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Bolsonaro no Chile: crise política no Brasil domina viagem do presidente a Santiago

Durante as 48 horas em que esteve no Chile, Bolsonaro trocou recados principalmente com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), refletindo sua preocupação com o embate entre o Legislativo e o Executivo em torno da reforma da Previdência.

23 mar 2019
19h30
atualizado às 19h40
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A crise política interna do Brasil dominou a primeira viagem do presidente Jair Bolsonaro a um país da América do Sul. Durante as 48 horas em que esteve no Chile, Bolsonaro trocou recados principalmente com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Foto: BBC News Brasil

O embate entre o Legislativo e o Executivo chegou até ao pronunciamento oficial de Bolsonaro no Palácio de La Moneda, sede do governo chileno. Ao lado do presidente do Chile, Sebastián Piñera, para uma declaração sobre o encontro bilateral, Bolsonaro usou parte de seu tempo para falar da política interna no Brasil e dar recado ao Congresso Nacional.

Ao mencionar a necessidade de aprovar a reforma da Previdência, Bolsonaro jogou o peso no colo dos deputados e senadores. "A responsabilidade, no momento, está com o parlamento brasileiro. Eu confio na maioria dos parlamentares, que essa não é uma questão do governo Jair Bolsonaro, mas uma questão de Estado", declarou.

A fala na sede do governo chileno foi mais uma das trocas de recados, de forma pública, entre Bolsonaro e Rodrigo Maia. O presidente da Câmara já sinalizou que deixaria de trabalhar para a articulação da reforma da Previdência e disse à TV Globo que Bolsonaro precisa ter mais tempo para cuidar da Previdência e menos para o Twitter -- principal plataforma de comunicação do presidente.

Depois disso, ainda em Santiago, Bolsonaro afirmou que usa o Twitter 20 minutos por dia e que a reforma da Previdência está na mão de Maia. "Agora, a bola está com ele, não está comigo. Já fiz minha parte, eu entreguei e o compromisso dele, regimental,é despachar e o projeto andar dentro da Câmara."

Como presidente da Câmara, Rodrigo Maia é fundamental para a tramitação da reforma da Previdência na Casa. Nessa função, ele consegue dificultar ou dar celeridade ao processo. A proposta, por sugerir alteração na Constituição, precisa do apoio de três quintos dos parlamentares, em dois turnos de votação, tanto na Câmara quanto no Senado. A tramitação começa pela Câmara, comandada por Maia.

Em outro momento, Bolsonaro havia comparado a situação com Maia a um namoro. "Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar? Não conversou? Estou à disposição para conversar com Rodrigo Maia, sem problema nenhum".

A troca de farpas entre Maia e a família Bolsonaro teve um episódio importante na quinta-feira, quando o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, publicou em sua conta no Instagram uma notícia sobre a rusga entre maia e o ministro Sérgio Moro e escreveu: "Por que o presidente da Câmara anda tão nervoso?". Isso aconteceu no mesmo dia em que foi preso o ex-ministro Moreira Franco, que é casado com a sogra de Maia.

Venezuela

Um eventual conflito com a Venezuela também virou tema durante a viagem, após o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, afirmar a um jornal chileno que, de alguma maneira, seria necessário usar a força na Venezuela. Depois, ao ser questionado sobre o tema pela imprensa brasileira, recuou e disse que ninguém quer uma guerra.

Rodrigo Maia foi perguntado sobre essa declaração em entrevista ao Estadão e afirmou que "o Brasil não tem nem condições de segurar 24 horas de confronto com a Venezuela", já que, segundo ele, a estrutura das Forças Armadas do Brasil está desabastecida.

Após a divulgação da fala de Maia, Bolsonaro disse: "Ele está desprestigiando as Forças Armadas dessa maneira? Ele falou isso mesmo? Nós não queremos guerra com ninguém. Em algum momento falei em guerra? Ele está completamente desinformado. Lamento e até perdoo Rodrigo Maia, pelo momento que ele está vivendo".

Bolsonaro e Pinochet

Nos dois dias em que Bolsonaro teve reuniões com Piñeda, houve manifestações em ruas no centro da cidade contra o presidente brasileiro. Os manifestantes carregaram cartazes com mensagens como "Fascismo mata", "Bolsonaro é racismo", "Bolsonaro é misoginia".

O presidente, contudo, disse a Piñera que foi muito bem recebido pela população no Chile, inclusive quando foi a um shopping em Santiago. "Parecia até que estava no Brasil", disse.

A presença de Bolsonaro em Santiago gerou discussão entre os chilenos antes mesmo da chegada do presidente brasileiro. Isso porque parlamentares da oposição recusaram o convite de Piñera para um almoço em homenagem a Bolsonaro no sábado.

O presidente do Senado chileno, Jaime Quintana, disse em entrevista à BBC News Brasil que "os admiradores de Pinochet não são bem vindos no Chile". Bolsonaro declarou, no passado, ser admirador do ditador Augusto Pinochet, que, segundo ele, "fez o que tinha ser feito" no período em que comandou o país, desde o golpe militar - que o levou ao poder, - em 1973, até 1990, quando teve de entregar a presidência a um civil eleito após um plebiscito.

Antes de ir embora do Chile, Bolsonaro foi questionado sobre a opinião dele em relação ao ditador, por uma repórter estrangeira, e respondeu: "O que eu penso de certas coisas eu falo no Brasil. Aqui eu respeito o povo chileno".

Durante os anos Pinochet, o Chile se modernizou, a economia cresceu - mas milhares de pessoas foram presas, mortas ou torturadas pelo Estado.

Uma polêmica que rondou a imagem de Pinochet após o fim de seu governo foi a revelação de contas mantidas secretamente em bancos no exterior. Enquanto investigava casos de lavagem de dinheiro, uma subcomissão do Senado dos EUA acabou encontrando os valores mantidos pelo ex-general e sua família no Riggs Bank, organização com sede em Washington e filiais em Londres.

Pinochet e sua família mantinham, segundo o Senado americano, cerca de US$ 8 milhões em contas na instituição - os valores teriam sido depositados entre 1994 e 2002. Somado ao de outras contas em outros bancos estrangeiros, o valor subia para quase US$ 15 milhões.

A investigação revelou, em 2004, que Pinochet conseguira transferir, enquanto estava detido na Espanha, cerca de US$ 1,6 milhão do total para uma conta nos EUA.

No ano passado, a Suprema Corte chilena ordenou à família do ex-general que devolvesse aos cofres públicos parte dos valores - cerca de US$ 5,1 milhões, de acordo com a sentença.

Novo grupo na América do Sul

Piñera, acompanhado de Bolsonaro e de outros chefes de estado da América do Sul anunciaram a criação de um novo grupo de cooperação de países na América do Sul, o Prosur, e assinaram um tratado.

Embora ainda não haja muitos detalhes sobre o novo grupo, especialistas dizem que o contexto da criação dele indica que pode significar uma mudança na organização do eixo de poder na região. Isso porque o protagonismo tem ficado nas mãos do presidente chileno. O temos assinado em Santiago prevê, inclusive, que o Chile será, por um ano, presidente do grupo, durante a fase de implementação. O próximo país a presidir será o Paraguai.

Piñera disse que o Prosul será um grupo "sem ideologia" e disse que respeitará as diversidades de cada país. Segundo ele, a intenção é ser um grupo menos burocrático e mais pragmático.

A ideia é que a nova organização regional deixe para trás a Unasul, que ficou associada à era dos governos de esquerda na América Latina. Essa é uma forma de isolar ainda mais a Venezuela.

Além de Piñera e Bolsonaro, o documento foi assinado por Mauricio Macri (Argentina), Iván Duque (Colômbia), Mario Abdo Benítez (Paraguai), Martín Vizcarra (Peru), Lenín Moreno (Equador) e o embaixador da Guiana, George Talbot.

Bolívia, Uruguai e Suriname enviaram representantes na condição de observadores e não assinaram o tratado. Segundo o governo chileno, eles podem assinar o termo em outro momento.

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