Abelhas dos mares: pesquisadores encontram crustáceos que polinizam algas marinhas
É o primeiro caso conhecido de um animal que ajuda as algas a se reproduzirem e pode sugerir que a polinização evoluiu primeiro nos antigos oceanos do mundo
THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Afastem-se, pássaros e abelhas. Há outro polinizador no planeta Terra e ele vive no mar.
Em um estudo publicado quinta-feira na revista Science, os cientistas descobriram que um pequeno crustáceo, o Idotea balthica, desempenha o papel de polinizador de uma espécie de alga marinha. Eles fazem isso coletando inadvertidamente as espermácias pegajosas da alga, seu equivalente ao pólen, em seus corpos e espalhando-as ao redor enquanto se movem de fronde em fronde em busca de comida e abrigo.
Esta é a primeira vez que um animal foi observado fertilizando algas. Essa descoberta não apenas amplia o escopo das espécies que usam essa estratégia reprodutiva, mas também levanta questões sobre se ela evoluiu primeiro em terra ou no mar.
Durante muito tempo pensou-se que os animais apenas polinizavam as plantas em terra. No entanto, em 2016, os cientistas descobriram que o zooplâncton poliniza a Thalassia testudinum, uma espécie de erva marinha encontrada no Caribe. As ervas marinhas são as únicas plantas com flores que crescem em ambientes marinhos, mas permanecem intimamente relacionadas às plantas terrestres. As algas marinhas, por outro lado, embora tecnicamente sejam plantas, não estão intimamente relacionadas às plantas terrestres.
A descoberta de que a Thalassia testudinum foi polinizada por animais foi feita depois que os cientistas notaram uma densidade muito alta de invertebrados marinhos visitando flores de ervas marinhas. Pouco depois dessa descoberta, Myriam Valero, geneticista populacional da Universidade Sorbonne, na França, observou algo semelhante acontecendo entre as algas vermelhas que ela estava estudando.
A espécie de alga marinha que ela estava estudando, a Gracilaria gracilis, sempre pareceu popular entre os invertebrados, especificamente para a espécie de isópode Idotea balthica. Como a Gracilaria gracilis produz espermácias que, como os grãos de pólen, não podem se mover por conta própria, Valero se perguntou se os isópodes poderiam estar desempenhando um papel na dispersão da espermácia. Estudos anteriores sugeriram que a espermácia da Gracilaria gracilis foi dispersa pelas correntes oceânicas, mas dada a sua abundância em piscinas rochosas costeiras calmas, Valero suspeitou que outro mecanismo de dispersão estava em jogo.
Para testar sua hipótese, Valero e Emma Lavaut, estudante de pós-graduação da Sorbonne, cultivaram Gracilaria gracilis macho e fêmea e os colocaram a 15 centímetros de distância em tanques de água do mar. Metade dos tanques estavam povoados com os minúsculos crustáceos, e metade não. No final do experimento, elas descobriram que a fertilização ocorreu cerca de 20 vezes mais nos tanques com isópodes do que nos tanques sem eles.
Em um experimento subsequente, as pesquisadoras pegaram crustáceos que haviam passado algum tempo em tanques com machos reprodutores Gracilaria gracilis e os transferiram para tanques com algas fêmeas não fertilizadas. Elas descobriram que isso também resultou em altas taxas de fertilização. Elas examinaram os isópodes sob um microscópio e descobriram que eles tinham espermácias presas em quase todas as partes de seus corpos.
As pesquisadoras acreditam que os isópodes têm uma relação mutualística com a alga. As algas fornecem alimento aos isópodes na forma de uma espécie de microalga que cresce em sua superfície, bem como abrigo. Em troca, os isópodes ajudam a fertilizar as algas.
"Este é um estudo profundamente fascinante que realmente abala nossa compreensão de como as algas marinhas se reproduzem", disse Jeff Ollerton, professor visitante do Instituto de Botânica Kunming, na China, que não esteve envolvido no estudo, mas co-escreveu um artigo de perspectiva que acompanhou o estudo na Science na quinta-feira. "Esse tipo de interação pode ter acontecido muito antes de as plantas evoluírem, e o uso de terceiros para reprodução pode ter raízes muito mais profundas do que imaginávamos - se você me desculpar a brincadeira".
Acredita-se que o grupo ao qual pertence a Gracilaria gracilis tenha evoluído cerca de 500 milhões de anos antes das primeiras plantas aparecerem em terra. Embora os isópodes só tenham entrado em cena há 300 milhões de anos, é possível que antes de sua chegada existissem algas vermelhas que dependiam de alguns outros invertebrados marinhos agora extintos para "polinizá-las".
"Pode ser possível que a relação entre algas marinhas e animais seja anterior à evolução da relação animal-planta", disse Valero.
Outra possibilidade, ela disse, é que as estratégias de fertilização mediada por animais evoluíram de forma independente e repetida no ambiente terrestre e marinho.
Valero acrescentou que é importante descobrir se outras espécies de algas vermelhas dependem de animais marinhos para fertilização, pois isso pode ser fundamental para a manutenção da biodiversidade em nossos oceanos. Enquanto os cientistas estão documentando como a poluição e as mudanças climáticas afetam a relação entre plantas e polinizadores em terra, não temos ideia de como essas forças afetam a relação entre as algas e seus "polinizadores" no oceano.
Nos próximos anos, Valero espera ser um dos cientistas a descobrir isso. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES
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