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Assédio e sexismo afastam mulheres do Exército alemão

22 jul 2026 - 17h26
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As Forças Armadas alemãs buscam urgentemente novos recrutas. A instituição quer atrair mais mulheres, mas elas demonstram pouco interesse - muitas vezes, por razões justificáveis.O plano de aumentar a presença feminina nas fileiras das Forças Armadas alemãs, a Bundeswehr, caminha a passos lentos. Nas ruas de Berlim, jovens mulheres entrevistadas pela DW ilustram as barreiras encontradas pelo Ministério da Defesa em atrair o gênero para a caserna. "Não se encaixa nos meus planos de estudo e trabalho", justificou uma delas. Outra afirmou ser "totalmente contrária à guerra".

Até 2001, mulheres eram barradas nas unidades de combate da Bundeswehr. Hoje, a participação feminina é de cerca de 10%
Até 2001, mulheres eram barradas nas unidades de combate da Bundeswehr. Hoje, a participação feminina é de cerca de 10%
Foto: DW / Deutsche Welle

"Ouvi de mulheres do meu círculo de conhecidos que trabalham na Bundeswehr que elas enfrentam sexismo com muita frequência", disse ainda uma das jovens. Por isso, ela afirma que não consegue se imaginar ingressando nas Forças Armadas.

Atualmente, 13,7% do contingente do exército na Alemanha é composto de mulheres - nas tropas de combate, essa parcela é ainda menor, de 10%. O percentual está bem abaixo da meta de 20% que a Bundeswehr estabeleceu para si. O número de candidatas em 2025 chegou a diminuir em relação ao ano anterior, indica o Comissário de Defesa do Bundestag, o Parlamento Federal, no seu relatório anual.

O tempo é curto até 2035, ano em que a Alemanha estipulou aumentar o efetivo militar em pelo menos 75 mil soldados, com o objetivo de fortalecer a defesa nacional e cumprir as metas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por causa disso, a Bundeswehr vem realizando um intenso trabalho de recrutamento de novos talentos.

Entre as mulheres, porém, o sucesso é moderado. "Se o número de mulheres que quisesse ingressar nas Forças Armadas fosse igual ao dos homens, nem estaríamos discutindo problemas de pessoal", afirma Sara Nanni, porta-voz dos Verdes para assuntos de defesa no Bundestag.

Denúncias de assédio afastam candidatas

De acordo com a parlamentar dos Verdes, um dos principais motivos que afastam as mulheres da carreira militar é a dificuldade de manter uma vida equilibrada. "Vemos que as mulheres estão, sim, ingressando nas Forças Armadas", destaca Nanni à DW. "Mas, ao contrário dos homens, elas saem mais cedo, também por causa dos planos familiares. Observamos isso em muitas empresas e em muitos setores. Mas, na Bundeswehr, é particularmente difícil conciliar família e serviço", complementa.

Embora a carreira no exército inclua benefícios como creches, teletrabalho e vagas em meio-período, a prontidão operacional das tropas tem prioridade. Mas, além disso, os casos de assédio sexual dentro da instituição têm afastado as candidatas. "Vejo muitos colegas homens que são simplesmente respeitosos e bons companheiros. Mas, é claro, ocorrem casos de assédio sexual e discriminação", afirma a deputada do Partido Verde, que integra a Comissão de Defesa do Bundestag. "E o ministério não levou isso a sério o bastante durante muitos anos."

Particularmente graves foram incidentes registrados no 26º Regimento de Paraquedistas, em Zweibrücken, no sudoeste da Alemanha. Por lá, mais de 50 soldados estão sendo investigados por abuso de drogas, extremismo de direita e agressões sexuais. Foram as denúncias feitas por mulheres que deram início a essas investigações, embora, a princípio, o processo tenha avançado lentamente.

O ministro da Defesa, Boris Pistorius (SPD), classificou os incidentes como "profundamente chocantes". Pelo menos 16 soldados já foram expulsos, além do comandante do regimento. O Ministério da Defesa pretende agora investigar o problema mais a fundo: até o final do ano, será elaborado um estudo sobre casos não registrados de conduta sexual imprópria nas Forças Armadas - ou seja, abrangendo também crimes não denunciados.

"Em comparação com o total de efetivo [da Bundeswehr], o número de acusados é muito baixo", afirmou uma porta-voz das Forças Armadas à DW. "No entanto, o fato permanece: cada caso já é inaceitável". Segundo a pasta, condutas de natureza sexual não têm lugar na instituição. "A política é de tolerância zero", acrescentou a porta-voz.

Serviço armado proibido até 2001

De modo geral, a Bundeswehr ainda é vista pela sociedade alemã como um ambiente predominantemente masculino. Somente a partir de 2001 as mulheres passaram a ser admitidas nas unidades de combate da instituição militar.

Antes disso, a Constituição Federal proibia que elas prestassem serviço armado. Mulheres só podiam ingressar em unidades como o serviço médico, que ainda hoje possui a maior proporção feminina. O acesso às tropas de combate só foi autorizado mais tarde, após uma batalha árdua nos tribunais. Atualmente, a proporção de mulheres na Bundeswehr representa a média dos países da Otan, de 13,9%.

Muitas jovens que prestam serviço militar voluntário consideram o tempo passado na instituição como uma experiência positiva na trajetória profissional. É o caso de Kerry Hoppe, oficial da reserva da Força Aérea. A jurista de Munique conta à DW que a vivência na Bundeswehr a tornou mais autoconfiante, por fazê-la perceber que era capaz de superar os mesmos desafios que os colegas do sexo masculino.

Durante o serviço, conta Hoppe, as exigências para homens e mulheres eram iguais - ambos tinham que carregar o mesmo equipamento e manusear as mesmas armas. "Tive muita sorte de não ter sofrido nenhum tipo de sexismo ou discriminação estrutural apenas por ser mulher", lembra ela.

A falta de exemplos femininos

No entanto, ainda faltam modelos a serem seguidos pelas mulheres nas Forças Armadas, opina Hoppe. "Quando não conhecemos nenhuma mulher que tenha servido nas Forças Armadas, de alguma forma fica mais difícil se imaginar nesse mesmo papel. Por isso, acredito que, se houvesse mais exemplos femininos inspiradores que tivessem seguido essa trajetória profissional, os números de recrutamento talvez fossem diferentes."

Embora hoje haja mais de 25 mil mulheres na Bundeswehr, a situação nos cargos de liderança é desanimadora: apenas três mulheres ocupam o posto de general - de um total de 220 generais e almirantes. A mais famosa delas e com maior patente na instituição é Nicole Schilling, que desde o ano passado é vice-inspetora-geral da Bundeswehr. A função é semelhante à de um vice-chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas no Brasil, sendo o inspetor-geral o militar de mais alta patente na Alemanha.

"Precisamos de mais mulheres", afirma Schilling, "pois equipes mistas melhoram o resultado geral".

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