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Entenda quem foram os bandeirantes e por que eles são homenageados em São Paulo

Derrubar ou não estátuas que remontam a esse período levantou debate sobre representatividade; veja o que pesquisadores dizem a respeito da discussão

23 jun 2020
14h41
atualizado em 24/6/2020 às 14h17
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Com os corpos fortes e eretos, encaram o horizonte com o queixo erguido - gesto que tenta representar a bravura e a coragem de figuras que foram incapazes de construir os seus impérios com respeito e tolerância. Estátuas e monumentos de figuras históricas como os bandeirantes, no Brasil, ou de traficantes de escravos passam por uma revisão de seus significados na história - como perpetuadores do racismo estrutural - e levantam o debate em torno da representatividade em espaços públicos.

Essas homenagens são frequentes na cidade de São Paulo: elas estão presentes em monumentos, nome de ruas e rodovias, como relembram discussões que cresceram nas redes sociais nas últimas semanas. Entenda, a seguir, a origem do debate em torno dos monumentos históricos que remetem ao período colonial do País.

'Monumento às Bandeiras' e 'Borba Gato': como são essas estátuas e onde estão localizadas em São Paulo

Localizado na praça Armando Salles de Oliveira, parte do complexo do Parque Ibirapuera, na zona sul da cidade, o Monumento às Bandeiras é uma obra esculpida em granito por Victor Brecheret (1894-1955). A escultura foi inaugurada em 1954 em comemoração aos 400 anos de São Paulo. Nela, se pode ver um bandeirante, montado em um cavalo, à frente de um grupo formado por indígenas, mamelucos e portugueses que puxam uma embarcação.

Já a estátua que representa o bandeirante Manuel de Borba Gato está situada entre as Avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro, também na zona sul. A peça de cerca de 13 metros de altura, contando o pedestal, esculpida em argamassa e trilhos, foi criada por Júlio Guerra (1912-2001) e concluída em 1963.

As homenagens aos bandeirantes, contudo, não param apenas nessas esculturas: a sede do governo do Estado é conhecida como Palácio dos Bandeirantes. As principais rodovias de São Paulo também têm nomes que remetem aos sertanistas - como Anhanguera, Fernão Dias e a dos Bandeirantes.

Outros monumentos na cidade de São Paulo que podem ser revistos

A revisão de figuras ligadas ao passado colonial também passa pelo apagamento de espaços ligados à memória da população negra na cidade, tanto do período da escravidão quanto dos marcos após a assinatura da abolição.

A antropóloga Raissa Albano, a educadora Carolina Piai e o pesquisador Pedro Alves coordenam o coletivo Cartografia Negra, que desde 2018 promove passeios pelo centro de São Paulo por marcos da história negra e da escravidão na cidade mas que, ao longo do último século, ganharam nomes e novas ocupações que atropelam a memória desse passado. A ideia central é recuperar estes locais de forma a exaltar as memórias de pessoas negras na construção da capital paulista.

O passeio do grupo destaca, por exemplo, o Largo Sete de Setembro, na região central, que antes era conhecido como o Largo do Pelourinho, local destinado ao castigo de escravos. Outro ponto é o Largo da Memória, ao lado da estação Anhangabaú do metrô, onde antes se localizava um mercado em que escravos eram leiloados. Ou até a região onde hoje se encontra o bairro do Bixiga, em que antes se localizava o quilombo urbano Saracura.

Quem foram os bandeirantes?

Os bandeirantes eram homens que trabalhavam na região sudeste com a exploração de minérios, escravização de indígenas e captura de escravos fugitivos no século 17. São Paulo estava na margem da colônia brasileira; foi, por muito tempo, uma região indígena e jesuítica, e veio a se urbanizar com maior intensidade apenas no final do século 19.

Não eram, contudo, conhecidos como "bandeirantes" durante a época em que atuaram. A historiadora Iris Kantor, professora de historiografia colonial na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), reforça que o termo foi cunhado por historiadores contemporâneos, como Affonso Taunay, que dirigiu o Museu Paulista a partir de 1917. Até então, eram conhecidos apenas como "paulistas" ou sertanistas. Neste episódio do podcast Na Quarentena, o pesquisador Paulo César Garcez Marins, da USP, conta essa história.

Mito bandeirante colaborou para a ideia de São Paulo ser o motor do Brasil

Conforme explica o historiador Casé Angatu, professor da Universidade Federal de Santa Cruz (UFSC), na Bahia, dois momentos são definidores para a mudança de cara da atual metrópole: a partir da década de 1870, durante a Belle Époque brasileira, em que se buscou "europeizar" arquitetonicamente a cidade de São Paulo, e na década de 1950, que retoma o ideário bandeirante no seu quarto centenário. "As homenagens simbolizam uma tentativa de a capital se desvincular de suas origens indígenas, negras, caboclas e caipira para se aproximar de uma metrópole europeia", diz ele.

Nem sempre foram figuras celebradas. Eram, inclusive, vistos de maneira negativa até o século 17, quando tinham fama de mercenários e representavam um perigo para os aldeamentos, explica Iris. Três estudiosos, contudo, foram definidores para a mudança de perfil dos bandeirantes:

  • Nas crônicas de Frei Gaspar da Madre de Deus, feitas depois da expulsão dos jesuítas de territórios portugueses em 1759, a imagem dos sertanistas foi retocada. "Em seus escritos, ele requalifica a imagem negativa dos paulistas divulgada pelos jesuítas, exaltando a contribuição deles para a ampliação da soberania portuguesa na América", diz a professora. Eles seriam os responsáveis por desbravar territórios e ampliar as fronteiras.
  • Com o historiador Affonso Taunay, que assumiu a direção do Museu Paulista em 1917, nas vésperas do centenário da independência do Brasil, ganharam representações em quadros e esculturas. Na pesquisa para compor o acervo, ele passa a organizar uma coleção de documentos ligadas ao período colonial, a História Geral das Bandeiras Paulistas, e acaba colaborando para a perpetuação do mito dos bandeirantes como desbravadores.
  • Depois de comemorado os 400 anos da capital paulista, esta imagem se consolida e ganha incrementos, como de que eram desbravadores e aventureiros, reforçando o ideário do empreendedorismo paulista, aspecto também presente no livro Caminhos e Fronteiras de Sergio Buarque de Holanda.

Essas narrativas, contudo, acabaram por apagar todo um histórico de violências cometidas pelos bandeirantes. Além das invasões e saques a aldeamentos, escravizavam comunidades indígenas e violentavam as populações originárias, principalmente as mulheres, reforça Angatu.

O que homenagens a bandeirantes significam para o apagamento da história

Tanto o Monumento às Bandeiras quanto a escultura do Borba Gato já foram alvos de protestos de grupos indígenas contrários à manutenção das peças em espaços públicos. Um dos mais recentes ocorreu em 2016, quando amanheceram manchadas de tintas coloridas.

Para Thiago Karai Djekupe, uma das lideranças Guarani M'bya da terra Tenondé-Porã, em São Paulo, manter estas figuras na posição como celebração é motivo de revolta. "Os bandeirantes são colocados como heróis, guerreiros, importantes para o progresso do País. Como pessoas que mataram e escravizaram são considerados heróis? A gente luta contra essa história porque as homenagens têm um peso muito grande para os povos indígenas", diz ele.

Karai faz parte da Comissão Guarani-Yvyrupa, fundada em 2013 com o objetivo de firmar o reconhecimento das terras indígenas na cidade de São Paulo. Neste mesmo ano, membros da comissão fizeram um protesto que culminou em tinta vermelha jogada no Monumento às Bandeiras, um gesto que simboliza as violências cometidas pelos sertanistas.

O perigo de se firmar tais símbolos, para Raissa Albano, do coletivo Cartografia Negra, é perpetuar uma narrativa excludente, que deixa de fora a maior parcela da população. "Quando a gente fala de monumentos, de nomes de ruas, a gente tá falando de elementos que carregam um alto nível de simbolismo. Fazem parte de um discurso hegemônico. Tirá-los desses lugares é só uma parte do combate à posição deles na história".

Pesquisadores defendem colocação de novos símbolos e da educação

Se as estátuas racistas permanecerão nas praças de São Paulo ou não, é um debate para se acompanhar ao longo do tempo. A questão central de movimento, para o historiador Casé Angatu, é perpetuar pela educação primária a história dos povos originários e de afro-brasileiros.

De acordo com ele, isso começa com a desmistificação do mito bandeirante nas escolas, fazendo o uso da lei 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Neste processo, por exemplo, é possível compreender que as maiores heranças dos povos indígenas não estão em monumentos, mas sim nos costumes dos paulistas -- como o sotaque. "A cidade tem uma das maiores populações indígenas do Brasil em números absolutos. Não dá mais para excluí-la do cotidiano", diz.

Do mesmo jeito que, ao colocar novos espaços de memória e agir para a perpetuação da história desses grupos, a necessidade de trocar nomes ou revisitar monumentos não seja tão latente. Pedro Alves, do Cartografia Negra, cita como exemplo a Praça da Liberdade, antigo Largo da Forca, em que escravos eram executados. "Não sei se hoje em dia eu me sentiria mais pertencente se trocassem o nome da praça pelo do largo. Mas se tivesse um memorial ali em que essa parte da história fosse relembrada, aí, sim, eu me sentiria mais acolhido", diz.

Parte desse reconhecimento também passa pelo firmamento dos territórios dos povos indígenas e segurança para que vivam na cidade, defende Karai: "As comunidades indígenas não invadem a cidade. É a cidade que está avançando nas comunidades."

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Estadão
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