelo resultado final?

Montagem com possíveis disfarces de Lázaro Barbosa divulgada durante as buscas
Montagem com possíveis disfarces de Lázaro Barbosa divulgada durante as buscas
Foto: Polícia Civil/Divulgação / Estadão Conteúdo

Para muitos, o critério que deve ser usado é o de tempo. Sobre isso, acredito que a operação poderia ter durado menos, mas não se pode desconsiderar os fatores intrínsecos à operação. Sem dúvidas, ela foi complexa, em decorrência da dimensão da área, da dificuldade do local e também das características do próprio foragido, como habilidades e conhecimento da região. Ao mesmo tempo, a operação expôs, no micro, dificuldades que a área de segurança pública no Brasil enfrenta no macro, como questões de integração entre diferentes forças. Muitas vezes, é difícil superar vaidades e diferenças entre instituições trabalhando conjuntamente.

Por outro lado, nós poderíamos pensar que o sucesso da operação depende do desfecho. Como o Lázaro saiu de circulação, ele deixou de causar todo um problema de segurança pública em uma região. Muita gente vai falar que isso foi o melhor que poderia acontecer, mas tem a questão que envolve o fato de ele não ter sido capturado vivo. E aí existem ponderações a serem feitas. Não deixa de estar previsto que o foragido, ao reagir contra policiais armados, possa ser abatido. Porém, é preciso entender os detalhes de como essa operação aconteceu. E até agora nenhum de nós tem esses detalhes.

O melhor desfecho seria se ele estivesse vivo. Do ponto de vista investigativo, seria muito importante porque tem muitas coisas a serem esclarecidas. Mesmo no crime da chacina, cuja autoria foi praticamente fechada, ainda surgem alguns questionamentos. Será que o Lázaro matou por sua única motivação? E se por trás de alguns dos crimes que foram atribuídos ao Lázaro houver algum mandante? E se tiver outros interesses que não a motivação pessoal?

Alguns elementos que surgiram recentemente abrem perspectivas em cima desse raciocínio. Como o fato da colaboração que ele teve para continuar foragido, a ajuda dada pelo fazendeiro, por ter conseguido se alimentar, entre outros detalhes. Hoje (segunda-feira, 28), por exemplo, dava para ver que ele estava barbeado. Até a roupa e os cerca de R$ 4 mil com os quais ele foi encontrado chamam atenção.

A gente não tem muito como cravar que o desfecho seria diferente se não tivesse toda repercussão que teve. Mas a operação se tornou quase a luta do bem contra o mau. O clamor popular, junto com a ação dos policiais, fez com que o clima se tornasse algo que, sem dúvidas, iria influenciar. Dificilmente se esperaria outra coisa diferente do que aconteceu. A não ser que o próprio Lázaro, nos intervalos em que estava sendo procurado, chegasse ao local de mãos para cima e se entregasse.

É impossível imaginar que ruídos externos não cheguem à tropa. Será que o policial não estava encarando o caso como uma verdadeira caçada, como se estivesse buscando um prêmio? E a corporação que pegasse seria a premiada. Esse tipo de ruído não é bom. Nunca foi. Porque dificulta o compartilhamento, por exemplo, de informações entre inteligências da Polícia Rodoviária Federal, da Polícia Civil e da Polícia Militar.

Sobre a manifestação de Bolsonaro dizendo 'CPF cancelado', é uma postura utilizada para tentar uma reafirmação perante os próprios apoiadores do presidente. Não me surpreende, porque isso já vinha sendo usado em outras situações. Não é a primeira vez que o presidente se manifesta apoiando a ideologia do CPF cancelado. Em uma situação dessa, de maior repercussão, ele não iria fazer? Ele está sendo coerente com a linha que ele sempre seguiu. Mas por pior que seja a pessoa que morreu, não é isso que vai nos fazer sair da atual condição que vivemos, de menor civilidade, para uma condição de maior civilidade. Nós estamos longe disso.

*É perito criminal aposentado da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)

Estadão
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