'A morte desce o morro': Em 1967, mais de 400 mortos em Caraguatatuba; leia relato de repórter
Gabriel Manzano, do Estadão, cobriu a maior tragédia do litoral de São Paulo, em consequência das chuvas
Fazia sol no final da manhã do domingo, 19 de março de 1967, quando apareci na redação do Jornal da Tarde, na Rua Major Quedinho, a 300 metros da minha casa, em busca de alguma companhia para almoçar. "Oi, Gabi, venha aqui urgente", gritou aliviado o chefe de reportagem, Laerte Fernandes, assim que me viu - e meia hora depois eu estava em um helicóptero ao lado do fotógrafo Geraldo Guimarães, entre nuvens escuras e ventos fortes, descendo a serra a caminho de Caraguatatuba. "A cidade acabou", diziam os recados recebidos ao longo da manhã. Em praticamente todo o litoral paulista, chovia sem parar havia quatro dias.
Paramos numa pista larga, não longe da praia, e metemos o pé na lama. Tentar saber o que se passava entre os 15 mil habitantes da cidade era perda de tempo - que o diga o então prefeito, Geraldo Nogueira da Silva, já exausto, sem dormir havia 36 horas, que nos atendeu enquanto dava ordens a imediatos e ouvia relatos de soldados.
Daquilo tudo algo me ficou mais forte na memória: um cabo de 80 metros, de um lado a outro do Rio do Ouro, ao qual cordas amarravam caixões - uma fila de corpos balançando precariamente sobre as águas a caminho do cemitério.
"A lama vermelha amolecida por três dias de chuva forte deslizou sobre a cidade, encobriu casas no pé da serra. Dez minutos depois, Caraguatatuba quase não existia mais", escrevi no começo da reportagem que foi capa e última página do Jornal da Tarde no dia seguinte. "Em dez minutos, 400 mortos", alertava a manchete do jornal. "A morte desce o morro", dizia o título na última página, Nos dias seguintes, uma ampla equipe de repórteres - como Moisés Rabinovici, Hamilton de Almeida, Carmo Chagas e Celso Kinjô - levou adiante a cobertura, que ganhou o prêmio Esso de equipe daquele ano.
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