Casos de suicídio durante ditadura serão submetidos a nova perícia
3 jun2013 - 19h54
(atualizado às 20h04)
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Fotógrafo que registrou o jornalista Vladimir Herzog morto volta ao local da foto. O suicídio sempre foi contestado, inclusive por conta da imagem, que mostrava a vítima pendurada pelo pescoço em uma grade da cela, com os joelhos dobrados, o que é incomum nesses casos
Foto: Alice Vergueiro / Futura Press
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) fará nova perícia em 44 mortos durante o período da ditadura militar, que, segundo a versão oficial da época, cometeram suicídio. Em todos os casos existiriam indícios de fraude no resultado necroscópico, como, por exemplo, em fotos dos cadáveres.
A lista foi elaborada por peritos, pesquisadores e membros da comissão, integrantes do grupo de trabalho Graves Violações de Direitos Humanos. O grupo investiga casos de mortes, desaparecimentos forçados e tortura no período analisado pela CNV, de 1946 a 1988. Pretende-se utilizar as novas tecnologias disponíveis, como a computação gráfica, como suporte ao trabalho pericial.
Um dos 44 casos é o de Luiz Eurico Tejera Lisboa, morto em 1972, em São Paulo, com um tiro na cabeça. O laudo da época concluiu que Lisboa, enterrado com o nome falso de Nelson Bueno, se matou. Uma nova perícia conseguiu, no entanto, provar o contrário. Os peritos criminais Celso Nenevê, Pedro Luis Lemos da Cunha e Mauro José Oliveira Yared, que têm trabalhado com a CNV, estudaram a documentação da vítima e encontraram dados inconsistentes.
Para os peritos, a versão oficial está descartada. "Eurico Tejera foi ‘suicidado’. Mataram ele. Ele não se suicidou coisa nenhuma", diz Cláudio Fonteles, coordenador do grupo de trabalho ao lado de José Carlos Dias, membro da CNV.
Os peritos também trabalham no caso da morte de Juscelino Kubitschek, trazido à CNV pela Comissão da Verdade da seccional mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG). A versão conhecida, na qual o ex-presidente morreu em um acidente de trânsito, e contestada pela instituição, nunca foi uma unanimidade e provoca questionamentos há anos.
O ex-fotógrafo Silvaldo Leung Vieira participou nesta terça-feira de uma audiência pública na Comissão Municipal da Verdade, instalada na Câmara de São Paulo
Foto: Vagner Magalhães / Terra
O ex-fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor da foto que mostra o jornalista Vladimir Herzog morto, afirmou que não se sente cúmplice do regime militar brasileiro
Foto: Vagner Magalhães / Terra
Não me senti cúmplice, mas me sentia muito mal. De ter iniciado a vida daquela forma, disse o ex-fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, 59 anos,nesta terça-feira, na audiência pública da Comissão Municipal da Verdade, instalada na Câmara de São Paulo
Foto: Vagner Magalhães / Terra
Ivo Herzog observa foto do pai, o jornalista Vladimir Herzog, morto dentro das dependências do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), nesta terça-feira
Foto: Vagner Magalhães / Terra
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Durante a visita, Silvaldo Leung Vieira teve dificuldades para reconhecer o local, que passou por sucessivas reformas desde então
Foto: Alice Vergueiro / Futura Press
A causa da morte sempre foi contestada, inclusive por conta da foto, que mostrava a vítima pendurada pelo pescoço em uma grade da cela, com os joelhos dobrados, o que é incomum em casos de suicídio
Foto: Alice Vergueiro / Futura Press
Em sua memória, a única coisa clara que permanece são os muros e portões altos que dão acesso ao pátio do prédio
Foto: Vagner Magalhães / Terra
Na época, estudante de fotografia, Vieira concluía um curso no Instituto de Criminalística de São Paulo, após passar em concurso