Abertura de mercados será de forte pressão de baixa para ativos do Brasil após reeleição de Lula, dizem analistas
Analistas preveem forte estresse no mercado financeiro nesta segunda-feira após a reeleição de Lula, contrariando o posicionamento prévio dos investidores em favor de Flávio Bolsonaro. A expectativa é de queda acentuada na B3, com risco de circuit breaker, além de disparada do dólar e salto nas taxas de juros futuros. A aversão ao risco decorre de incertezas sobre a política fiscal do novo mandato e de possíveis contestações judiciais do resultado eleitoral pela oposição.
A abertura dos mercados no Brasil será de forte pressão de baixa para os ativos locais nesta segunda-feira após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmaram profissionais do mercado à Reuters neste domingo, e a expectativa é de ativação de mecanismos de interrupção de negociações logo cedo na B3 para suavizar o movimento.
O resultado da eleição, segundo eles, tende a gerar forte baixa das ações na bolsa, uma disparada do dólar ante o real e uma escalada das taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros).
Lula venceu a disputa pelo Planalto com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL), considerando quase 100% das urnas apuradas. Como o mercado estava em grande parte posicionado para uma vitória de Flávio, o ajuste tende a ser intenso.
"Nenhuma pesquisa estava dando vitória de Lula, e quando olhamos a metade da tarde do pregão de sexta-feira, parece que o mercado realmente se posicionou para a vitória de Flávio", comentou Lais Costa, analista da Empiricus Research.
"Vimos na sexta-feira um estirão do dólar para baixo e a bolsa para cima. Nesta segunda-feira, dado que houve essa alavancagem, é possível que haja circuit breaker na bolsa e parada de negócios no dólar", acrescentou.
Pelas regras da B3, o circuit breaker é acionado quando o Ibovespa cai mais de 10% em relação ao valor de fechamento anterior, com interrupção da negociação por 30 minutos. Após reabertura, se a queda atingir 15%, o mecanismo é novamente acionado, com interrupção por uma hora. Uma terceira paralisação ocorre no caso de queda de 20%.
No caso do dólar futuro, pode ocorrer uma interrupção de negociações caso a alta do dólar seja de 6%. Com isso, o ativo entrará em leilão por alguns minutos para que haja formação de preço de equilíbrio. Nesta noite de domingo, alguns criptoativos ligados ao dólar subiam perto de 9%, o que sugere um avanço forte do dólar para novembro na manhã de segunda-feira.
No Brasil, como as cotações do dólar no mercado à vista são definidas com base nas cotações do dólar futuro -- mais líquido -- a tendência também é de forte alta no início das negociações, às 9h.
"Amanhã, a bolsa vai abrir com circuit breaker, o dólar também vai parar. Há chance de vermos o dólar chegar aos R$5,50", projetou o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior.
Na última sexta-feira, em meio às apostas de vitória de Flávio, o dólar fechou abaixo dos R$5,00.
Nesta noite de domingo, um fundo de ações brasileiras (ETF) listado na Bolsa de Tóquio, o Nomura NF Ibovespa Link ETF, recuava perto de 15%.
"A gente viu um movimento na sexta-feira, com o mercado apostando em uma vitória do Flávio, mas como isso não aconteceu, a tendência é de que se faça compras de defesa no câmbio", comentou o diretor da Correparti Corretora, Jefferson Rugik.
Ele não descarta a possibilidade de o Banco Central entrar no mercado, por meio de leilões, para suavizar a disparada do dólar. "Se a alta for excessiva, de mais de 5%, o BC tem que fazer algo, seja por meio de swaps, seja por meio de leilões de moeda à vista", opinou.
Para Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA, em função da surpresa com a vitória de Lula, haverá um "ajuste severo de preços" na manhã de segunda-feira.
"Esperamos forte volatilidade, com pressão de queda na bolsa, depreciação do real e abertura das curvas de juros, até que o novo governo reforce o compromisso com a responsabilidade fiscal", disse em comentário escrito. A política fiscal do governo era um dos principais alvos de críticas a Lula durante a campanha eleitoral.
CURVA DE JUROS E PRECIFICAÇÃO PARA O COPOM
Os profissionais ouvidos pela Reuters também esperam um forte avanço das taxas dos DIs na segunda-feira, em especial entre os contratos de longo prazo, que refletem mais diretamente a expectativa com a política fiscal do governo.
Na segunda-feira após o primeiro turno, quando Flávio ficou à frente de Lula, a taxa do DI para janeiro de 2035 caiu mais de 130 pontos-base, em meio à expectativa de mudança na política fiscal. Com o resultado do segundo turno, vários profissionais citaram a possibilidade de devolução equivalente de prêmios para a curva.
"Considero plausível que tanto o dólar quanto os juros futuros ultrapassem os patamares observados naquela sexta-feira anterior ao primeiro turno, devolvendo integralmente o movimento de valorização dos ativos que acompanhou a expectativa de mudança na condução econômica do país", pontuou Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, em comentário escrito.
O movimento na parte curta da curva também tende a alterar a precificação para as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em novembro e dezembro.
Até sexta-feira, a curva precificava corte de 25 pontos-base da taxa básica Selic, hoje em 13,75%, em novembro, com boa chance de nova redução na mesma magnitude em dezembro. Com a vitória de Lula, conforme profissionais ouvidos pela Reuters, o mercado tenderá a precificar apenas mais um corte de 25 pontos-base em novembro.
RECEIO DE JUDICIALIZAÇÃO
A vitória de Lula, na visão de alguns profissionais, não será o único fator para a volatilidade, que tende a se estender pela semana. Isso porque a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação das 17h às 19h, em função de problemas no deslocamento de eleitores em várias cidades, promete gerar questionamentos na Justiça.
Em pronunciamento após a derrota, Flávio não reconheceu o resultado e disse que pedirá anulação do pleito.
"Não dá para descartar discussões sobre uma eventual judicialização do resultado ou outros desdobramentos políticos. Esse ambiente de incerteza tende a impactar os preços dos ativos", avaliou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.
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