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A entrega continua rápida. Mas agora é com os bikeboys

No entorno da Faria Lima, entregadores usam bicicletas para levar pedidos de apps de comida

15 jan 2019
03h29
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SÃO PAULO - Lá está o Deivid deitado de barriga para cima no gramado de uma pequena praça em frente ao Shopping Vila Olímpia, na zona oeste de São Paulo. Veste a roupa de trabalho: bermuda tactel, camisa de algodão, chinelos e óculos escuros. Com o celular dentro de uma bolsinha de plástico, pendurada no pescoço, ele cruza os braços, fecha os olhos e tenta começar o cochilo. Por ali passam pedestres, patinetes, bicicletas e carros, tudo ao mesmo tempo. São 15h30 de uma quarta-feira comum, horário comercial para muitos paulistanos.

Alheio ao movimento, Deivid Luiz Gomes de Moraes, de 29 anos, descansa antes de voltar ao batente. E mantém sua bicicleta de serviço encostada em uma árvore, sem trava. Ao redor, amontoam-se bicicletas e, ao lado de cada uma, pontilham a grama bolsas térmicas coloridas: Glovo (amarela), Rappi (laranja), iFood (vermelha) e Uber Eats (preta e cinza). São de Deivid e dos outros colegas de trabalho, cerca de 15. Eles são os bikeboys - tipo motoboys, só que das bicicletas.

A atividade é recente, mas os bikeboys já estão se espalhando pela cidade, principalmente na região do entorno da ciclovia da Avenida Faria Lima. Os entregadores têm entre 18 e 30 anos. A maioria que estaciona a bike na praça sai da periferia da zona sul e, todas as manhãs - até aos finais de semana -, pedalam em direção à pracinha na zona oeste. Ali, entre as ruas Gomes de Carvalho e Vicente Pinzon, eles criaram um ponto, uma espécie de bolsão, onde esperam a hora do jantar: é quando o celular vai tocar os chamados dos restaurantes do entorno, com pedidos de clientes dos aplicativos de comida.

Por volta das 15 horas, os pedidos de comida por aplicativo cessam. Até 18 horas, eles mantêm o aplicativo desligado e descansam. Antes de chegar à praça, pedalaram pelo menos 10 quilômetros no trajeto da zona sul até a zona oeste. Na hora do almoço, eles pedalam para garantir a comida dos outros. E deixam para fazer um almoço combinado com janta entre um horário de pico e outro. Em um dia bom, conseguem ganhar com o valor do frete e de incentivos dos aplicativos até R$ 400. Em um dia ruim, R$ 100.

A praça que escolheram para ficar é um ponto estratégico: próximo a uma área comercial com muitos restaurantes e a dois shoppings - onde eles usam banheiro e enchem a garrafa d'água. Além disso, na própria praça eles carregam o celular em um totem de uso público, sentam nos bancos para almoçar na marmitex ou na tupperware que trazem de casa e tiram dúvidas com os colegas mais experientes enquanto aguardam os chamados. Dali, os bikeboys podem ser vistos em Pinheiros, Itaim-Bibi, Jardins, Moema, Nova Monções, Indianópolis, Novo Brooklin - regiões que estão a até 2 quilômetros de distância.

De roupas leves, óculos escuros, boné, garrafa d'água e protetor solar, Deivid pedala 18 quilômetros por dia do Campo Limpo, zona sul, somente para chegar ali. "Fim de semana é o que bomba. Quem não vem perde dinheiro", diz. "Mas o melhor dia mesmo é quando chove. A gente fica molhado, mas ganha bem."

Desde 1º de novembro, Deivid trabalha de bikeboy. Para quem está começando, diz, "basta ter bicicleta e telefone". "Bicicleta não é tão cara, ainda tem essas que alugam. E telefone todo mundo tem", conta Deivid. Além disso, os bikeboys em geral bancam também a mochila térmica.

Tem bikeboy, como o Rodrigo Portela, de 25 anos, que não possui ainda bicicleta própria e paga o plano mensal de uma empresa de bikes compartilhadas. "O ruim é só porque preciso trocar de bicicleta antes de completar 1 hora, porque senão pago R$ 5. Então, preciso pegar outra. Se estou em uma corrida longe das estações onde deixo a bicicleta, acabo tendo de pagar. Isso acontece pelo menos uma vez por dia", relata.

Todos os dias, ele sai de Itapecerica da Serra, na região metropolitana, a duas horas de distância da praça. O trajeto é feito de carona com um amigo que tem carro. Ao chegar à praça, Portela retira uma bicicleta compartilhada da estação.

Um mês após ter começado como bikeboy, Deivid entrou em uma loja no Capão Redondo, também na zona sul, para comprar um celular novo com o dinheiro que lucrou no trabalho. Na porta, encontrou Luís Leite da Silva, de 19 anos, entregando panfleto. "Nunca tinha visto o moleque na vida. Ele estava debaixo de sol, ao meio-dia. Pensei: 'O cara tem de ser guerreiro e gostar de trabalhar para estar fazendo isso'. Parei perto dele, comecei a falar do trabalho. Mandei um print com meus ganhos. E ele perguntou: 'Você tirou tudo isso?'", conta.

Era o primeiro dia de Luís na função de vendedor de planos odontológicos. Ele largou o emprego. Deivid emprestou uma bicicleta e ainda ajudou Luís a comprar uma mochila e uma capinha para guardar o celular (item importante em dias de chuva). "Esse cara foi enviado por Deus para me ajudar", afirma, referindo-se a Deivid.

Luís também pedala 19 quilômetros diariamente, do Capão Redondo, somente para chegar à região da praça, na zona oeste. "É um pouco cansativo, mas venho devagarzinho e vai dar tudo certo. No começo é difícil. Precisa ganhar estrelas e recomendações para ter entrega. Mas com o tempo vou pegar o jeito e entrar na luta com os meninos pelos melhores aplicativos", diz.

Além de providenciar a bag e a bicicleta, os próprios instrumentos de trabalho, também cabe aos ciclo-entregadores o uso de equipamentos de segurança, como capacete. A maioria deles não usa.

Marcos Vinícius Soares, de 21 anos, é um dos poucos que utilizam o item na cabeça. O capacete protegeu de um acidente mais grave em novembro, quando ele levou um tombo ao esbarrar em outro ciclista que estava no celular. Ele iniciou como bikeboy há três meses. "Tive só uma luxação no joelho", diz ele, que pedala pelo menos 19,5 km todos os dias do Capão Redondo, na zona sul, até a praça.

Aplicativos

Em nota, o iFood informou que o uso de bicicletas para entrega está "ainda em fase de teste". A adoção do modal "é uma nova possibilidade para entregadores e também está alinhada com os valores da empresa por ser eco-friendly".

A empresa informou que em breve anunciará novidades com outros modais. "Os entregadores que usam bicicletas recebem oportunidades de corridas no aplicativo que estão dentro de um raio de entrega menor do que a dos motociclistas. Todos os entregadores são autônomos e se cadastram no aplicativo iFood para Entregadores quando têm interesse em receber corridas. Eles têm como opção os modais motocicleta e bicicleta, ainda em fase de teste", explicou o iFood.

Em caso de acidente com o bikeboy, o Rappi informou que dá suporte. "Como os entregadores são autônomos, não temos obrigação legal de intervir caso ocorra um acidente com ele ou envolvendo um terceiro. Mesmo assim, achamos importante dar um suporte. Por isso, temos uma equipe dedicada a auxiliar em qualquer situação de acidente ou postura indevida dos entregadores", diz a empresa.

A Rappi afirma ainda que orienta os entregadores a respeitarem as leis de trânsito. "Eles são expressamente orientados a não usar as calçadas. Por isso a palestra de capacitação é importante. Lá conseguimos passar as orientações sobre as melhores práticas", explica.

Procurados, Glovo e Uber Eats não responderam.

Bicicletas de serviço dobram na Faria Lima

O fluxo diário de bicicletas de serviço dobrou na ciclovia da Avenida Faria Lima em 2018. Por dia, circulam em média na 227 bikes de serviço, ante 110 no ano de 2015, quando foi realizado o último levantamento. Os dados são da Aliança Bike.

São consideradas bicicletas de serviço as cargueiras, as bicicletas de entrega de comida com mochila térmica, bike táxi, triciclos de entrega e as courier (entregador de pequenos volumes que atende uma ou várias empresas principalmente para o transporte de documentos).

Do total de 227 ciclistas em serviço contados (5% do total nesta ciclovia) na Faria Lima, 66 usavam bolsa térmica nas costas, o que representa 23% de todos os ciclistas em serviço. Segundo o levantamento, a maior concentração de entregas ocorre entre 12h e 14h.

Diante do aumento da demanda, para regulamentar a prática na capital, um projeto de lei deve ser apresentado em fevereiro pelo vereador Caio Miranda (PSB) na Câmara Municipal para criar a primeira política municipal de ciclologística do País.

Uma das justificativas é a de que a atividade de ciclologística já é difundida na cidade. Somente no distrito do Bom Retiro, são feitas, diariamente, 2.349 entregas de bicicleta ou triciclo.

Além de regulamentar, a política quer definir a ciclologística como uma atividade de transporte de bens e serviços a partir de bicicletas e triciclos a propulsão humana e/ou eletricamente assistidos.

A iniciativa também prevê formação e capacitação dos cicloentregadores, além do estacionamento de bicicletas cargueiras e triciclos no sistema viário.

Estadão

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