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Gays, lésbicas e travesti participam de "casamentaço" em SP

Cerimônia coletiva em cartório de Campinas reuniu cinco casais LGBT, entre os quais, o de um homem que se casou pela quarta vez -- a primeira, segundo ele, com uma travesti

18 dez 2014
10h29
atualizado às 15h18
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O casal Wagner Fernandes, 60 anos, e Paola Fernandes, de 36, comemorou a união nessa quarta-feira, em Campinas (90 km de São Paulo), do modo tradicional: registro em cartório com certidão de casamento, troca de alianças, beijinho para os fotógrafos e sobrenome do marido transferido na certidão à cônjuge – de batom vermelho, vestido branco e buquê de rosas vermelhas. “É meu quarto casamento”, disse o noivo à reportagem. “O primeiro, porém, com uma travesti”, ressalvou. “Minhas ex-mulheres até sabem, mas meu filho ainda não aceita muito bem”, admitiu.

O casal Wagner Fernandes, 60 anos, e Paola Fernandes, de 36, oficializou a união de seis anos. É o quarto casamento dele - o primeiro com uma travesti
O casal Wagner Fernandes, 60 anos, e Paola Fernandes, de 36, oficializou a união de seis anos. É o quarto casamento dele - o primeiro com uma travesti
Foto: Janaina Garcia / Terra

Eles foram um dos cinco casais que oficializaram relacionamentos de anos, perante a Justiça, com base na resolução nº 175, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), publicada em maio de 2013. Pelo documento, cartórios de todo o Brasil não podem recusar a celebração dessas uniões, tampouco a conversão de uniões estáveis homossexuais em casamentos.

No começo do mês, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que foram registrados no Brasil, no ano em que a resolução do CNJ entrou em vigor – ainda que, tecnicamente, o Judiciário reconhecesse a união homoafetiva desde 2011 –, um total de 3.701 casamentos entre pessoas do mesmo sexo ; a maioria (52%) entre mulheres e na região Sudeste (65,1%). O número representa 0,35% das 1,1 milhão de uniões que aconteceram no mesmo período.

As uniões civis em Campinas foram organizadas pelo Centro de Referência LGBT, serviço municipal implantado em 2003 e primeiro do gênero, no poder público, criado no País. É a segunda iniciativa do órgão.

Casamento foi "um sonho realizado", diz travesti

Para os casais, a medida é um primeiro passo para ao menos garantir a segurança jurídica do parceiro – tais como direitos a bens, em caso de separação ou morte, ou mesmo a inclusão do nome como beneficiário de plano de saúde.

Nascida em Imperatriz (MA), Paola contou que o casamento foi “um sonho realizado”. “Estamos felizes, não temos do que reclamar na vida social e conjugal. Queria muito ter o nome do meu marido, estamos juntos há seis anos. Agora é comemorar nossa lua de mel, que vai ser top: tem uma banheira com flores e champanhe nos esperando no hotel”, contou a cabeleireira. “Oficializamos mais pela segurança dela por exemplo em relação à minha aposentadoria, e também porque era um sonho. E nunca sofremos discriminação – também porque todo mundo acha que ela é mesmo uma mulher”, completou o marido.

Adaílton Germano e Elival Júnior estão juntos há sete anos
Adaílton Germano e Elival Júnior estão juntos há sete anos
Foto: Janaina Garcia / Terra

Para casal gay, "faltam leis aos LGBT"

Também casados no cartório, o motorista Adaílton da Silva Germano e o tosador de cães Elival Júnior, ambos de 29 anos, decidiram registrar os sete anos em que estão juntos. O que ainda falta aos LGBTs? “Faltam leis que garantam mais igualdade a quem é LGBT e também que criminalizem a homofobia. Porque hoje alguém agride um gay ou uma lésbica e fica praticamente impune”, observou Germano. “E viriam aqui 17 casais, só vieram cinco. Se as leis de fato existissem de forma mais ampla, seria mais fácil para as pessoas e assumirem e reivindicarem seus direitos”, complementou Júnior.

O casal Adriana e Regina oficializou a união de nove anos
O casal Adriana e Regina oficializou a união de nove anos
Foto: Janaina Garcia / Terra

Mulher foi impedida de ver companheira no hospital

Para o casal Regina Maria, 47 anos, e Adriana Campos, de 25, falta de leis de amparo e preconceito ainda são barreiras para a aceitação dos casamentos homoafetivos. Elas estão juntas há nove anos.

“Há dois anos, ela sofreu um acidente de moto e ficou internada. Só consegui vê-la no hospital com um mandado judicial, pois a família dela, que não me aceitava, proibia a minha presença lá. Enquanto houver esse preconceito, as pessoas não vão ter tanta coragem de se assumir, isso é fato”, analisou Regina, que é porteira. “Agora minha mãe nos aceita, mas meu pai, de jeito nenhum. E aí fora é só olhar com atenção: se antes era xingamento, agora a coisa parte até para a agressão e a morte”, disse Adriana, que é encarregada.

“E curioso é que pagamos impostos como qualquer outro cidadão. Se na eleição os políticos não vêm perguntar nossa orientação sexual para pedir voto, o mínimo que deveriam fazer é garantir que os direitos sejam iguais para todos, porque eles ainda não são”, arrematou Regina.

"Já somos uma família", diz casal de lésbicas com filho

Carmen e Cláudia agora têm "Poderoso" no nome de casadas
Carmen e Cláudia agora têm "Poderoso" no nome de casadas
Foto: Janaina Garcia / Terra

Entre os casais, parte levou os familiares junto às testemunhas, parte alegou que a família estava na cidade natal, ou em horário de trabalho. Companheiras há 14 anos, a operadora de produção Carmen Silvia Ferreira Poderoso, 47 anos, e a auxiliar de enfermagem Cláudia Nascimento da Cunha Poderoso, 44 anos, fez questão de levar o filho de oito anos para acompanhá-las perante a juíza que celebrou a união.

“Casamos pela estabilidade jurídica, porque uma família já somos faz tempo”, disse Carmen, ao lado do “filho de coração” – adotado ainda bebê após três anos de espera na fila. Ela pediu que o nome do menino não fosse publicado para evitar “mais bullying na escola”. “Ele já sofreu, mas isso foi corrigido”, mencionou, recebendo do filho um sorriso cúmplice.

A auxiliar de enfermagem contou que se descobriu homossexual ao se envolver com a atual cônjuge – à época, trabalhavam juntas e ela estava prestes a ficar noiva de um homem. Hoje, em empresas diferentes, elas afirmam que vão às festas de fim de ano uma da outra, “sem discriminações”.

“Tentei me esquivar quando senti que estava gostando da Carmen, mas o sentimento ficou mais forte e entendi que não havia por que eu negá-lo: eu não estava fazendo algo errado nem mal algum a quem quer que fosse”, explicou.

Para a agora mulher, e não apenas “companheira”, o desafio segue, porém, para fora do lar da família. “O Brasil é um País ainda bem machista, pois há pessoas na sociedade que nos veem, mas não querem nos aceitar. Mas eu aprendi a ser dura para lidar com essas situações”, relatou Carmen.

Fonte: Terra

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