RJ: em protesto, estátua de Castelo Branco é manchada de tinta
Um protesto realizado na manhã deste domingo, no Rio de Janeiro (RJ), terminou com a estátua do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar (1964-1985), manchada com tinta vermelha. Além disso, após a leitura do nome de militantes mortos durante o governo do militar, foram colados cartazes e o monumento recebeu uma faixa de "Ditador do Brasil".
A manifestação foi organizada pela Articulação Estadual pela Memória, Verdade e Justiça, além de partidos, entidades estudantis e pela organização não governamental (ONG) Tortura Nunca Mais. O protesto começou com uma caminhada que cruzou algumas ruas do bairro de Copacabana, terminando no Posto 3, na praia do Leme, onde está localizado a estátua. No local, os manifestantes apresentaram o que denominaram ''crimes'' do militar (que nunca teve acusação formal, ainda que póstuma, ou julgamento).
''É possível construir um novo cenário, mas para isso é necessário que a gente leia esta página da história, que a gente saiba o que aconteceu, saiba onde estão as pessoas desaparecidas, quais foram os responsáveis pelos assassinatos, pela tortura'', disse o jornalista e sociólogo Sergio Moura, da direção do Tortura Nunca Mais. Para ele, esse tipo de manifestação tem uma lógica. ''Quem não consegue conhecer a própria história está condenado a repeti-la. É justamente para que se possa superar este período que a gente precisa fazer a expiação deste período'', disse o jornalista. ''Essa manifestação mostra para a sociedade brasileira que a resistência popular contra o arbítrio permanece viva e ativa''.
Durante a caminhada, familiares de desaparecidos durante o período da ditadura, além de grande número de jovens, empunharam cartazes com nomes e fotos de militantes políticos mortos. Também realizaram uma batucada, apoiada por um carro de som.
''Nós aqui no Estado estamos construindo essa articulação ampla de grupos que vêm fazendo a luta pela memória do nosso País, realizando escrachos, atos, e exigindo não só a retratação histórica, mas também a punição aos torturadores e responsáveis pelos crimes de sequestro, além da criação de monumentos públicos'', contou o engenheiro de petróleo Vitor Ferreira, membro da Consulta Popular, um dos grupos que compõem a frente Articulação.
Entre os monumentos que começam a ser pleiteados, estão dois centros de memória, um deles na antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na região central, próximo à Lapa, e outro na chamada Casa da Morte, em Petrópolis.
Ana Miranda, militante torturada durante a ditadura militar e participante do Coletivo RJ, destaca como positiva a participação de militantes jovens, que não viveram nem têm parentesco com vítimas da ditadura.
Os manifestantes também exigiram uma apuração ampla e irrestrita pela Comissão da Verdade, colegiado responsável pela investigação de violências ocorridas no período da ditadura militar, em especial no período anterior à Lei da Anistia.
Embora o protesto tenha sido acompanhado pela Guarda Civil Municipal, a instituição não apresentou uma estimativa de participantes. Segundo a organização do evento, cerca de 150 pessoas estiveram presentes no ato.