Berlim honra jovem judia "esquecida" que combateu o nazismo
A cidade de Berlim rebatizou a praça Blücherplatz como Eva-Mamlok-Platz para homenagear Eva Mamlok, jovem judia e socialista que combateu o nazismo desde a adolescência. Atuando na resistência clandestina, ela espalhou mensagens anti-Hitler, distribuiu livros proibidos e liderou um grupo oposicionista composto por mulheres. Perseguida e presa diversas vezes, Mamlok manteve suas ações de resistência até ser deportada e morrer no campo de concentração de Stutthof, em 1944.
Militante socialista, jovem alemã resistiu até a morte num campo de concentração. Agora, uma praça em Berlim levará o seu nome.Na história da resistência alemã ao nazismo, alguns nomes se tornaram símbolos, como Sophie Scholl, Claus von Stauffenberg, Dietrich Bonhoeffer e Georg Elser. Muitos outros, porém, permaneceram pouco conhecidos.
Entre eles está Eva Mamlok, uma jovem judia de Berlim cujos atos de resistência começaram ainda na adolescência e continuaram até sua morte num campo de concentração nazista.
Agora, sua história ganhará maior visibilidade: em 16 de outubro, a cidade de Berlim rebatizou a Blücherplatz, uma praça no distrito de Kreuzberg, como Eva-Mamlok-Platz.
"Eva Mamlok foi uma pessoa extraordinária. Como jovem judia berlinense, seu espírito de resistência foi particularmente impressionante", afirma a pesquisadora cultural Alexandra Weltz-Rombach, que trabalhou extensivamente com a rede de historiadores Gruppe Eva Mamlok.
"Abaixo Hitler"
Eva Mamlok nasceu em 6 de maio de 1918 em uma família judia de Berlim. Seus familiares administravam uma empresa atacadista de vinhos e faziam parte da vibrante classe média judaica que desempenhava papel importante na vida social e econômica da capital alemã durante a República de Weimar.
Mas ela atingiu a maioridade justamente quando a Alemanha mergulhava na ditadura. Quando Adolf Hitler se tornou chanceler, em 1933, Mamlok tinha apenas 14 anos.
Ela também integrava a Juventude Operária Socialista (SAJ). Após a proibição da organização juvenil de esquerda naquele mesmo ano, passou a atuar na resistência clandestina.
Segundo o testemunho de Inge Berner, única sobrevivente do grupo de resistência do qual Mamlok faria parte posteriormente, a jovem subiu no telhado de uma loja de departamentos na então Blücherplatz e pintou a frase "Abaixo Hitler". Berner morreu em 2012.
"Ela foi flagrada fazendo isso, mas não foi presa naquele momento. Isso só aconteceu um ano depois", relata Weltz-Rombach.
Homenagens a Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht
Mamlok apareceu pela primeira vez nos registros oficiais em novembro de 1934, quando foi presa por participar de homenagens aos líderes socialistas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht no Cemitério Friedrichsfelde, em Berlim.
As autoridades concluíram que a jovem de 16 anos mantinha "posições hostis ao Estado" e a colocaram sob "custódia protetiva por tempo indeterminado", um eufemismo usado pelo regime nazista para justificar prisões sem julgamento. Ela foi enviada ao campo de concentração feminino de Moringen, na Baixa Saxônia, onde permaneceu até maio de 1935.
Após ser libertada, continuou suas atividades antinazistas apesar dos riscos crescentes, enfrentando perseguição tanto por sua atuação política quanto por sua origem judaica.
Nesses círculos clandestinos, conheceu Pieter Siemsen, com quem manteve um relacionamento até a emigração dele para a Argentina, em 1937. A única fotografia conhecida de Eva foi preservada em seu arquivo pessoal. Ele morreu em 2004.
Em 1939, Mamlok teve uma filha, Tana. A identidade do pai é desconhecida. A criança foi colocada em um orfanato judaico em Berlim e deportada em 1942 para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, onde foi assassinada.
Resistência por mulheres
Por ser judia, Mamlok foi obrigada a realizar trabalho forçado em 1940 na empresa berlinense F. Butzke Schrauben-Industrie. Lá conheceu outras mulheres que compartilhavam sua oposição ao nazismo.
Juntas, elas formaram o que mais tarde ficaria conhecido como "Grupo Eva Mamlok", uma rede informal de resistência composta por mulheres judias e não judias. O grupo distribuía panfletos antinazistas e escrevia slogans críticos a Hitler.
As integrantes também compartilhavam livros proibidos pelo regime. "Eram obras que hoje fazem parte do cânone educacional alemão", afirma Weltz-Rombach, citando autores como Thomas Mann e Lion Feuchtwanger.
Segundo a pesquisadora, o fato de a Biblioteca Central e Regional de Berlim, a maior biblioteca pública da Alemanha, estar localizada na atual Eva-Mamlok-Platz simboliza a importância desse ato de resistência e do papel dos livros.
Mamlok e outras integrantes do grupo acabaram presas por distribuir a literatura proibida. Em 13 de janeiro de 1942, ela foi deportada de Berlim para o gueto de Riga, na atual Letônia.
De acordo com o testemunho de Inge Berner, Mamlok permaneceu ativa na resistência mesmo ali. Entre outras ações, teria conseguido que um contato em Berlim lhe enviasse um bolo contendo uma câmera fotográfica em miniatura escondida, com o objetivo de documentar a perseguição no gueto.
Em outubro de 1944, ela foi transferida para o campo de concentração de Stutthof. Morreu em dezembro daquele ano.
Substituindo antigos símbolos militares
A antiga Blücherplatz havia sido batizada em homenagem ao marechal prussiano Gebhard Leberecht von Blücher, conhecido por liderar tropas contra Napoleão nas batalhas de Leipzig, em 1813, e de Waterloo, em 1815.
Diversos espaços públicos na Alemanha ainda levam seu nome.
"Não faltam locais de memória dedicados a Blücher", diz Weltz-Rombach. "Talvez também seja hora de superar essa antiga rivalidade franco-alemã, que de certa forma está presente nesse nome ligado à tradição prussiana, e substituí-la por outra forma de lembrança."
A praça também abriga o Carnaval das Culturas, festival multicultural realizado anualmente para celebrar a diversidade de Berlim.
Exemplo para novas gerações
Weltz-Rombach conheceu a história de Mamlok em 2011, quando uma Stolperstein, pedra memorial que homenageia vítimas do nazismo, foi instalada em sua memória. Desde então, passou a pesquisar sua trajetória.
A cineasta, produtora e curadora berlinense também ajudou a divulgar sua história por meio de diversos projetos, incluindo uma exposição em 2024 e uma série de podcasts produzida com jovens da cidade.
Como Mamlok era adolescente quando começou sua atuação política, os participantes dessas iniciativas conseguem se identificar facilmente com sua trajetória.
Durante oficinas educativas, jovens visitam os locais onde ela viveu e atuou, refletindo sobre o que significava ser preso e encarcerado por meses sem julgamento por atos que normalmente não seriam considerados crimes, como expressar opiniões em público ou depositar flores em uma cerimônia de homenagem.
"Acima de tudo, ela é um exemplo de como gostaríamos de agir e da coragem que gostaríamos de ter", afirma Weltz-Rombach.
A pesquisadora destaca ainda que a resistência feminina ao nazismo frequentemente assumia formas cotidianas, e não necessariamente ações armadas ou atentados.
"A resistência das mulheres costumava ser mais ligada ao cotidiano do que ao plantio de bombas", afirma. Segundo ela, essas histórias ilustram formas de resistência que só recentemente passaram a receber mais atenção.
Embora muitas testemunhas da época já tenham morrido, Weltz-Rombach acredita que ainda existem inúmeras trajetórias semelhantes à espera de investigação. "Certamente há muitos nomes que ainda não conhecemos e que aguardam ser pesquisados."
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