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Carta de Flávio: quem são Rui Barbosa, de Gaulle e outros líderes da América Latina citados

Senador derrotado nas eleições de domingo citou figuras históricas ao prometer liderar a oposição ao governo Lula vivendo no exterior.

29 out 2026 - 10h33
(atualizado às 11h59)
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Resumo
Após ser derrotado nas eleições e viajar aos EUA em meio a investigações da PF, o senador Flávio Bolsonaro publicou uma carta aberta afirmando que liderará a oposição a Lula do exterior. Autointitulado inicialmente como presidente eleito e depois como líder do Brasil, o parlamentar justificou sua atuação fora do país comparando-se a figuras históricas que enfrentaram regimes no exílio, como Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e líderes opositores venezuelanos contemporâneos.
Flávio Bolsonaro mencionou Rui Barbosa, De Gaulle e Juan Guaidó em sua carta após chegar aos EUA
Flávio Bolsonaro mencionou Rui Barbosa, De Gaulle e Juan Guaidó em sua carta após chegar aos EUA
Foto: Arquivo Nacional e BBC / BBC News Brasil

Na carta aberta ao povo brasileiro que divulgou na quarta-feira (28/10), o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL derrotado na eleição de domingo, afirmou que pretende liderar a oposição no Brasil a partir dos Estados Unidos.

Inicialmente Flávio Bolsonaro se apresentou como "verdadeiro presidente eleito do Brasil", mas 23 minutos depois ele editou a postagem na mídia social em que havia publicado a carta e alterou a redação para "líder do Brasil".

O documento foi divulgado horas após a chegada do senador aos EUA — uma viagem feita depois que seu passaporte havia sido cancelado pela Polícia Federal, em meio a investigações sobre ele e o advogado Willer Tomaz, em um caso que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro.

Flávio Bolsonaro desembarcou na Flórida na quarta-feira após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina
Flávio Bolsonaro desembarcou na Flórida na quarta-feira após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A carta de Flávio Bolsonaro faz referências a diversas personalidades históricas que precisaram liderar do exterior a oposição a um governo — papel que ele diz que caberá a si de agora em diante, contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi reeleito no domingo.

O senador mencionou Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Marti, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado.

"Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele", escreveu Flávio Bolsonaro. "Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa."

Confira abaixo as personalidades históricas citadas na carta do candidato derrotado do PL.

Rui Barbosa

Rui Barbosa fez oposição ao governo de Floriano Peixoto a partir do exílio
Rui Barbosa fez oposição ao governo de Floriano Peixoto a partir do exílio
Foto: Arquivo Nacional / BBC News Brasil

O que Flávio Bolsonaro disse: "Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade".

Rui Barbosa (1849-1923) foi um jurista, político e diplomata brasileiro — considerado uma das figuras mais importante do começo da República no Brasil.

Ele ficou famoso por sua defesa da Constituição, das liberdades civis e do Estado de Direito — e ganhou projeção internacional por seus discursos na Conferência de Haia de 1907, que discutiu mecanismos internacionais para manter a paz entre os países. Ele ganhou o apelido de "Águia de Haia".

Durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894) — o segundo da era da República —, Rui Barbosa tornou-se um dos principais críticos do presidente. Ele defendia que, após a renúncia do primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, a Constituição exigia a realização de novas eleições, e que Floriano havia permanecido no poder de forma inconstitucional. Também atuou na defesa jurídica de opositores presos durante a repressão à Revolta da Armada, um levante de setores da Marinha contra Floriano Peixoto.

Em 1893, Rui Barbosa passou a sofrer perseguição do governo por suas posições. Para evitar a prisão, refugiou-se inicialmente na representação diplomática do Chile e depois deixou o Brasil, vivendo em Buenos Aires, Lisboa, Paris e Londres.

Do exterior, continuou escrevendo contra o que considerava abusos do governo Floriano, retornando ao país apenas em 1895.

Charles de Gaulle

De Gaulle fez transmissão na BBC em Londres em apelo pela resistência contra os nazistas na França
De Gaulle fez transmissão na BBC em Londres em apelo pela resistência contra os nazistas na França
Foto: BBC News Brasil

O que Flávio Bolsonaro disse: "Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país."

Charles de Gaulle (1890-1970) foi um general e presidente da França, considerado uma das figuras mais importantes da resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Em junho de 1940, após a derrota militar francesa para a Alemanha, de Gaulle recusou-se a aceitar a rendição do país e a colaborar com o regime de Vichy, que passou a governar parte da França sob influência alemã.

Exilado em Londres, de Gaulle lançou um apelo transmitido pela BBC, conclamando os franceses a continuarem a luta contra a Alemanha nazista. A partir do Reino Unido, o general organizou o movimento conhecido como França Livre, reunindo apoiadores da resistência francesa espalhados pelo mundo. Ele foi condenado à morte à revelia pelas autoridades de Vichy.

Quando a França foi libertada dos nazistas em 1944, ele foi recebido com festa em Paris e assumiu a liderança do governo provisório francês. Entre 1959 e 1969, foi presidente do país.

José Martí

O que Flávio Bolsonaro disse: "José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York."

José Martí (1853-1895) foi um poeta, jornalista e político cubano, considerado o principal herói da luta pela independência de Cuba, proclamada em 1902. Foi perseguido na juventude por fazer oposição ao domínio colonial da Espanha sobre a ilha.

Grande parte de sua atuação política ocorreu fora de Cuba, especialmente em Nova York, onde viveu por cerca de 15 anos. A partir dos EUA, Martí escreveu artigos, fez discursos, arrecadou recursos e trabalhou para unir grupos de exilados cubanos em torno da causa da independência. Em 1892, ele fundou no exílio o Partido Revolucionário Cubano, criado para organizar a luta contra o domínio espanhol.

Martí coordenou esforços em favor da independência e ajudou a planejar a insurreição que seria iniciada em 1895. Naquele mesmo ano, retornou a Cuba para participar da luta e morreu em combate na batalha de Dos Ríos, tornando-se um dos maiores símbolos da nação cubana.

Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado

María Corina Machado e Edmundo González lideraram oposição ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela
María Corina Machado e Edmundo González lideraram oposição ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela
Foto: EPA / BBC News Brasil

O que Flávio Bolsonaro disse: "Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática".

Juan Guaidó é um político venezuelano que concorreu contra o então presidente Nicolás Maduro em uma eleição em 2019. Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela, alegando que a vitória de Nicolás Maduro havia sido ilegítima.

Após anos de disputa política e crescente pressão do governo, Guaidó deixou o país em 2023. No exterior, especialmente nos EUA, continuou denunciando o governo Maduro e defendendo eleições livres.

Edmundo González é um diplomata e político venezuelano que se tornou o principal candidato da oposição na eleição presidencial de 2024, novamente contra Maduro. Após o pleito, cuja legitimidade foi contestada pela oposição e por diversos governos estrangeiros, González deixou a Venezuela e passou a viver na Espanha. Do exterior, continuou reivindicando a vitória eleitoral da oposição e atuando contra o governo de Maduro.

María Corina Machado é uma das mais conhecidas líderes da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz do ano passado. Impedida pelas autoridades venezuelanas de concorrer à Presidência em 2024, ela apoiou a candidatura de Edmundo González. A maior parte da sua atuação aconteceu dentro da Venezuela, muitas vezes em locais secretos, e não no exílio. Ela deixou a Venezuela em dezembro de 2025, para receber o Nobel da Paz, e só retornou neste mês, após temporadas nos EUA e no Panamá.

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