Baleias de luto: por que uma mãe jubarte permaneceu ao lado de seu filhote natimorto
Nosso estudo mais recente analisa mais detalhadamente a vida emocional das baleias-jubarte
Pela primeira vez, cientistas registraram uma baleia-jubarte cuidando de seu filhote natimorto na Austrália. A mãe permaneceu no fundo do mar tocando o corpo repetidamente, comportamento já visto em baleias com dentes, como orcas, mas inédito em baleias de barbas. Embora a ciência evite cravar a existência de luto no sentido humano, a atitude comprova a força do apego materno e sugere uma complexidade emocional ainda pouco compreendida sobre como cetáceos altamente sociais reagem à morte.
Foi uma cena trágica.
Em julho passado, um filhote recém-nascido de baleia-jubarte jazia imóvel no fundo do mar, a apenas um quilômetro da Gold Coast, na Austrália. O momento foi registrado por meio de um vídeo subaquático.
Por mais de uma hora, a mãe voltou repetidamente ao mesmo local, tocando suavemente a cria com a cabeça e a barbatana peitoral e descansando ao lado dela, olho no olho. Nossa nova pesquisa sugere que este seja o primeiro caso descrito de uma mãe jubarte cuidando de um filhote natimorto.
Esse encontro oferece uma rara visão sobre um dos aspectos menos compreendidos do comportamento das baleias: como esses animais altamente sociais reagem à morte.
E isso levanta a questão: será que as baleias, e outros animais altamente sociais, como os elefantes, sofrem com o luto?
Criaturas solidárias
As baleias-jubarte são famosas por suas migrações espetaculares e saltos acrobáticos. Mas elas são igualmente notáveis pela maneira como reagem a outros animais em perigo.
As baleias-jubarte costumam defender seus filhotes das orcas. Pesquisadores também observaram que elas permanecem ao lado de baleias que estão feridas ou emaranhadas em redes, nadando em círculos ao redor delas, descansando nas proximidades e tentando ajudar. As baleias-jubarte podem até mesmo intervir quando orcas atacam focas, leões-marinhos e filhotes de baleia-cinzenta.
Essas respostas de cuidado e atenção são conhecidas como comportamento epimelético e são comuns entre os cetáceos, um grupo de mamíferos marinhos que inclui baleias, golfinhos e botos. Golfinhos e orcas costumam permanecer próximos a companheiros em perigo, o que demonstra seus fortes laços sociais. Esses animais podem até arriscar suas próprias vidas pelos outros. Isso aconteceu em abril, na costa noroeste da Escócia, quando várias baleias-piloto ficaram encalhadas após seguirem uma fêmea que estava dando à luz.
Quando uma baleia perde um filhote
Mães orcas já foram observadas repetidamente carregando seus filhotes mortos por horas, dias e, em casos excepcionais, semanas. O exemplo mais famoso é a orca Tahlequah, que, em 2018, carregou seu filhote morto por 17 dias, percorrendo mais de 1.500 quilômetros. Cientistas observaram comportamento semelhante em baleias-piloto e golfinhos.
Essas reações prolongadas de luto ilustram a força do vínculo entre mãe e filhote. Os instintos maternos e as alterações hormonais após o nascimento podem contribuir para que as mães permaneçam ao lado de seus filhotes falecidos. Mas o que exatamente os animais compreendem sobre a morte permanece desconhecido.
Até agora, os cientistas documentaram esses comportamentos epileméticos quase exclusivamente em relação a filhotes mortos em baleias dentadas. As pesquisas sobre baleias de barbas, incluindo as jubarte, são escassas. Isso provavelmente se deve ao fato de que recém-nascidos mortos de baleias de barbas costumam afundar rapidamente, tornando extremamente difícil observar tais casos.
As mães jubarte dão à luz após quase um ano de gestação e passam os meses seguintes alimentando seu filhote com leite rico em nutrientes. Logo após o parto, as mães costumam levantar a cria até a superfície para ajudá-la a dar sua primeira respiração. Durante os primeiros meses de vida, a cria depende inteiramente da mãe para se alimentar, se proteger e ser guiada durante a migração.
Infelizmente, algumas crias não sobrevivem. Isso pode ser devido a doenças, poluentes ou à falta de reservas de gordura da mãe, que ajudam as baleias fêmeas a lidar melhor com a gravidez e a cuidar melhor de seus filhotes.
Uma novidade para as baleias-jubarte
Nosso novo estudo teve como objetivo ajudar a preencher essa lacuna na pesquisa.
Observamos duas baleias adultas no litoral da Gold Coast, no nordeste da Austrália. As duas permaneceram na mesma área por várias horas, após o que parecia ter sido um caso de filhote natimorto. A baleia-jubarte fêmea liberou uma membrana amniótica logo após o parto, mas não foi observada placenta.
Imagens subaquáticas revelaram a cria repousando imóvel no fundo do mar, enquanto a suposta mãe se aproximava repetidamente dela. Ela permaneceu próxima ao filhote, continuando a tocá-lo com a cabeça e a barbatana peitoral. Uma segunda baleia adulta, provavelmente uma acompanhante, também permaneceu nas proximidades.
A mãe jubarte não tentou levar a cria até a superfície do oceano. Isso pode indicar que ela reconheceu que o filhote havia morrido ou que era incapaz de carregá-lo do fundo do mar.
Integrantes do público relataram que duas baleias-jubarte adultas permaneceram na área nos dois dias seguintes. Nossa equipe de pesquisa, no entabto, não conseguiu confirmar se eram os mesmos animais.
Uma mãe baleia-jubarte cuidando de seu filhote falecido.
As baleias sofrem luto?
Pelo que sabemos, este é o primeiro estudo científico detalhado sobre uma mãe baleia-jubarte cuidando de seu filhote recém-nascido falecido. Ele oferece uma visão crucial sobre como as baleias de barbas lidam com a morte.
Muitos dos comportamentos que observamos - incluindo permanecer perto do filhote e suspender comportamentos normais, como viajar ou socializar com outras baleias - se assemelham à forma como outras espécies reagem à morte. Elefantes, grandes primatas e algumas espécies de baleias dentadas cuidam de filhotes mortos de maneiras semelhantes.
Mas não podemos medir diretamente o estado emocional das baleias. Os comportamentos que observamos podem representar luto, mas também podem refletir apego materno, confusão ou cuidado instintivo. Por esse motivo, os pesquisadores utilizam termos mais amplos - como comportamento atencioso pós-morte - em vez de concluir que as baleias vivem o luto no sentido humano.
Esses comportamentos, porém, revelam que as baleias-jubarte mantêm fortes laços maternos mesmo após a morte de um filhote. Nosso estudo sugere que casos semelhantes podem ter passado despercebidos porque os cientistas raramente observam partos de baleias no mar.
A boa notícia é que os pesquisadores estão cada vez mais capazes de observar esses animais à medida que as populações de baleias se recuperam e os equipamentos científicos tornam os estudos no mar mais viáveis .
Portanto, embora ainda haja muito a aprender sobre as baleias, suas vidas emocionais podem ser infinitamente mais complexas do que imaginávamos.
Olaf Meynecke recebe financiamento de uma fundação beneficente privada por meio do Programa de Pesquisa sobre Baleias e Clima. Ele é afiliado à ONG Humpbacks & Highrises.
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