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Apesar de raros, Brasil já teve terremotos com mortes e avarias

26 jun 2026 - 08h41
(atualizado às 09h37)
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Tremores em vizinhos sul-americanos são uma das causas para o fenômeno, quase nunca perceptível no país. Nesta semana, desastre na Venezuela chacoalhou a região Norte.Embora raramente notados, os terremotos no Brasil já provocaram susto, avarias e pelo menos duas mortes ao longo dos últimos séculos. Há 5.571 abalos sísmicos registrados no país de 1720 a 2023, segundo a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), que reúne quatro grandes instituições especializadas no país. Outros registros históricos dão conta de ainda mais tremores, que são em grande parte decorrentes das movimentações de placas tectônicas.

Aconteceu de novo nesta semana. Moradores de Amazonas, Roraima, Pará e Amapá sentiram o chão chacoalhar, em decorrência dos poderosos abalos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24/06), deixando um rastro de vidas perdidas e destruição.

Os abalos sísmicos nos vizinhos sul-americanos são uma das causas para os terremotos no Brasil, onde eles costumam chegar já enfraquecidos. "Quando as ondas de um terremoto nos Andes ou no Caribe se propagam para o Brasil, elas percorrem cidades. Nos centros urbanos, sobretudo onde há prédios altos, as pessoas podem acabar sentido mais," explica Marcos Ferreira, geofísico e pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB).

De todos os terremotos que acontecem nas profundezas da Terra, entretanto, são poucos os que chegam a ser perceptíveis em solo nacional. Mais incomum ainda é que eles resultem em dano significativo.

O SGB estima que ocorram a cada ano, em média, 20 sismos de magnitude maior que 3,0 (leve) na escala Richter e dois com magnitude maior que 4,0 (moderada). Já os terremotos de magnitude maior que 7,0 (forte) são esperados uma vez a cada 500 anos - no Chile, a média é de um a cada três anos.

Dom Pedro sentiu o chão tremer

Mas fato é que os terremotos entraram para a história nacional desde o Império. Amante das ciências, Dom Pedro 2º sentiu um terremoto na Petrópolis de 1886 e ordenou o primeiro estudo do fenômeno, conforme já relatou em livro o sismólogo José Alberto Vivas Veloso.

A magnitude deste abalo é hoje estimada pelo Catálogo Sísmico Brasileiro (SISBRA) em 4,3 graus na escala Richter, isto é, na faixa dos tremores que, em geral, são percebidos pela população e podem causar danos leves.

Em comparação, o mais poderoso terremoto já registrado globalmente aconteceu em 1960 no Chile, com magnitude de 9,5. Os terremotos desta semana na Venezuela, por sua vez, foram estimados em 7,2 e 7,5 graus.

Os registros da RSBR dão conta de outros 1.149 tremores antes daquele que há 140 anos acendeu a curiosidade do imperador. Como não havia sismógrafos à disposição, as descobertas dependem de pesquisadores que hoje escavam uma espécie de "arqueologia" sísmica nacional, em jornais antigos e outras fontes históricas.

O maior tremor conhecido na história do Brasil ocorreria em 1955, com o epicentro a 370 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso, diz o SGB. A magnitude foi de 6,2 graus, na categoria com potencial de causar danos maiores onde houver densa população. Em artigo para a Universidade de Brasília (UnB), Veloso conta que o episódio chegou a interromper uma festa da sociedade cuiabana, mas não foi registrado pela imprensa local.

Profundidade limita impactos

Quando os terremotos têm epicentros distantes das áreas habitadas, como na anedota mato-grossense, o seu impacto tende a ser menor. O mesmo efeito decorre dos abalos que, apesar da magnitude importante registrada nos sismógrafos, ocorrem a uma profunda distância da superfície terrestre.

A base da RSBR, por exemplo, cita três terremotos de magnitude elevada (7,0, 7,1 e 7,5) ocorridos na região de fronteira entre o Brasil e o Peru em 2015 (dois no mesmo dia) e 2018. Mas todos a cerca de 600 quilômetros de profundidade, o que impede uma catástrofe.

Em 2015, o balanço das típicas casas de madeira do Acre assustou moradores em várias cidades. Também na capital, Rio Branco, houve quem chegasse a abandonar prédios e fazer várias chamadas para o Corpo de Bombeiros, apontou a imprensa na época.

Já no extremo sul brasileiro, outro terremoto marcante se fizera sentir em Porto Alegre, a capital gaúcha, em 1994. O epicentro, entretanto, estava na Bolívia, a mais de 2 mil quilômetros de distância. Foi o suficiente para sacudirem lustres e objetos suspensos, vibrarem móveis nos andares mais altos de edifícios e girarem ventiladores desligados, de acordo com o SGB.

Nordeste é a região mais afetada

O Nordeste é a região com maior atividade sísmica do Brasil, por causa de falhas geográficas mais abundantes e ativas. Um dos casos mais intrigantes para a comunidade científica foi o de uma série de tremores em João Câmara, no Rio Grande do Norte, em 1986.

O abalo principal, em 30 de novembro daquele ano, chegaria aos 5,1 pontos de magnitude, danificando mais de 4 mil construções e desabrigando 26 mil pessoas. Depois disso, uma parte da população foi embora do município, a cerca de 80 quilômetros de Natal, a capital potiguar. A população atual é estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 33 mil habitantes.

Mais dois casos que marcaram a história regional aconteceram no Ceará. Em 1980, um deles (5,2 graus) foi sentido em praticamente todo o Nordeste, derrubando casas no município de Pacajus.

Outro em 1968 (4,6 graus) fez prédios racharem ou ruírem, colocando-os sob risco de desabamento, reportou então O Povo. O jornal, à época, relatou a morte de um homem não identificado, que teria tentado pular por uma janela para fugir do desabamento de uma construção.

Não foi a única morte já associada a este insólito fenômeno no Brasil. O SGB reconhece a menina Jesiane Oliveira da Silva, de 5 anos, como a primeira vítima de terremoto no Brasil.

Ela estava numa das seis casas que desabaram quando um terremoto (4,9 graus) atingiu a comunidade de Caraíbas, Minas Gerais, em 2007. Todas as 75 construções da comunidade sofreram avarias. A sua irmã gêmea, que estava ao seu lado, sofreu ferimentos graves.

Exploração de petróleo induz terremotos

A sua posição central na placa tectônica Sul-Americana protege o Brasil de terremotos perigosos, como os que assombram outros países, vulneráveis a tremores altamente destrutivos e imprevisíveis. No continente ou na água, os abalos sísmicos decorrem quase sempre do choque nas bordas das placas, das quais o território brasileiro está longe.

Mas os tremores podem também ser induzidos pela atividade humana, em decorrência, entre outros fatores, da construção de barragens, mineração a céu aberto de grandes proporções ou extração de fluidos, como petróleo, do subsolo. Foi o que aconteceu na Hidroelétrica de Capivari-Cachoeira, perto de Curitiba, no Paraná, com atividade sísmica registrada entre 1971 e 1979.

A Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) deram apoio inicial à instalação de tecnologias de ponta, a partir de 2008, para monitorar sismos no Brasil. Já em abril, a estatal anunciou que colocaria 450 milhões de dólares no "mais extenso projeto de monitoramento sísmico mundial".

A promessa é fazer um "ultrassom do subsolo marinho" na Bacia de Santos, revelando estruturas geológicas e movimentações de fluidos como óleo, gás e água. Por causa do baixo risco associado aos próprios terremotos, o Brasil tem uma cobertura limitada destas tecnologias no seu território.

Outros países, como o Japão, têm sistemas de monitoramento e alerta sofisticados, necessários para prevenir desastres frequentes e de grandes proporções.

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