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'A morte desce o morro': Em 1967, mais de 400 mortos em Caraguatatuba; leia relato de repórter

Gabriel Manzano, do Estadão, cobriu a maior tragédia do litoral de São Paulo, em consequência das chuvas

22 fev 2023 - 17h19
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Fazia sol no final da manhã do domingo, 19 de março de 1967, quando apareci na redação do Jornal da Tarde, na Rua Major Quedinho, a 300 metros da minha casa, em busca de alguma companhia para almoçar. "Oi, Gabi, venha aqui urgente", gritou aliviado o chefe de reportagem, Laerte Fernandes, assim que me viu - e meia hora depois eu estava em um helicóptero ao lado do fotógrafo Geraldo Guimarães, entre nuvens escuras e ventos fortes, descendo a serra a caminho de Caraguatatuba. "A cidade acabou", diziam os recados recebidos ao longo da manhã. Em praticamente todo o litoral paulista, chovia sem parar havia quatro dias.

Paramos numa pista larga, não longe da praia, e metemos o pé na lama. Tentar saber o que se passava entre os 15 mil habitantes da cidade era perda de tempo - que o diga o então prefeito, Geraldo Nogueira da Silva, já exausto, sem dormir havia 36 horas, que nos atendeu enquanto dava ordens a imediatos e ouvia relatos de soldados.

Daquilo tudo algo me ficou mais forte na memória: um cabo de 80 metros, de um lado a outro do Rio do Ouro, ao qual cordas amarravam caixões - uma fila de corpos balançando precariamente sobre as águas a caminho do cemitério.

"A lama vermelha amolecida por três dias de chuva forte deslizou sobre a cidade, encobriu casas no pé da serra. Dez minutos depois, Caraguatatuba quase não existia mais", escrevi no começo da reportagem que foi capa e última página do Jornal da Tarde no dia seguinte. "Em dez minutos, 400 mortos", alertava a manchete do jornal. "A morte desce o morro", dizia o título na última página, Nos dias seguintes, uma ampla equipe de repórteres - como Moisés Rabinovici, Hamilton de Almeida, Carmo Chagas e Celso Kinjô - levou adiante a cobertura, que ganhou o prêmio Esso de equipe daquele ano.

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  • Estadão
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