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Barato e mortal: Shahed-136, o drone iraniano que vem revolucionado a guerra

31 mar 2026 - 16h20
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Shahed-136 moldou guerra na Ucrânia e agora virou trunfo de Teerã contra EUA e Israel. Apelidado de "AK‑47 dos céus", ele troca precisão por volume, sendo capaz de saturar, a baixo custo, sistemas bilionários de defesa.Poucas horas após os primeiros mísseis americanos e israelenses atingirem Teerã, em 28 de fevereiro, a Guarda Revolucionária do Irã lançou suas primeiras baterias retaliatórias, empregando um dispositivo desenvolvido há anos pelo país e que, em poucos dias, conseguiu penetrar sistemas de defesa aérea de Israel e de estados do Golfo.

De baixo custo e fácil produção, drones Shahed têm ampliado a resistência do Irã no conflito
De baixo custo e fácil produção, drones Shahed têm ampliado a resistência do Irã no conflito
Foto: DW / Deutsche Welle

Baratos e de fácil produção, os drones iranianos Shahed‑136 se consolidaram como um dos principais trunfos do país no conflito, atingindo rapidamente alvos como data centers, infraestrutura energética, aeroportos e até bases navais.

Em duas semanas de trocas de ataques, mais de mil aeronaves desse tipo já haviam sido lançadas pelo Irã. A estratégia aposta no volume, não na precisão: grandes enxames são disparados simultaneamente para saturar as defesas aéreas. Com apenas 3,5 metros de comprimento, eles podem ser lançados a partir de estruturas simples, montadas em poucas horas. A estratégia é a mesma empregada pela Rússia em sua invasão à Ucrânia, que usa os mesmos drones Shahed-136 contra instalações civis do país vizinho.

O preço justifica a quantidade. Um drone Shahed custa entre 20 e 50 mil dólares (R$ 100 a R$261 mil), segundo o Centro para Estudos Internacionais Estratégicos, enquanto o disparo de um único míssil de defesa aérea usado pelos EUA e aliados para derrubar esses drones pode custar entre 1,3 e 4 milhões de dólares. (R$ 6,7 a R$20,9 milhões).

Cálculos da agência Reuters mostram que o custo de apenas um míssil de defesa Patriot seria suficiente para financiar ao menos 115 drones de ataque iranianos.

Além disso, diferentemente dos mísseis balísticos maiores, o Shahed‑136 voa lento e em trajetórias irregulares, sendo mais difícil de detectar. Cada interceptação costuma exigir dois ou três mísseis e, quando escapam, o impacto pode ser significativo. A carga explosiva e a simplicidade do sistema levaram veículos de imprensa internacional a descrevê‑lo como uma "AK‑47 dos céus", em referência ao fuzil soviético conhecido pelo alto poder de fogo comparado à baixa complexidade de produção.

Especialistas estimam que isso faz com que os EUA gastem ao menos 1 bilhão de dólares (R$ 5,3 bilhões) por dia para manter a guerra, enquanto Teerã, mesmo com sua liderança abalada e parte de sua estrutura militar destruída, tem conseguido sustentar sua posição no conflito.

Produção simples; alcance ampliado

O uso dos drones também pressiona os países do Golfo. O Shahed tem alcance estimado de até dois mil quilômetros, diz o fabricante. Mas mesmo um limite real menor, de mil quilômetros, seria suficiente para atingir qualquer ponto da costa sul. Eles obrigam esses estados a recorrer a sistemas como NASAMS, Coyote e Avenger, cujos disparos únicos também custam centenas de milhares de dólares.

O Shahed-136 é construído de forma bastante simples, com uso inclusive de peças produzidas por impressoras 3D. Muitos são fabricados em instalações de uso duplo, que podem ser rapidamente adaptadas para ampliar a capacidade industrial. Centros de análise estimam que Teerã mantém uma produção diária de até 400 unidades.

Ao contrário dos drones kamikaze Switchblade de fabricação americana, um alvo deve ser inserido no Shahed-136 com antecedência. O drone voa em direção ao alvo por conta própria e ele não pode ser alterado retroativamente. A partir daí, opera de forma totalmente autônoma.

A simplicidade do sistema também dificulta a interferência eletrônica, e as capacidades dos países da região para bloquear seus sinais ainda são consideradas baixas.

Uso na Ucrânia redefine a guerra

Se os drones não "vencem" a guerra para o Irã, eles vêm ganhando tempo para o regime dos aiatolás e redefinindo o conflito. Seu uso sustenta uma "guerra de atrito", apontam especialistas, voltada a esgotar os recursos do inimigo. Na prática, contrariou a expectativa americana de acabar com o conflito de forma rápida, arrastou os países do Golfo para a disputa, e é usado inclusive como ameaça para manter bloqueado o Estreito de Ormuz. Esse desequilíbrio tornou‑se um problema estratégico: atacar ficou barato, enquanto defender tornou‑se extremamente caro.

O modus operandi repete o observado na guerra da Ucrânia, onde a tecnologia alterou o destino do conflito. Os Shahed são amplamente usados por Moscou, aliada do Irã, sob o nome Geran‑2, para atingir áreas residenciais e infraestrutura civil.

Mas superada em blindados e aeronaves convencionais, Kiev também recorreu a sistemas não tripulados baratos para reconhecimento e ataque. Estima‑se que drones respondam por cerca de 70% das baixas russas, permitindo ofensivas remotas e reduzindo o risco para pilotos e tripulações, aponta a Reuters.

A demanda por tecnologia no front ainda levou a Ucrânia a trocar seus caros mísseis de defesa aérea por interceptadores mais baratos. Kiev afirma que seu sistema antidrone, que também inclui drones defensivos, permitiu alcançar uma taxa de interceptação superior a 80%.

A experiência ucraniana levou a um acordo acelerado de defesa entre Kiev, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, firmado na semana passada. Os termos não foram divulgados, mas o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou que incluem compartilhamento de informações para derrubar drones. Uma equipe foi enviada ao Golfo apenas com este objetivo.

EUA passa a fabricar drones similares

No início do conflito europeu, o principal responsável pelo programa de armamentos do Pentágono, Bill LaPlante, alertou o subcomitê de apropriações do Senado que a guerra poderia se tornar insustentável se os EUA continuassem "derrubando um drone de 50 mil dólares com um míssil de 3 milhões".

Agora, os EUA buscam equiparar sua estratégia à iraniana. Um dos programas envolvidos é o Low‑cost Uncrewed Combat Attack System (Lucas), um drone de ataque unidirecional fabricado nos EUA e "modelado a partir dos Shahed iranianos", diz o Pentágono.

O dispositivo, usado pela primeira vez no conflito iraniano, é também um drone de ataque barato, de longo alcance e visualmente muito semelhante ao Shahed‑136 que o inspirou. O comandante do Comando Central dos EUA (CENTCOM), almirante Brad Cooper, descreveu o sistema como "indispensável" no conflito com o Irã.

"Capturamos o drone iraniano, desmontamos, enviamos para os EUA, colocamos um 'Made in America' e agora estamos atirando contra os iranianos", disse Cooper.

gq (Reuters, AFP, OTS)

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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