Caso Moraes-Vorcaro dá gás à direita na disputa do Senado e desinfla 'pauta positiva de Lula', diz analista
Christopher Garman, da Eurasia, avalia que o efeito das mensagens tende a ser negativo para Lula diante de um 'pessimismo' do eleitor e positivo para candidatos da direita ao Senado que defendem impeachment de ministros do STF.
As mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes geram um pessimismo que ofusca a pauta positiva do governo Lula no Congresso, segundo a consultoria Eurasia Group. Embora não mude drasticamente o favoritismo de Lula na corrida presidencial, o escândalo fortalece candidaturas de direita ao Senado, impulsionadas pelo discurso anti-STF e pró-impeachment de ministros, além de abrir espaço para o crescimento de nomes alternativos na disputa pelo Planalto.
As revelações sobre as trocas de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), devem consolidar um ambiente de pessimismo que pode influenciar as eleições marcadas para outubro.
Essa é a análise de Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, especializada em análise de risco político e geopolítico.
Com esse pessimismo prevalecendo, a tentativa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição e líder até o momento nas pesquisas, de se beneficiar de uma pauta positiva no Congresso pode ser anulada.
"Quando você é o governante, quer um ambiente em que possa vender seu peixe, mostrar os programas. Quando um escândalo como esse domina as manchetes, reforça o ambiente de pessimismo, da visão do eleitor de que o país não está na direção correta", avalia Garman.
O governo tem a expectativa de que o Congresso, em regime de esforço concentrado antes das eleições, vote — e aprove — propostas de grande apelo popular, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6x1 e redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas.
Em agosto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), destravou o andamento da proposta que havia sido aprovada pela Câmara em maio, para seguir à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ser votada nesta semana.
Outra pauta de interesse do governo é a PEC que reorganiza o sistema de segurança pública no país e também foi liberada por Alcolumbre para prosseguir no Senado. Os andamentos ocorreram após uma reaproximação de Lula com o senador.
"Era uma semana em que o governo queria alardear votações importantes no Senado, e tudo agora está sendo dominado pelo escândalo", diz Garman.
Segundo o analista, a frustração dentro do governo pode ser ainda maior porque, diante da revelação das mensagens entre Moraes e Vorcaro, ficou ofuscada a reportagem da revista Piauí que chegou às bancas na terça (1º/9) e afirma que os repasses do banqueiro para o filme Dark Horse foram ainda maiores do que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) havia admitido.
Mas, apesar de um cenário que pode ser ruim ao governo, Garman avalia que o escândalo não deve ter força para mudar o quadro eleitoral.
"Não é uma denúncia contra Lula. Então, não dá para colocar um peso exagerado nesse escândalo. Sem falar que Flávio Bolsonaro também tem interações com Vorcaro", diz o diretor da Eurasia.
"Mas não descarto que Lula possa ser prejudicado e a margem [entre Lula e Flávio] se estreitar. Só que não é isso que vai mudar o jogo. Segue sendo uma eleição muito imprevisível."
A avaliação da consultoria de risco político é de que Lula segue com um ligeiro favoritismo, baseado nos dois modelos em que a empresa se baseia.
Um deles avalia histórico de eleições no mundo todo nos últimos 40 anos para fazer uma avaliação entre a aprovação do presidente a seis meses da eleição e a possibilidade de ser reeleito. Com 45% de aprovação (caso de Lula, segundo as pesquisas), o incumbente ganha em 78% das vezes.
Mas o segundo modelo joga contra o presidente ao identificar as principais preocupações do eleitor e avalia a credibilidade do candidato para resolver os problemas.
De acordo com Garman, os dois temas são segurança pública e corrupção, áreas em que Lula não "tem credibilidade" perante a opinião pública.
Um Senado à direita
Apesar de o efeito na corrida presidencial não ser tão decisivo, Garman avalia que, para a eleição do Senado, a revelação de que Moraes mantinha uma relação próxima a Vorcaro pode beneficiar a direita.
O Senado é a Casa responsável por processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. São os senadores que podem abrir um processo de impeachment de ministro e, ao final, decidir pela perda do cargo.
A oposição tem colocado o impeachment de Moraes entre suas principais pautas no Senado. Já existem vários pedidos nesse sentido — e novos foram feitos nesta terça-feira por políticos de direita. A reivindicação, aliás, tem sido colocada na plataforma de vários candidatos para eleições de outubro.
Para Garman, o novo escândalo pode reforçar sentimento anti-STF na eleição legislativa.
"Ele pode dar mais gás para candidaturas à direita, e o perfil do Senado se tornar mais anti-Supremo", diz.
Outro que pode ter algum retorno positivo diante do escândalo é Augusto Cury (Avante), candidato à Presidência que cresceu nas últimas pesquisas e aparece agora em terceiro no agregador de pesquisas da BBC News Brasil.
"Num mar de lama para todo mundo, um candidato alternativo pode ser beneficiado", avalia.
Segundo Garman, o desafio de Cury é se tornar um nome conhecido.
Nas previsões da Eurasia, a probabilidade de um candidato que não seja Flávio Bolsonaro ir ao segundo turno com Lula é de 30%.
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