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Ministério sabia de risco de fogo em hospital ao menos desde abril de 2019; nº de mortos chega a 3

Após relatório feito por equipe de engenheiros a pedido da pasta, nenhuma adaptação foi feita; unidade pegou fogo nesta terça

27 out 2020
18h27
atualizado às 22h39
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RIO - Um relatório produzido em abril de 2019 por uma equipe de engenheiros, a pedido do Ministério da Saúde, constatou diversos problemas na estrutura de combate a incêndios do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), na zona norte do Rio. Um ano e meio depois, nada foi feito e nesta terça-feira, 27, o hospital pegou fogo. O número de mortos na tragédia subiu para três à noite.

As duas primeiras vítimas foram mulheres de 42 e 83 anos, ambas internadas com covid-19. Ainda não há informações sobre a terceira pessoa. Segundo o Sindicato dos Médicos do Rio, houve falta de coordenação para fazer a transferência dos pacientes após a identificsação das chamas no local.

Em setembro de 2019, de posse desse relatório, a Defensoria Pública da União cobrou providências da direção do HFB para ajustar o hospital às normas de segurança e solicitou ao Corpo de Bombeiros que fizesse uma vistoria na unidade de saúde.

"Depois disso, a Defensoria fez seu papel de reforçar reiteradamente a necessidade de providência urgente aos órgãos competentes", informou, em nota, a Defensoria. "Sobre as razões de as demandas não terem sido atendidas, não temos como responder. Sugerimos que as perguntas sejam encaminhadas aos responsáveis pela gestão do HFB".

inha vários projetos "aprovados pelo Ministério da Saúde e em andamento para realizar uma série de reformas de urgência", segundo nota divulgada pela pasta na noite desta terça-feira.

"Apesar da unidade de saúde ter vários projetos aprovados pelo Ministério da Saúde - e em andamento - para realizar uma série de reformas de urgência, ainda não é possível afirmar as causas do incêndio", afirma o Ministério. "Apenas após o trabalho da perícia será possível apontar os fatores que levaram ao ocorrido", segue a nota.

Procurado pela reportagem, o ministério lamentou a morte dos pacientes e afirmou que a prioridade naquele momento era "zelar pela vida das pessoas e controlar a situação". Disse também que "ainda não foram identificadas as causas do incêndio, mas todas as providências estão sendo tomadas nesse sentido. O hospital, acrescentou a nota, "já tinha um diagnóstico prévio sobre a situação estrutural do complexo hospitalar, inclusive de toda a rede elétrica - o que vai facilitar a apuração dos fatos que levaram ao ocorrido.

Risco de fogo era denunciado havia 13 anos, diz presidente do Sindicato dos Médicos

Ao menos desde 2007 os profissionais de saúde denunciavam problemas elétricos e risco de incêndio no Hospital de Bonsucesso, segundo o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Alexandre Telles: "As primeiras denúncias são de 13 anos atrás, e a única providência até hoje foi a compra de extintores de incêndio, no ano passado. A fiação nunca foi trocada", reclamou o médico, que tinha um compromisso no hospital na manhã desta terça-feira, 27, e chegou à unidade quando o incêndio começava.

"Além dos problemas na estrutura do prédio, faltou treinamento e coordenação para salvar os pacientes. Os funcionários não sabiam para onde levar os pacientes, porque nunca tinham tido treinamento, não havia um protocolo", afirmou o médico. "Também faltaram macas. Muitos pacientes foram removidos em cadeiras ou, pior, sobre lençóis", contou.

Segundo Telles, esses problemas não são exclusivos do Hospital de Bonsucesso: "Nenhum dos seis hospitais federais do Rio tem a documentação exigida pelos bombeiros, assim como outros hospitais públicos do Rio também não têm", disse. "A direção do Hospital de Bonsucesso é trocada com muita frequência, o diretor nem teve tempo de conhecer o hospital e já é substituído, e são todas indicações políticas, nunca técnicas", reclamou.

Consultado pelo Estadão sobre a situação do Hospital de Bonsucesso antes do incêndio e sobre a troca de diretores, o Ministério da Saúde não havia se pronunciado até a publicação desta reportagem. A Polícia Federal afirmou no início da noite que instaurou inquérito policial para apurar as circunstâncias do incêndio e que uma equipe de policiais federais esteve no hospital para as primeiras diligências investigatórias, como a perícia criminal.

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