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Nunes tem derrota no STF por tentativa de flexibilizar regra sobre barulho em SP

Ministra Cármen Lúcia rejeitou recurso da gestão municipal; Prefeitura e Câmara informaram que ainda não foram notificadas, mas irão analisar as medidas cabíveis

13 mar 2026 - 17h58
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O Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou recurso da Prefeitura de São Paulo para ampliar o limite de barulho no entorno de shows e grandes eventos na capital. A decisão da ministra Cármen Lúcia foi publicada nesta sexta-feira, 13.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) buscava reverter decisão do Tribunal de Justiça do Estado (TJ-SP), que considerou inconstitucional a flexibilização da lei de poluição sonora, aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito em 2024.

A Prefeitura tentava alterar a aplicação do Programa Silêncio Urbano (Psiu) para shows e grandes eventos há três anos, mas acumulava derrotas na Justiça. "Eventual recurso contra esta decisão demonstraria apenas inconformismo e resistência em pôr termo a processos que se arrastam em detrimento da eficiente prestação jurisdicional", afirmou a ministra.

Questionada sobre a decisão, a Prefeitura informou que ainda não foi notificada, mas, assim que for, irá analisar as medidas cabíveis. A Câmara dos Vereadores também disse ainda não ter sido intimada, mas que verificará "o teor da decisão".

No recurso, a Prefeitura afirmou que a decisão do TJ-SP "elegeu o direito ao sossego a um patamar de quase absolutismo, desconsiderando a complexa ponderação de interesses que o legislador municipal buscou realizar".

O prefeito defendia o potencial de geração de emprego e renda. Em setembro, Nunes chegou a falar em "perseguição" ao setor de entretenimento.

A flexibilização do Psiu era criticada por associações de moradores, especialistas e organizações sociais. Eles argumentam o risco de incômodo à vizinhança, com impactos na saúde e no bem-estar. Estádios e áreas de grandes eventos têm histórico de multas por ruído na cidade.

A penalidade vai de autuações até o fechamento do local infrator, no caso de sucessivas reincidências. A limitação de ruído na cidade é de 40 a 65 decibéis, a depender do horário e tipo de zoneamento.

Justiça barrou mudança na lei que flexibiliza limite de ruído de shows na cidade.
Justiça barrou mudança na lei que flexibiliza limite de ruído de shows na cidade.
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Com a mudança na lei, porém, eventos de grande porte autorizados pela Prefeitura entrariam na lista de exceções ao Psiu. Hoje, essa listagem é restrita a alguns geradores de ruído, como sirenes de viaturas, aparelhos sonoros de propaganda eleitoral, passeatas, desfiles e outros.

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) foi o responsável por acionar a Justiça contra a mudança. "Ao aumentar as exceções do rol de proibições à poluição, sem se valer de qualquer estudo ou amparo técnico, contribui negativamente para o bem-estar e a qualidade de vida dos moradores, principalmente daqueles residentes nas áreas atingidas do Município de São Paulo", argumentou o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Em setembro, após a última derrota na Justiça, Nunes havia afirmado que iria enviar um projeto de lei específico à Câmara para a flexibilização do ruído no entorno de grandes eventos. Mas não apresentou a proposta até o momento.

Relembre o caso

Um dos principais motivos da judicialização foi porque a flexibilização do Psiu foi incluída em um projeto de lei sobre outro assunto — medida popularmente chamada de "jabuti".

Nunes chegou a apontar que a proposta estava em uma emenda "para ter celeridade ao processo". Já a Câmara destacou que a mudança de projetos pelos vereadores é prerrogativa do Legislativo.

Secretaria Municipal de Subprefeituras tem debatido uma possível mudança no Programa Silêncio Urbano.
Secretaria Municipal de Subprefeituras tem debatido uma possível mudança no Programa Silêncio Urbano.
Foto: Taba Benedicto/Estadão - 09/04/2020 / Estadão

A flexibilização do Psiu por meio de jabuti foi o principal ponto para o Órgão Especial do TJ-SP determinar a inconstitucionalidade em setembro. "Denota-se a ausência de pertinência temática", apontou a relatora, a desembargadora Marcia Dalla Déa Barone.

A magistrada destacou que sequer houve processo de participação popular. "Foi inserida no projeto de lei sem qualquer amparo técnico ou estudo urbanístico que a validasse", completou.

Na ação, a Câmara defendeu que a proposta foi "devidamente analisada e aprovada pelas comissões competentes". Também disse que "busca conciliar o direito ao sossego com a realização de atividades culturais, religiosas e desportivas, de relevante interesse social".

Essa não foi a primeira vez que a gestão Nunes buscou flexibilizar o Psiu para grandes eventos: mudança semelhante chegou a ser sancionada pelo prefeito em dezembro de 2022, porém foi derrubada pela Justiça dias depois. Assim como em 2024, também estava em uma lei voltada originalmente a outro tema.

Prefeitura cogita regras específicas para áreas da cidade

A Secretaria Municipal de Subprefeituras tem debatido uma possível mudança no Programa Silêncio Urbano. "A reestruturação do Psiu vem sendo discutida internamente na secretaria para criar um padrão entre as subprefeituras e facilitar e desburocratizar algumas coisas", disse Leonardo Luiz Gobo, assessor parlamentar da pasta, durante audiência pública na Câmara, em novembro. Segundo o assessor, também são discutidas leis específicas para áreas da cidade, como a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabaú.

Em nota, a secretaria afirmou que "as discussões a respeito do Psiu estão em tratativas internas e, até o momento, não há mudanças". Em dezembro, porém, foi anunciada uma decisão de proibir shows no Anhangabaú após as 23h.

Moradores do Vale do Anhangabaú e da Avenida Paulista têm se mobilizado por maior regulação. No caso do espaço do centro, as reclamações envolvem especialmente shows, festivais e festas, enquanto as da avenida envolvem apresentações nos domingos e feriados (quando há a chamada Paulista Aberta).

Desde 2021, o Anhangabaú é gerido pela concessionária Viva o Vale. Na Virada Cultural de 2025, recebeu 120 mil pessoas no show da cantora Liniker, segundo a organização. Em maio, o festival de música eletrônica Time Warp Brasil virou a madrugada.

"Esses eventos temporários são autorizados em dias e horários inadmissíveis, como no 'pancadão do Anhangabaú', que é de madrugada", critica a integrante da Frente Cidadã pela Despoluição Sonora, Jupira Cauhy.

Em nota, a Viva o Vale afirmou seguir "rigorosamente os regramentos previstos no contrato de concessão, bem como as licenças e autorizações". Também disse fiscalizar os eventos e adotar medidas operacionais "para amenizar eventuais incômodos, sempre em coordenação com os órgãos públicos". Além disso, destacou disponibilizar canais de comunicação para queixas e sugestões de moradores.

Estadão
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