Caso Flordelis: ascensão política e os planos de matar o marido
Anderson administrava a vida profissional e financeira de Flordelis e isso causou atritos na família; polícia aponta que o planejamento do crime envolveu ao menos seis tentativas de envenenamento e simulação de latrocínio
Filiada ao Partido Social Democrático (PSD), Flordelis recebeu 196.959 votos na eleição de 2018, tornando-se a deputada federal com o quinto melhor desempenho no Rio de Janeiro, o maior entre candidatas mulheres. Para a polícia, também foi nesse período que o plano de matar o marido Anderson do Carmo começava a ser posto em ação.
Antes de ser alçada à política nacional, Flordelis já havia concorrido a vereadora de São Gonçalo duas vezes, em 2008 e 2012, sem sucesso. Com a ascensão repentina, o protagonismo da bancada evangélica e elogios recebidos de figuras relevantes, a exemplo da primeira-dama Michelle Bolsonaro e da ministra Damares Alves, no entanto, ela e o marido passaram a figurar entre os nomes cotados para a disputa da prefeitura em 2020.
Considerado o principal mentor da mulher, Anderson foi muito ativo durante a campanha e fez a articulação com o partido, demais candidatos e lideranças comunitárias. Naquele pleito, a família também conseguiria emplacar um filho adotivo na Câmara de São Gonçalo. Era Wagner Andrade Pimenta, o Misael da Flordelis, de 41 anos - que após o assassinato se voltou contra a mãe e passou a adotar apenas o nome de Misael.
Em Brasília, Anderson era atuante nos bastidores e administrava verbas de gabinete da deputada federal, além de continuar gerenciando as carreiras eclesiástica e artística da mulher. O controle financeiro exercido pelo pastor, que já incomodava parte da família antes, foi escalonando e ganhou força após Flordelis assumir o mandato, segundo os investigadores. Para o grupo, Anderson ficava com muito e repassava muito pouco.
Flordelis teria começado a cooptar parentes do núcleo de confiança em meados de 2018, o que resultaria em uma sequência de tentativas frustradas de homicídio, diz a acusação. A lista inclui envenenamentos em série, procura por pistoleiros e simulações de assaltos.
"Anderson era excepcional para gerir os negócios, mas também muito rigoroso para dirimir os conflitos da casa. Cortava mesada, punia", diz o delegado Allan Duarte, titular da Divisão de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, responsável pelo inquérito. "Isso provocou uma revolta, uma indignação por parte daqueles que se sentiram injustiçados, até o momento que uma facção, de fato, se formou dentro da família."
Sete dos oito parentes da deputada denunciados por associação criminosa pelo Ministério Público fazem parte da chamada "primeira geração" da casa. Ao menos dois deles também eram assessores parlamentares.
Plano foi de tentativas de envenamento a simulações de assaltos, diz polícia
Uma conversa entre Flordelis e o filho socioafetivo André Luiz de Oliveira, o Bigode, em outubro de 2018, é considerada reveladora pela polícia. Por Whatsapp, a pastora manda mensagens pedindo ajuda ao filho para "pôr um fim nisso". "Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio? Independência financeira é pouco."
Em dezembro, Flordelis escreve mais uma vez a André. "Fazer mais o quê? Separar eu não posso, porque vai escandalizar o nome de Deus", diz a mensagem.
Com sintomas de vômito, febre e diarréia, Anderson deu entrada seis vezes no hospital entre abril e outubro daquele ano. Para a investigação, o intervalo coincide com "as persistentes tentativas de envenenamento" do pastor.
No período, outros dois familiares também chegaram a passar mal. Uma delas após aceitar uma bebida oferecida por Anderson e a outra por consumir um Chamyto que estava aberto na geladeira dele.
Ex-namorada dos pastor e filha biológica de Flordelis, Simone dos Santos Rodrigues teria confessado ao irmão Luan Santos que participava das tentativas de envenenamento. "Mas o bicho é ruim de morrer" é a frase atribuída à acusada. Após quebra de sigilo do celular, a polícia descobriu que ela pesquisou na internet termos como "cianeto nos alimentos" e "cianeto onde comprar".
A filha adotiva Marzy Teixeira da Silva, de 36 anos, também teria procurado "veneno para matar pessoa que seja letal fácil de comprar" e "cianureto de cobre PA comprar no Rio", segundo a polícia. Mais tarde, ela faria buscas por "alguém da barra pesada" e "assassino onde achar".
Para a acusação, esse é um dos indícios de que, como o envenenamento não surtia o efeito esperado, o plano teria evoluído depois para simulação de um latrocínio. Segundo testemunha ouvida no inquérito, Rayane dos Santos Oliveira (filha adotiva de Simone e neta de Flordelis) teria perguntado se ela conhecia "algum bandido" e que estaria "precisando urgente".
Embora a moça tenha respondido que não, a família teria conseguido contratar um pistoleiro. De acordo com a investigação, o criminoso chegou a ir à porta do Ministério Flordelis para executar o serviço, mas Anderson teria escapado por sorte. Sem saber da emboscada, o pastor usou um veículo que não era o de costume para sair da igreja - ainda assim, o valor combinado de R$ 2 mil teria sido entregue por André, o Bigode.
Uma mensagem de janeiro de 2019, atribuída a Flordelis, reforça a tese da encenação do roubo. "Dez mil (reais) depois do serviço feito, mas as outras pessoas do carro não podem ser atingidas", diz parte do texto. Na ocasião, Anderson teria saído de casa para um concessionária. "Simula um assalto, ele foi para o Rio hoje."
Na lista de filhos denunciados, também estão o adotivo Carlos Ubiraci Francisco da Silva, o Neném, e o biológico Adriano dos Santos Rodrigues, de 33 anos. Outras duas pessoas, que não fazem parte da família, também estão presas, suspeitas de participar de uma tentativa de fraude do processo.
Segundo a investigação, Neném é acusado de ajudar a tramar a execução e de mentir em depoimento. À polícia, uma filha declarou que ele teria preferido apoiar Flordelis por ser financeiramente dependente da deputada.
Já Adriano é suspeito de tentar ajudar a incriminar outras pessoas, incluindo os irmão Misael e Luan Santos, motivo pelo qual responde por associação criminosa e falsidade ideológica - mas não por homicídio. "Mãe, quero falar uma coisa para senhora. Independente do que aconteça eu sempre vou te amar" é uma das falas atribuídas a ele no processo.
Com base em depoimentos colhidos, os investigadores afirmam, ainda, que Anderson chegou a saber do plano para assassiná-lo e até recebeu, por deslize dos acusados, mensagem tratando sobre o assunto - o iPad do pastor era sincronizado. No entanto, ele não teria levado a ameaça a sério. Segundo testemunhas, para o pastor era "Deus no céu e Flordelis na terra".