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Política

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Vídeo enganoso relaciona velas aromáticas, teflon e potes plásticos ao desenvolvimento de câncer

ESPECIALISTAS AFIRMAM QUE NÃO HÁ COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA DE QUE PRODUTOS ELEVEM RISCO DE DOENÇA, DESDE QUE USADOS EM CONDIÇÕES ADEQUADAS

2 set 2026 - 13h01
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Resumo
É enganoso o vídeo que associa o uso de potes plásticos, velas aromáticas e frigideiras de teflon ao câncer. Especialistas esclarecem que não há comprovação científica de que esses itens causem a doença diretamente, já que o câncer é multifatorial e eventuais riscos dependem de materiais e do tempo de exposição. Recomenda-se apenas precaução no manuseio, como evitar superaquecer plásticos inadequados ou usar panelas danificadas, priorizando um estilo de vida saudável para prevenir a doença.

O que estão compartilhando: vídeo em que um homem lista os objetos "mais cancerígenos" que as pessoas têm em casa. Entre os itens citados como "ameaças severas" para o desenvolvimento de câncer estão recipientes de plástico usados para esquentar comida, velas aromáticas e frigideiras de teflon.

Não há comprovação científica de que o uso de potes de plástico, velas aromáticas e frigideiras de teflon, por si só, cause câncer ou aumente o risco de desenvolvimento da doença
Não há comprovação científica de que o uso de potes de plástico, velas aromáticas e frigideiras de teflon, por si só, cause câncer ou aumente o risco de desenvolvimento da doença
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Não há comprovação científica de que o uso de potes de plástico, velas aromáticas e frigideiras de teflon, por si só, cause câncer ou aumente o risco de desenvolvimento da doença. Especialistas consultados pelo Verifica explicaram que eventuais riscos à saúde dependem de fatores como condições de uso desses objetos, substâncias envolvidas, qualidade do material e tempo de exposição. Vale ressaltar que o câncer é uma doença complexa e multifatorial, ou seja, não tem uma causa única.

Saiba mais: o vídeo foi publicado no Instagram por um homem que se apresenta como especialista em medicina chinesa. O conteúdo alcançou mais de 500 mil visualizações na rede social. Embora a imagem indique que o autor mencionaria os "quatro objetos mais cancerígenos", apenas três são citados no vídeo. Veja abaixo a checagem sobre cada item.

Recipientes de plástico

Embora existam preocupações sobre a liberação de substâncias químicas ao aquecer alimentos em recipientes de plástico, não há evidências suficientes para afirmar que essa prática aumenta o risco de desenvolver câncer de mama ou de útero, como diz o autor do vídeo verificado. Isso quem explica é a nutricionista Fernanda Teles, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que atua na área técnica Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer.

De acordo com Teles, materiais plásticos podem conter diferentes substâncias em sua composição, e há evidências científicas de que algumas delas podem migrar para os alimentos. Esse processo, no entanto, depende de fatores como o tipo de plástico, a substância presente, a temperatura - que pode aumentar a migração em determinadas condições -, o tempo de contato e as características do alimento. "Demonstrar que uma substância ou partícula migrou para o alimento não significa, por si só, que aquela exposição vá causar câncer ou outro dano à saúde", comentou a nutricionista.

Segundo Maria Del Pilar Estevez Diz, médica oncologista e diretora de Corpo Clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ao aquecer o plástico, um composto chamado Bisfenol A, também conhecido como BPA, pode ser liberado. Ela explica que o BPA age como um desregulador hormonal - por esse motivo, há uma associação com câncer de mama e de endométrio. Isso não significa, no entanto, que o BPA seja a causa direta desses tipos de câncer, mas pode ser um fator contribuinte.

A nutricionista do Inca comentou que o BPA está presente em plásticos e resinas e que, até o momento, o composto não foi classificado quanto ao seu potencial carcinogênico pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS. Apesar disso, baseada no princípio da precaução, a Anvisa proíbe o uso do BPA em mamadeiras e artigos similares destinados à alimentação de crianças de até 3 anos.

A orientação do Inca, segundo Teles, é para que se evite o aquecimento de alimentos em recipientes plásticos. A medida é uma precaução para reduzir a exposição a substâncias potencialmente nocivas, e não uma afirmação de que essa prática comprovadamente causa câncer de mama ou de útero.

A oncologista do Icesp faz a mesma orientação. "A gente deve evitar colocar objetos de plástico no micro-ondas para aquecer alimentos, ou um objeto de plástico que não seja resistente ao micro-ondas. É importante olhar a especificação do produto e utilizar produtos que estejam em bom estado de conservação."

Velas aromáticas

Em relação às velas aromáticas, a oncologista Maria Alzira Rocha, do Hospital Israelita Albert Einstein, explicou que não há um padrão nos materiais utilizados em sua fabricação. "Hoje em dia, o grande problema é que a gente não tem controle sobre como muitas dessas velas são produzidas. Não sabemos se essas substâncias têm potencial cancerígeno."

A variedade de materiais utilizados na fabricação de velas aromáticas também foi apontada pela nutricionista do Inca como um fator que dificulta fazer afirmações sobre seu potencial carcinogênico.

Maria Del Pilar, médica oncologista do Icesp, comentou que algumas velas são produzidas com parafina, um produto derivado do petróleo. Durante a queima, explicou, há a liberação de fuligem, e pode ocorrer a emissão de compostos orgânicos, como o formaldeído, que tem potencial carcinogênico. Segundo Maria, a exposição constante a essas substâncias pode trazer problemas respiratórios devido à irritação provocada pelas partículas de poeira fina.

O potencial de velas aromáticas causarem danos à saúde depende da composição do produto e do nível de exposição. Dessa forma, não é possível afirmar que esse tipo de vela cause câncer, já que não há elementos suficientes para fazer essa afirmação.

Vídeo desinforma ao listar oito produtos que conteriam substâncias cancerígenas

Frigideiras de teflon

O teflon, nome comercial do politetrafluoretileno (PTFE), conhecido por suas propriedades antiaderentes, é frequentemente associado a possíveis malefícios à saúde. Parte dos mitos que circulam sobre o material está relacionada ao fato de que, no passado, sua fabricação utilizava uma substância chamada ácido perfluorooctanóico (PFOA), classificada como carcinogênica para humanos pela IARC em 2023. Essa classificação, entretanto, não se aplica ao PTFE. Conforme mostrou o Estadão, panelas com PFOA não são mais fabricadas desde 2015.

No vídeo verificado, o autor afirma que utilizar uma frigideira de teflon arranhada pode representar um risco para o desenvolvimento de câncer. No entanto, de acordo com a nutricionista do Inca, essa alegação não encontra respaldo em evidências científicas. "Embora o desgaste possa favorecer a liberação de partículas do próprio revestimento, ainda não está estabelecido que essa exposição cause câncer em humanos", disse Teles.

Embora não existam evidências de risco de desenvolvimento de câncer, a nutricionista orienta, como medidas de precaução, substituir panelas danificadas ou que estejam descascando e evitar seu superaquecimento.

Segundo a oncologista do Icesp, as panelas de teflon atuais são seguras e devem ser utilizadas conforme a orientação do fabricante. "O uso não é recomendado se ela estiver muito desgastada, com riscos profundos. Se você ficar aquecendo sem nada e ficar saindo aquela fumacinha, pode ter alguma liberação de substâncias tóxicas."

Conforme a oncologista do Hospital Albert Einstein, a principal orientação quando o assunto é risco de câncer está relacionada ao estilo de vida. Ela destaca, entre medidas que podem diminuir o risco de desenvolver a doença, evitar tabagismo e álcool, praticar atividade física pelo menos três vezes por semana e manter uma alimentação rica em frutas e verduras e pobre em gordura, com pouca carne vermelha e poucos industrializados.

Estadão
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