'Macho alfa, fêmea beta': veja as mensagens enviadas por tenente-coronel dias antes de feminicídio
MP ofereceu denúncia contra Geraldo Neto e aponta que conteúdo revela comportamento 'possessivo, manipulador e autoritário'; defesa diz que mensagens estão descontextualizadas
Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da mulher dele, a soldado Gisele Alves Santana, se autoproclamava "macho alfa provador" e exigia que a companheira fosse "fêmea beta obediente e submissa".
"Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa - Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser".
As mensagens, extraídas do celular de Geraldo, foram apresentadas em uma denúncia oferecida pelo Ministério Público à Justiça de São Paulo na quarta-feira, 18. A 5ª Vara do Júri de São Paulo aceitou a denúncia e decretou a prisão preventiva do policial militar.
A defesa de Geraldo Neto afirma que informações e interpretações da "vida privada" do tenente-coronel estão sendo divulgadas "por meio de conteúdos descontextualizados" e que atingem a honra e a dignidade do policial militar.
O tenente-coronel já havia sido preso após decisão da Justiça Militar no âmbito de uma investigação conduzida pela Corregedoria da PM. Pela Polícia Civil, ele foi indiciado por feminicídio e fraude processual.
Relacionamento conturbado e violência
Segundo a promotoria, as mensagens indicam um relacionamento conturbado e marcado por violência, e apontam que o desejo da separação não teria partido do tenente-coronel - mas, sim, da própria Gisele.
Abaixo, um trecho de um diálogo apresentado pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva, que aconteceu em 2 de fevereiro, poucos dias antes da morte de Gisele.
Geraldo diz: "Eu invisto todos os meses, 3 mil reais de aluguel, 2 mil reais de condomínio, 500 reais de água e luz, 500 reais de gás, fora as coisas que eu compro de mercado e todas as vezes que nós saímos eu pago tudo sozinho (...) e você investe quanto? Não tem dinheiro, blz. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo.... mas nem isso você faz".
Gisele responde: "Se você acha que só contribuindo com o dinheiro já está fazendo sua parte, ótimo, mas pra mim não é assim que funciona, nunca foi assim e não vai ser agora que vai mudar." (...) "por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final".
Segundo as promotoras, essas mensagens foram enviadas dois dias antes do crime.
"Tais mensagens, dentre tantas outras acostadas aos autos, revelam um comportamento machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário", afirma o MP-SP.
"Tais sinais evidenciam o perigo da liberdade do denunciado, que irá a todo custo tentar manipular a prova, alterar verdades, influenciar testemunhas, tudo para que sua versão dos fatos prevaleça".
Histórico
Conforme descrito em decisão do Tribunal de Justiça Militar, durante uma discussão em 18 de fevereiro na residência do casal — um apartamento localizado no Brás, região central de São Paulo —, o tenente-coronel teria imobilizado Gisele por trás com a mão esquerda, segurado a região da mandíbula dela e, com a mão direita, efetuado um disparo contra a têmpora da vítima.
Além disso, segundo as autoridades, há indícios de que o tenente-coronel também teria alterado a cena do crime após o disparo para simular um suicídio. Segundo a versão da defesa, Gisele atentou contra a própria vida após Neto informar que queria a separação. A acusação também destaca que o policial militar já possuía histórico de violência contra ex-companheiras e colegas de trabalho.