América Latina gasta menos em armas do que o resto do mundo
Em meio à alta global nos gastos militares, a América Latina tem aumento mais moderado e voltado à modernização de equipamentos, para fazer frente a desafios internos.O relatório mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) mostra um aumento expressivo dos gastos militares em praticamente todo o planeta. A América Latina não está de fora desse fenômeno, ainda que, na maioria dos casos, os incrementos estejam ligados à modernização de equipamentos bélicos, e não à ampliação das capacidades militares.
"Vimos que várias Forças Armadas estão encarando uma modernização muito necessária de certos atributos essenciais, como a aviação de caças na Argentina e no Peru, que vinha enfrentando problemas", afirmou à DW o analista internacional Andrei Serbin, presidente da Coordenadoria Regional de Pesquisas Econômicas e Sociais (Cries).
O especialista se refere às notícias divulgadas recentemente sobre a compra de caças F‑16 por esses países, além da aquisição de 17 caças Gripen confirmada pela Força Aeroespacial Colombiana.
"As compras atendem a necessidades pendentes há muitos anos. A Argentina, por exemplo, havia ficado praticamente sem aviões interceptadores. O Peru, por sua vez, opera MiG‑29 da época da Guerra Fria, e o Chile precisa modernizar com equipamentos eletrônicos sua frota de F‑16", explica Evan Ellis, especialista em América Latina do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos Estados Unidos.
Reequipar e atualizar
Em geral, segundo o relatório do Sipri, os países da região investem entre 1% e 2% do PIB em defesa, e na maioria dos casos esse gasto responde mais a necessidades internas do que a potenciais conflitos militares com outros Estados. E enquanto em outras partes do mundo o gasto militar cresce há mais de uma década em ritmo acelerado, na América Latina esse aumento é bem mais moderado.
"Os gastos militares na região estão entre os mais baixos do mundo, o que reflete o fato de que não houve guerras desde o conflito do Cenepa entre Peru e Equador, em 1995", afirma Ellis. No entanto, acrescenta o especialista, "muitos países têm níveis elevados de violência interna, com altas taxas de homicídios e de crime organizado. Isso obrigou as Forças Armadas a assumir o papel de apoiar as polícias". Nesse contexto, ele cita os casos de México, Jamaica, Trinidad e Tobago, Colômbia e Equador.
Outras prioridades
"Há uma necessidade, por parte das Forças Armadas da região, de investir, e quando isso não ocorre não é por falta de interesse, mas por priorização de outros aspectos do orçamento estatal, dadas as condições socioeconômicas da região", afirma Serbin. "Um exemplo é a Argentina, que hoje investe muito pouco em defesa, embora esteja tentando viabilizar créditos extraordinários para a aquisição de material bélico."
Para Serbin, a região percebe que "vivemos em um mundo extremamente convulsionado, em que a maioria dos países aposta fortemente na modernização e no reequipamento de suas Forças Armadas". Para lidar com essa incerteza, diz ele, o poder militar é um fator determinante.
Além disso, muitos países da América Latina dispõem de recursos "de enorme valor estratégico em um contexto de convulsão mundial". Serbin menciona os casos "da Argentina, grande produtora de alimentos, com minerais críticos e energia; do Chile, com seus minerais estratégicos; do Brasil, com energia e mais minerais, assim como Peru, Colômbia e Venezuela. Neste último caso, soma‑se o potencial petrolífero. Por isso, é importante que os países da região assumam a responsabilidade de contar com os meios necessários para defender esses interesses nacionais."
Mercado competitivo
Os dois especialistas concordam que, apesar das manchetes sobre aquisições de armamentos, não é possível falar em uma corrida armamentista na região. É o que também sugere o relatório do Sipri, que destaca mais os problemas de segurança interna do que tensões entre países - problemas que, em geral, não exigem grandes desembolsos para a compra de equipamentos militares.
Ainda assim, a região é um mercado atraente para países produtores de armas, como mostram as aquisições pontuais, mas bilionárias, de caças de combate.
"As compras feitas por Chile, Peru e Argentina mostram que, por enquanto, os parceiros da região continuam adquirindo equipamentos militares dos Estados Unidos", afirma Ellis. Trata‑se, porém, de um mercado "cada vez mais competitivo, com ofertas da Rússia, Israel, Coreia do Sul, China, Índia, entre outros".
Ellis menciona especificamente as tentativas chinesas de vender o caça J‑10 à Colômbia e ao Brasil, além do fato de a Argentina ter avaliado a compra de caças do Paquistão para sua Força Aérea. Ele também recorda vendas de jatos de treinamento K‑8 da China à Venezuela e à Bolívia, radares ao Equador, aeronaves de transporte à Guiana e à Colômbia, lançadores de foguetes ao Peru e veículos blindados à Venezuela e à Bolívia - ainda que em escala limitada.
Em muitos casos, se trata de material antigo. Segundo o analista, "aproximadamente um quarto dos helicópteros da região é de origem russa, embora a disponibilidade de equipamentos desse país tenha sofrido um declínio significativo por causa da guerra contra a Ucrânia e das sanções".
"A Rússia se tornou um fornecedor pouco confiável não apenas pela falta de material disponível para exportação, mas também pela ausência de suporte", complementa Serbin, que ressalta ainda que os Estados Unidos atuam de forma muito proativa para tentar bloquear as vendas chinesas na região.
"No cenário atual, vemos que essa tendência de compra no Ocidente deve continuar no futuro próximo, não apenas porque a administração de Donald Trump busca exercer maior presença, mas também porque tanto a China quanto os Estados Unidos tentarão resguardar cuidadosamente suas esferas de influência", acrescenta o especialista argentino.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.