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Designer que foi parar na Cracolândia após fim de namoro procura 'nova vida'

15 jan 2014
10h52
atualizado às 11h08

Entre os moradores dos barracos que ocuparam a região da Cracolândia, no centro de São Paulo, está um ex-universitário de uma das mais renomadas faculdades paulistanas, que tenta reconstruir a vida após uma decepção amorosa, que - segundo ele - o levou diretamente para uma das áreas mais conturbadas da capital. O designer gráfico Thiago Morales relata que se formou pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e que já teve uma vida boa, trabalhando inclusive na Europa, mas hoje, tudo  o que ele quer é uma oportunidade para recomeçar.

Em seu barraco, Thiago aguarda a chegada dos agentes da prefeitura
Em seu barraco, Thiago aguarda a chegada dos agentes da prefeitura
Foto: Thiago Tufano / Terra

Ao Terra, ele disse que vê com bons olhos essa iniciativa da prefeitura de colocar os moradores em hotéis da região. Porém, ainda com visão crítica, Morales aponta suas convicções políticas em relação ao programa Braços Abertos, de Fernando Haddad (PT).

"Vejo como uma oportunidade de mudança. Cada um dos usuários está à espera de uma moradia. Isso tem que ser abraçado por todos, apesar de eu achar que isso nada mais é que uma propaganda política. Acho que vai surtir efeito, mas, daqui a algum tempo, eles (políticos) vão dizer que foi dada a oportunidade", falou.

Há seis meses nas ruas de São Paulo, Morales disse que uma decepção amorosa foi o estopim para a sua decadência. Após o término de um namoro, o designer enfrentou uma profunda depressão e acabou consumido pelo vício em drogas.

"A grande maioria aqui tem uma profissão e eu sou uma delas, basta eu querer. Eu tenho profissão, formação. Essa oportunidade é para retomar a vida de uma forma digna", disse Morales, que concordou em participar do programa.

"A principio, vou aderir ao programa, porque, se eu não aderir, vão passar com a retroescavadeira em cima do meu barraco", falou o designer, que classifica a sua formação como irrelevante no mundo do crack. Segundo ele, todos os viciados enfrentam os mesmos problemas na Cracolândia: “eu sou designer gráfico, trabalhei muito tempo com fotografia - em Portugal e na Espanha - mas isso já não importa, porque todo mundo aqui está no mesmo patamar.”

Assim como a maioria dos dependentes químicos, Thiago preferiu não falar sobre a família, que geralmente acaba sofrendo junto com os próprios usuários. Pouco antes da chegada dos caminhões da prefeitura, ele entrou em seu barraco e se preparou para tentar alcançar a tão sonhada “mudança de vida”.

Operação Braços Abertos
A nova ação na região da Cracolândia, idealizada pela prefeitura de São Paulo e chamada de Operação Braços Abertos, teve início oficial nesta quarta-feira. O objetivo inicial da administração municipal é retirar os barracos montados pelos usuários de crack nas calçadas das ruas Helvétia e Dino Bueno. Porém, essa retirada - que já teve início de maneira isolada na segunda-feira - é feita voluntariamente pelos dependentes químicos, que serão encaminhados para quartos de hotéis no centro da capital paulista.

A ação da prefeitura reúne as secretarias de Saúde, Segurança Urbana, Assistência Social, Trabalho e Desenvolvimento Urbano, e o modelo será baseado numa experiência exitosa feita com alcoólatras na Holanda, que prevê trabalho, moradia e tratamento de saúde para os dependentes. A ideia que, em uma semana, os barracos já não estejam mais nas calçadas.

Os quartos serão divididos entre famílias, casais e solteiros. As secretarias cadastraram 300 dependentes químicos no novo programa, que também dará emprego de zeladoria na cidade, cursos de capacitação, seguro de vida, alimentação e R$ 15 por dia, que serão pagos semanalmente aos que aderirem ao programa. O custo por pessoa para a prefeitura será de um salário mínimo e meio, ou seja, R$ 1.017.

Segundo a prefeitura, a adesão foi bem aceita pelos dependentes químicos e 99% dos usuários irão participar do programa inicialmente. Além da organização não governamental (ONG) União Social Brasil Gigante, 180 funcionários das secretarias de Assistência Social e Saúde acompanharão os viciados 24 horas por dia. A Guarda Civil Metropolitana (GCM) passou por um treinamento especial e estará de prontidão no local para evitar que os dependentes voltem a construir barracos nas calçadas.

Na área da saúde, em 2013, a prefeitura ampliou de quatro para 16 as equipes de programa Consultório na Rua, que trabalham no acolhimento e encaminhamento para tratamento. Dessas 16 equipes, oito delas está na subprefeitura da Sé, sendo que duas delas estão especificamente na Cracolândia. Somente em janeiro de 2014, 253 pessoas foram encaminhadas ao tratamento.

A Assistência Social foi responsável pelo cadastramento dos dependentes e acomodação das pessoas. Na segunda etapa da operação, com a retirada dessas pessoas da rua, a prefeitura prevê uma diminuição da oferta de drogas na região. Para as pessoas que frequentam a região, mas não moram na Cracolândia, ainda restam 100 vagas no novo programa.

Na questão do trabalho, os usuários serão remunerados e ficarão quatros horas por dia trabalhando na limpeza urbana de parques e praças da região central da capital paulista, além de outras duas horas em cursos de capacitação.

Fonte: Terra

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