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Adoçantes podem afetar o intestino até de gerações futuras, sugere estudo

Pesquisa analisou dois tipos populares e levantou novas questões sobre os impactos do consumo a longo prazo

11 set 2026 - 14h39
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Resumo
Um estudo da Universidade do Chile com camundongos revelou que o consumo de adoçantes dentro dos limites seguros, especialmente a sucralose, alterou a microbiota intestinal e genes ligados à inflamação e ao metabolismo. Os efeitos negativos se estenderam até a filhos e netos que não ingeriram as substâncias, possivelmente via epigenética. Embora os resultados com a estévia tenham sido mais brandos, os autores pedem cautela, pois os achados ainda precisam ser confirmados em humanos.

Os adoçantes se tornaram alternativas populares ao açúcar, principalmente por serem associados a opções mais saudáveis e com menos calorias. Agora, contudo, um estudo da Universidade do Chile levanta novas questões sobre os possíveis efeitos desse consumo no organismo a longo prazo.

Pesquisa analisou dois tipos populares de adoçantes e levanta novas questões sobre os impactos do consumo a longo prazo
Pesquisa analisou dois tipos populares de adoçantes e levanta novas questões sobre os impactos do consumo a longo prazo
Foto: Celsopupo/Getty Images / Perfil Brasil

Em um experimento com camundongos, pesquisadores observaram mudanças na microbiota intestinal e na atividade de genes relacionados à inflamação e ao metabolismo. O trabalho saiu na revista científica Frontiers in Nutrition.

Nem todos os adoçantes provocaram os mesmos efeitos

Para chegar aos resultados, a equipe analisou os efeitos da sucralose e da estévia e acompanhou também as gerações seguintes dos animais. Na comparação, então, a sucralose apresentou alterações mais intensas e persistentes.

Em comunicado da Universidade do Chile, a primeira autora do estudo, Francisca Concha Celume, afirmou que os pesquisadores encontraram "alterações na microbiota intestinal dos consumidores, seus filhos e netos".

A equipe também identificou uma menor concentração de ácidos graxos de cadeia curta, substâncias produzidas por microrganismos do intestino e importantes para funções como a manutenção da barreira intestinal e a regulação de processos inflamatórios.

Outro ponto chamou a atenção: os animais não receberam quantidades acima dos limites considerados aceitáveis. "Nós os observamos com consumo típico, sem ultrapassar a ingestão diária aceitável (IDA). Em outras palavras, não estamos falando de consumo excessivo, mas sim de quantidades que estão dentro do que é atualmente considerado seguro", explicou Concha Celume.

Sucralose e estévia apresentaram resultados diferentes

Embora tenham a mesma finalidade de substituir o açúcar, sucralose e estévia apresentam características distintas. A primeira é um adoçante sintético obtido a partir de modificações na sacarose. Já os glicosídeos de esteviol, conhecidos como estévia, têm origem na planta Stevia rebaudiana.

Essas diferenças influenciam a forma como o organismo processa cada substância. Por isso, segundo Concha Celume, não é adequado analisar todos os adoçantes como se produzissem os mesmos efeitos.

"Atualmente, existe uma grande variedade de adoçantes com diferentes naturezas químicas, o que significa que são absorvidos e metabolizados de forma diferente. Portanto, os efeitos no organismo dependem do tipo de adoçante", afirmou.

Como as alterações chegaram às gerações seguintes?

Um dos principais pontos investigados foi a presença de alterações em descendentes que não consumiram diretamente os adoçantes. Entre as possíveis explicações estão mecanismos epigenéticos, a microbiota intestinal e fatores relacionados ao período gestacional.

O professor Martin Gotteland, do Departamento de Nutrição da Universidade do Chile, explicou no comunicado um dos processos que podem estar envolvidos. "Esse fenômeno pode ocorrer por meio da epigenética, ou seja, a modificação da atividade gênica sem alterar a sequência do DNA", esclareceu.

Entretanto, isso não significa que pessoas que consomem adoçantes necessariamente transmitirão alterações aos filhos ou netos. O estudo utilizou camundongos e, portanto, não permite afirmar que os mesmos efeitos ocorram em seres humanos.

Consumo de adoçantes vai além do café

A quantidade ingerida ao longo do dia também merece atenção. Isso porque os adoçantes aparecem na composição de diferentes alimentos e bebidas industrializados, além daqueles adicionados conscientemente pelo consumidor. Assim, avaliar o consumo diário envolve considerar toda a alimentação.

"Os adoçantes não nutritivos estão presentes tanto nos sachês ou gotas que adicionamos às bebidas quentes quanto em uma ampla variedade de produtos, como bebidas zero caloria ou light, sucos, iogurtes, cereais, entre outros. A quantidade total consumida por uma pessoa corresponde à soma de todas essas fontes", ressaltou Concha Celume.

Estudo exige cautela na interpretação

Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores destacam que o experimento tem limitações. Como a equipe utilizou um modelo murino, os achados ajudam a levantar hipóteses, mas não comprovam os mesmos efeitos em pessoas.

Francisco Pérez-Bravo, diretor do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos (INTA) da Universidade do Chile, reforçou esse cuidado. "Este é um estudo básico que adiciona evidências importantes, mas deve ser interpretado com cautela, já que o modelo murino lança luz sobre certas questões", disse.

Por isso, a pesquisa não conclui que os adoçantes deixaram de ser seguros para consumo. Os resultados, contudo, abrem espaço para novas investigações sobre como diferentes tipos dessas substâncias podem interferir na microbiota intestinal e no metabolismo ao longo do tempo.

Perfil Brasil
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