Centrão será peça-chave para contrapor oposição fortalecida no Congresso, dizem especialistas
Lula deve enfrentar um Congresso mais hostil no próximo mandato, com o fortalecimento do PL. Segundo especialistas, acordos com o Centrão e possíveis divisões na oposição serão decisivos para aprovar propostas e garantir governabilidade
Após ser reeleito contra Flávio Bolsonaro, Lula enfrentará um Congresso adverso a partir de 2027, marcado pela forte oposição do PL, que terá grande bancada no Senado e na Câmara. Segundo analistas, o Centrão será essencial para garantir a governabilidade do petista por meio de acordos e emendas, já que o bloco teme o apetite hegemônico do bolsonarismo. Além de negociar com esses partidos de centro, o governo terá de apostar em temas populares para superar a forte resistência legislativa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve ter uma relação ainda mais complicada com o Congresso em seu próximo mandato presidencial por causa do peso que o maior partido de oposição, o PL, terá a partir de 2027.
Neste cenário, para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o chamado Centrão — e até mesmo partes do próprio PL — podem ajudar o futuro governo em votações importantes por meio de acordos, interesses particulares ou estratégias de sobrevivência política.
Em discurso após o resultado do segundo turno, no qual derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), Lula reconheceu o cenário adverso no Congresso, mas afirmou sua disposição em trabalhar junto com os parlamentares eleitos.
"Eu não escolhi o Congresso, foi o povo quem escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar", disse Lula, após a confirmação da reeleição.
A eleição dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, prevista para fevereiro de 2027, é considerada o primeiro grande termômetro para medir as novas relações de forças políticas.
Para a cientista política Beatriz Rey, pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a tendência atual é que o Senado tenha um presidente mais alinhado com o bolsonarismo, dado o tamanho da bancada do PL na Casa. Ou seja, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) deve ter bastante dificuldade para se reeleger.
Na Câmara dos Deputados, por outro lado, já há movimentações do Centrão para reeleger Hugo Motta (Republicanos-PB) como presidente da Casa, tendo uma reeleição potencialmente mais tranquila.
Em entrevista à BBC News Brasil, o cientista político Creomar de Souza, da Dharma Politics, afirmou que o Centrão se assustou com o apetite do PL por poder logo após o resultado do primeiro turno.
Segundo Souza, Flávio Bolsonaro tentava atrair apoio político para o seu eventual governo e queria o PL livre para pleitear o comando do Senado e da Câmara.
"Dizer que quer a presidência das duas Casas é dizer que o PL quer ser um partido hegemônico e, em algum sentido, isso quebra a dinâmica daquilo que foi e que é o multipartidarismo desde a redemocratização [em 1985]. E isso assustou muita gente no Centrão."
Centrão é o nome dado a um bloco político informal, formado por partidos de centro ou centro-direita que costumam apoiar diferentes governos principalmente em troca de verbas e cargos. MDB, PSD, Progressistas (PP), Republicanos, União Brasil e Podemos são alguns dos principais partidos desse bloco.
"São partidos que tendem a colaborar com quem oferece mais", afirmou Rey, da Universidade de Lisboa.
Rey lembrou ainda que, independentemente de que saísse vencedor da disputa presidencial de 2026, "o poder que o Congresso concedeu em relação às emendas orçamentárias não muda".
"O Congresso está com maior protagonismo. Ele se deu esse poder das emendas orçamentárias. O valor dos ministérios parece que diminuiu [nas negociações políticas], então o Executivo fica mais à mercê dá vontade do Congresso. Apesar de o Executivo, junto do Legislativo, ter encontrado caminhos que nem acho que são os mais apropriados. Por exemplo, as emendas de comissão", afirmou Rey.
As emendas de comissão são apresentadas por comissões permanentes da Câmara ou do Senado para financiar projetos de impacto temático ou regional.
Na última década, o valor destinado às emendas vem subindo gradativamente, saltando de cerca de R$ 10 bilhões há dez anos para R$ 61 bilhões neste ano.
O valor representa quase um quarto do orçamento que o governo federal tem para gastar livremente, por meio de ministérios, na forma de investimentos, infraestrutura e outros projetos — o chamado gasto discricionário.
Peso do bolsonarismo no Congresso
Na eleição deste ano, a bancada bolsonarista no Senado chegou a 44 dos 81 senadores, segundo levantamento feito por Rey.
Outros 24 são ligados ao campo lulista e 13 foram classificados por ela como independentes dos dois grupos (sendo que 5 deles podem até ser incluídos na bancada bolsonarista, a depender do método de cálculo adotado).
O PL, especificamente, terá uma bancada com 28 senadores, ou seja, mais de um terço das cadeiras do Senado, representando um potencial obstáculo para projetos que dependem de aprovação mais ampla, como mudanças à Constituição (que dependem da obtenção de 49 votos, ou três quintos dos 81 senadores).
Rey ressaltou, em entrevista à BBC News Brasil, que o crescimento do PL nesta eleição também está ligado à movimentação de políticos em busca de mais recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral e que esse crescimento não significa que o partido tenha necessariamente ficado mais coeso. Ou seja, que o PL teria 28 senadores sempre votando de maneira parecida ou coordenada.
Ela compara com o crescimento do PSL na eleição de 2018, que elegeu uma bancada grande em paralelo à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, mas rachou em menos de um ano.
"[Existe um] cenário do PL rachado. É possível que uma parte do PL não seja radicalizada e que acabe votando junto com o Centrão", disse Rey.
Para Souza, o Congresso deve ter potencialmente duas grandes forças. De um lado o PL, com 121 deputados federais e 28 senadores. Do outro, a coalizão vencedora liderada pelo presidente Lula que ele chama de "coalizão de resistência" que continuamente atuaria para impedir que o PL se torne hegemônico.
"Nessa coalizão, a gente vai ter potencialmente tudo que é o progressismo — com exceção do PSOL, que funciona numa dinâmica muito particular que não tem a ver com o resultado, mas com a ideia de algum purismo ideológico —, e pedaços do Centrão que veem no crescimento exponencial do bolsonarismo um problema para a sua própria existência. Aqui a gente pode destacar o papel do PSD, do Republicanos em algum sentido e de alguns outros partidos", avalia Souza.
Para Lucas Aragão, cientista político e sócio da Arko Advice, vai ser um cenário inédito, desafiador na Câmara e beirando a incapacidade de se fazer política no Senado.
"Nunca houve um cenário assim, em que uma das Casas é claramente de oposição. Ele [Lula] não vai ter espaço algum no Senado", afirma.
Para tentar garantir alguma governabilidade, Aragão avaliou que o petista terá que tentar aprovar propostas que conversem minimamente com a pauta da direita ou que tenham muito apelo popular, como foi a PEC do fim da escala 6x1.
Ainda assim, disse Aragão, Lula teria à disposição um arsenal limitado de ações.
"Não sabemos se, pela primeira vez, o governo vai tentar mobilizar a sociedade civil para sensibilizar o Congresso, como aconteceu com o fim da escala 6x1, ou se vai manter o que é a marca do PT governista desde que chegou ao poder em 2003, que é buscar a conciliação e não ir pro embate", disse Lincoln Secco, historiador, professor da USP e autor do livro A História do PT (Ateliê Editorial).
Ele lembra que, historicamente, o governo petista prefere tentar a negociação ao confronto. Resta saber qual será a postura adotada agora, diante de um Congresso tão antagonista.
Lula foi reeleito no domingo (25/10) com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), com 59.826.041 votos. A diferença de 2,2 milhões votos em favor do candidato do PL no primeiro turno deu lugar a uma vantagem de 4,4 milhões de votos para Lula no segundo turno.
Segundo Souza, esse resultado que surpreendeu muitos eleitores e políticos gerou um misto de felicidade e alívio em grande parte dos nomes de direita que o apoiaram nesta eleição, sobretudo nomes com grandes aspirações políticas para as eleições de 2030.
Analistas políticos citaram, por exemplo, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF) como figuras que ganham força no campo político da direita com a derrota de Flávio.
Mas a segunda derrota presidencial consecutiva da família Bolsonaro não significa necessariamente o enfraquecimento imediato do movimento criado em torno do ex-presidente.
Marco Antônio Teixeira, professor de Ciência Política da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, avalia que a derrota de Flávio enfraquece a família, mas não elimina seu poder. "A família Bolsonaro se enfraquece, mas ela tem o PL com 120 deputados na mão. Nem todos são bolsonaristas, mas a maior parte deles depende do bolsonarismo para viver."
Reportagem de Camilla Veras Mota, Marina Rossi e Leandro Prazeres
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