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Exposição de crianças nas redes sociais aumenta na pandemia e vira até fonte de renda

Especialistas veem risco à privacidade dos mais novos na prática, conhecida como sharenting; mães dizem que publicações favorecem troca de experiências com outras famílias

12 set 2021 17h00
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O álbum de fotografias, à mão sempre que uma visita surgia, mudou de forma e ganhou as redes sociais. Por lá, sobram fotos do bebê dormindo, comendo, brincando. O hábito de publicar imagens das crianças na internet ganhou até nome: sharenting, junção dos termos em inglês share (compartilhar) e parenting (paternidade). Na sociedade das plataformas, não demorou para que os "álbuns digitais" fossem vistos por centenas, milhares e até milhões de usuários.

A explosão de contas ligadas a bebês e crianças nas redes sociais durante a pandemia reacende o debate sobre o sharenting. Quase toda família faz e mesmo quem não tem filho se derrete quando vê as fofuras dos bebês alheios nas redes. Em jogo, está o direito das crianças à privacidade. Por outro lado, há a liberdade de expressão dos pais e a vontade de se conectar com os outros. O fenômeno fica mais complexo quando associado à propaganda de produtos infantis.

Longe dos parentes, com um bebê nascido pouco antes da pandemia, a dona de casa Thainá Barbosa, de 32 anos, resolveu contar ao mundo os feitos de Rafael, de 2 anos. Criou um perfil só para ele no Instagram, que, no início, era restrito à família. "Eram só umas dez pessoinhas, mas você vai compartilhando, as pessoas vão vendo, seguindo e gostando daquilo", diz a mãe, que publica fotos dos passeios do menino na praça, danças e roupinhas novas.

O perfil público pode ser visto por qualquer um - e o uso de hashtags como #digitalinfluencer ou #maedemenino permite encontrar a conta (e outras do mesmo tipo) no sistema de busca do Instagram. Com pouco mais de 90 seguidores, a mãe diz tomar cuidado para não publicar fotos do filho sem roupa a fim de evitar que caiam em redes de pornografia infantil. Mas não tem medo de ganhar alcance. "Se viralizar uma brincadeira, uma foto bonita dele, é fantástico", diz ela, que aponta os benefícios da troca de experiências com outras mães.

Para a psicóloga Juliana Cunha, diretora de projetos especiais da SaferNet, o isolamento social por causa da covid-19 fez aumentar a prática de publicar fotos de crianças na internet - o que também faz crescer o volume de debates sobre o tema em entidades ligadas aos direitos da criança, à segurança na rede e entre juristas. "(O sharenting) cresceu principalmente para quem se tornou pai e mãe durante a pandemia porque as crianças deixaram de conviver com parentes e uma das pontes para manter contato foram as redes."

Juliana não vê a situação como um problema, em princípio, mas diz que o fenômeno pode esconder riscos. Para a empresária Victória Xavier, de 29 anos, uma das consequências incontroláveis é viralizar - coisa que ela tenta impedir, na contramão da maioria. Dona de uma conta sobre maternidade com 47 mil seguidores, Victória posta fotos do filho de 1 ano e 5 meses, acompanhadas de receitas para bebês, sugestões de brincadeiras e alguns desabafos sobre a maternidade.

"Tenho muito cuidado de não produzir nada que acho que vai viralizar. Um bebê gordinho, fazendo dancinha no TikTok viraliza." Ela identifica que vídeos curtos - os reels no Instagram - têm chance maior de sair do controle. Promover sorteios também é outra estratégia para atrair novos seguidores - e por isso Victória diz passar longe das promoções, apesar de aceitar fazer propaganda para marcas de mulheres empreendedoras. Ela recebe uma cota das vendas após divulgar cupons.

A ideia é manter entre a audiência um público engajado nos temas que ela publica - e não curiosos aleatórios, mas Victória sabe que, mesmo assim, o alcance da imagem do filho pode ir além do previsto. Nas redes sociais, é comum a "pesca" de conteúdos por outras páginas, mesmo sem autorização. "Sempre que vou postar, penso: 'se isso sair do meu controle, vai me incomodar ou vai incomodar o meu filho no futuro?'"

O exercício de reflexão veta, por exemplo, vídeos ou fotos de momentos íntimos da criança, como birras e o desfralde. Também impede imagens de nudez, que podem ser usadas por redes de pornografia infantil. Mas, assim como acontecia quando o álbum de fotos impressas ganhava a sala de estar, nem sempre o que os pais veem como lindo na infância agrada os filhos crescidos.

"Não tenho como ter certeza se ela vai ou não gostar do que escolho mostrar", avalia a fotógrafa Morgana Secco, de 38 anos, que alcançou 2,6 milhões de seguidores no Instagram após viralizar com vídeos da filha Alice, de 2 anos, famosa por gostar de ler e falar palavras difíceis. Alguns cuidados, diz a mãe, evitam embaraços futuros. "Nunca exponho situações em que a Alice esteja vulnerável, chorando ou que possa constranger ela futuramente", diz Morgana, que aposta na chance de inspirar outros pais para a importância de uma criação respeitosa.

Em redes sociais como Instagram e TikTok, é comum encontrar vídeos de crianças sendo "trolladas" pelos pais - expostas a brincadeiras como provar alimentos azedos ou filmadas enquanto se assustam com filtros que alteram a imagem do rosto projetada na tela. Adolescentes pedem aos pais para que não postem fotos de quando eram crianças porque dizem sofrer bullying de amigos.

As discussões podem chegar à Justiça quando pai e mãe discordam sobre o nível de exposição do filho nas redes sociais. O pai de um menino do interior paulista, então com 2 anos, moveu uma ação contra a ex-mulher depois que ela publicou texto e foto sobre a criança em uma rede social sem o consentimento dele. Para o pai, a publicação, que expunha um distúrbio do filho, violou o direito à privacidade da criança. Já a mãe argumentou que a postagem não foi ofensiva.

A decisão, do ano passado, deu razão à mãe, mas ponderou que ainda é necessário encontrar uma medida justa para preservar tanto o direito à liberdade de expressão dos pais quanto o direito à privacidade e proteção dos dados pessoais de crianças. "Não existe regra fixa para definir quando os direitos de personalidade das crianças e adolescentes estão sendo desrespeitados nas redes", diz a advogada Isabella Paranaguá, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família do Piauí e especialista no tema.

Não é o número de seguidores nem o fato de ter se tornado um "influencer digital" que indicam violação de direitos - mas situações que colocam a criança em risco, como negligência, exploração e opressão nas redes. Embora existam poucos processos de indenização por sharenting em que os filhos acionam a Justiça, o tema já faz parte de ações de divórcio e disputa de guarda.

No fim do mês passado, um processo foi aberto nos Estados Unidos contra a banda Nirvana por Spencer Elden, o bebê que aparece nu em uma piscina na capa do disco Nevermind, lançado há 30 anos. Spencer alegou "danos emocionais extremos e permanentes com manifestações físicas até os dias de hoje".

Estadão
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