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Bienal de Veneza acumula polêmicas ligadas a Rússia e Israel

23 abr 2026 - 04h51
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Evento atrai críticas após voltar a permitir pavilhão patrocinado por Moscou. Artistas são retirados por obras consideradas "divisivas" ou antissemitas.A Bienal de Arte de Veneza, realizada a cada dois anos, historicamente sustenta a ideia de que a arte transcende a política.

Retorno do pavilhão russo causa polêmica na Bienal de Arte de Veneza em 2026
Retorno do pavilhão russo causa polêmica na Bienal de Arte de Veneza em 2026
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas o evento também é conhecido como as "Olimpíadas do mundo da arte". Pavilhões nacionais funcionam como plataformas oficiais, patrocinadas pelos Estados, para a apresentação de arte contemporânea. Isto é, a política global acaba inevitavelmente entrando em cena.

A edição deste ano, realizada de 9 de maio a 22 de novembro, é marcada por controvérsias políticas. Haverá cem participações nacionais, com sete países estreando: Guiné, Guiné Equatorial, Nauru, Catar, Serra Leoa, Somália e Vietnã.

Já a Rússia volta a Veneza. Artistas e curadores do país haviam se retirado voluntariamente na esteira da invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. O retornou gerou atritos entre instituições italianas e a União Europeia (UE), e até mesmo dentro do governo da ultradireita da Itália há divergências.

Num aviso formal enviado ao presidente da Bienal, a Comissão Europeia pediu que a instituição cultural italiana reconsiderasse a decisão de permitir a participação russa, ameaçando suspender 2 milhões de euros (aproximadamente R$ 12 milhões) em financiamento.

Críticos enxergam propaganda russa

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, expressou contrariedade à presença russa. Já o vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, classificou as ameaças da UE de cortar recursos como uma "chantagem vulgar" contra "uma das instituições culturais mais importantes e livres do mundo".

O prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, disse em março que o pavilhão russo seria fechado caso se envolvesse em propaganda, mas acrescentou que a Bienal deve permanecer um espaço de diálogo.

Já Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Fundação Bienal, insiste em manter o evento aberto a todos. "Não fecho para ninguém", disse ao jornal italiano La Repubblica. "Haverá Rússia, Irã, Israel. Haverá Ucrânia e Belarus. Todos."

A comissária do pavilhão russo, Anastasia Karneeva, é filha de Nikolai Volobuev, ex-general do Serviço Federal de Segurança (FSB) e atual vice-diretor executivo da empresa estatal de defesa Rostec.

Nadezhda Tolokonnikova, integrante do Pussy Riot, grupo musical de punk rock feminista russo, condenou a participação do país, que chamou de "uma tentativa de polir a imagem da Rússia e fazer o mundo esquecer as vítimas do terror russo".

Para ela, o governo italiano deveria remover os representantes da Rússia do pavilhão "e, em vez disso, apresentar obras de prisioneiros políticos russos que hoje apodrecem em colônias penais por terem se manifestado contra a guerra criminosa da Rússia na Ucrânia".

Obra "divisiva" da África do Sul

Por sua vez, a artista contemporânea Gabrielle Goliath havia sido escolhida para representar a África do Sul na Bienal. Sua performance incluiria uma homenagem à poeta palestina Hiba Abu Nada, morta durante um ataque aéreo israelense em outubro de 2023.

No entanto, o ministro da Cultura da África do Sul, Gayton McKenzie, solicitou diversas alterações na obra, que classificou como "altamente divisiva".

Ao se recusar a fazer as mudanças, Goliath foi impedida de ocupar o pavilhão, que permanecerá vazio, já que o governo sul-africano não indicou substituto após o cancelamento abrupto em janeiro.

Uma versão em vídeo da obra de Goliath será exibida em outro espaço de Veneza, fora da Bienal. A artista entrou com um processo judicial contra o ministro da Cultura.

Austrália volta atrás

De forma semelhante, a Austrália enfrentou críticas da comunidade artística após retirar a dupla escolhida para o seu pavilhão por preocupações políticas.

Políticos de direita acusaram o artista Khaled Sabsabi, que havia sido indicado com o curador Michael Dagostino, de antissemitismo. Ele é nascido no Líbano e radicado na Austrália desde os 12 anos. A obra de Sabsabi frequentemente aborda sua experiência traumática com a guerra civil, além de temas como identidade árabe imigrante e islamofobia.

Após pedidos de boicote, renúncias e uma revisão independente conduzida por um órgão externo, a decisão controversa foi revertida.

Apelos para excluir Israel

Quase 200 artistas, curadores e trabalhadores participantes da Bienal de Veneza de 2026 assinaram uma carta pedindo a exclusão de Israel. Uma segunda carta, assinada por mais de 70 artistas e curadores da exposição principal, amplia a reivindicação para incluir todos os "regimes atuais que cometem crimes de guerra", incluindo Rússia e Estados Unidos.

Outro ponto de crítica é o fato de a Bienal estar oferecendo a Israel um espaço no Arsenale, o complexo industrial central onde também ocorre a exposição principal, de Koyo Kouoh. O pavilhão de Israel, nos Giardini, está fechado para reformas.

Na Bienal anterior, em 2024, a artista israelense Ruth Patir fechou sua exposição no pavilhão israelense ao público no dia da abertura, afirmando que só reabriria após o estabelecimento de um cessar-fogo em Gaza.

Nunca houve um pavilhão palestino na Bienal, porque apenas países oficialmente reconhecidos pela Itália podem participar. Uma exposição paralela, intitulada Gaza - No Words, será realizada na cidade italiana durante a Bienal.

Exposição principal sobre vozes marginalizadas

A principal exposição internacional da Bienal, intitulada In Minor Keys, terá curadoria da diretora artística camaronense Koyo Kouoh. Ela morreu de câncer em maio de 2025, aos 57 anos.

Primeira mulher africana escolhida para curar a prestigiada mostra, Kouoh já havia desenvolvido o projeto curatorial antes da sua morte repentina. A Bienal decidiu realizar a exposição, que reúne 111 participantes convidados, de forma póstuma.

In Minor Keys dá destaque a vozes marginalizadas ou frequentemente ignoradas. Em seu conceito, Kouoh definiu uma forma restauradora de resistência, que propõe uma escuta atenta em meio ao caos.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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