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A resistência ucraniana no Donbass: "Se desistirmos, nada restará"

17 abr 2026 - 13h25
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Exército russo continua a avançar em direção a Kostiantynivka, no leste da Ucrânia, com o objetivo de ocupar toda a região do Donbass. Mas os habitantes continuam vivendo e lutando ali.Enquanto a Rússia já controla quase toda a região de Lugansk, no leste da Ucrânia, cerca de 18% da vizinha Donetsk estão fora do domínio russo, segundo declarou o porta‑voz do Kremlin, Dmitri Peskov, em 12 de abril.

Rua protegida por redes antidrones em Drushkivka, em março de 2026
Rua protegida por redes antidrones em Drushkivka, em março de 2026
Foto: DW / Deutsche Welle

Ainda assim, as forças russas continuam avançando pela região do Donbass. O foco da ofensiva atual é a cidade de Kostiantynivka, cuja eventual tomada abriria caminho para Kramatorsk e Sloviansk, dois dos últimos grandes centros urbanos ainda sob controle da Ucrânia na região.

"Kostiantynivka é uma pedra no sapato dos russos"

Combates já estão ocorrendo nos arredores de Kostiantynivca, relata à DW o comandante de uma companhia ucraniana, conhecido pelo apelido de "Lys" (Raposa). Segundo ele, algumas tropas russas conseguiram invadir a cidade a partir das florestas vizinhas, protegidas pela neblina.

"Eles estão sondando todo o front e procurando pontos onde possam se infiltrar ou abrir uma brecha na linha de defesa", explica Lys. "Provavelmente, após uma série de ataques que estamos observando atualmente, eles vão escolher um determinado trecho do front e exercerão pressão sobre ele de forma direcionada. Essa tem sido a tática habitual deles desde o ano passado", acrescenta o comandante ucraniano.

Segundo "Lys", Kostiantynivca é "uma pedra no sapato" do exército russo. "Enquanto não conseguirem atravessá-la, não conseguirão avançar. A região metropolitana de Kostiantynivca, Drushkivka, Kramatorsk e Sloviansk é como uma única grande cidade", explica ele, alertando que, caso os russos consigam avançar por lá, será muito difícil detê-los.

Região é demanda de Moscou nas negociações de paz

A Rússia não está tentando apenas, por meios militares, colocar toda a região sob seu controle. Moscou também exigiu, nas negociações de paz realizadas até agora, a retirada do exército ucraniano de todo o Donbass, ou seja, das regiões de Lugansk e Donetsk.

Kiev rejeita. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski teme que a Rússia possa usar a região como ponto de partida para ataques a outras áreas após a retirada do exército ucraniano. Segundo ele, há, em Donbass, "robustas instalações de defesa e fortificações". Mesmo em condições de combate, ainda vivem no local cerca de 200 mil pessoas.

"Como é possível, em negociações, abrir mão de um território pelo qual milhares dos nossos homens deram a vida? Isso está totalmente fora de questão", indigna-se Ruslan, um comandante de morteiros de uma brigada que defende as posições na entrada da cidade de Kostiantynivca.

"É uma cidade onde nossos cidadãos ainda vivem. Ela precisa ser defendida", acrescenta o chefe do estado-maior do batalhão, Eduard. "Se simplesmente a abandonarmos, em breve não restará mais nada da região de Donetsk. Se Kostiantynivca cair, Kramatorsk será o próximo alvo."

Civis entre o perigo e a fuga

Não se sabe ao certo quantos civis ainda permanecem em Kostiantynivca, cidade que já chegou a ter 70 mil habitantes. A saída de lá só é possível a pé, por uma estrada coberta por uma rede usada como proteção contra ataques de drones russos, mas que está bastante danificada. "Quando deixei Kostiantynivca e me escondi em três casas pelo caminho, encontrei civis mortos lá", relata o comandante de companhia de uma brigada de infantaria à DW. "Não entendo quem fica ali. Por que essas pessoas não vão embora?", questiona.

Também ainda há moradores na vizinha Druzhkivka. De manhã, acompanhando militares ucranianos, a reportagem encontrou muitas pessoas a caminho do trabalho - na maioria, funcionários dos serviços municipais

"A vida na cidade é assustadora", diz uma mulher chamada Ninel. "Mas para onde mais eu poderia ir? De qualquer forma, não me resta muito tempo de vida", diz um senhor chamado Vitali.

Situação preocupante em Kramatorsk e Sloviansk

Quanto mais a guerra se prolonga, mais visível se torna a transformação da paisagem urbana de Kramatorsk. Mesmo que a cidade ainda não esteja diretamente na linha de frente, a destruição aumenta praticamente a cada dia. Somente no dia 29 de março, o exército russo lançou vários bombardeios aéreos no local. Três pessoas, entre elas um menino de 13 anos, perderam a vida no ataque.

Uma das bombas caiu em uma área residencial, atingindo o lugar pela sétima vez. Os habitantes que tentam colocar seus apartamentos em ordem parecem surpreendentemente serenos. "Vamos arrumar nossas coisas", diz Olena, olhando pela janela que está sem o vidro. Caso o toque de recolher, que já existe durante a noite, seja ampliado de forma significativa, afirma Olena, "teremos de ir embora". "Foi assim em Pokrovsk, em Kostiantynivca, depois em Drushkivka. Sabemos que, cedo ou tarde, também chegará a nossa vez", lamenta ela.

As redes de proteção contra drones já são algo familiar nas ruas ao longo do front. Agora, elas também estão presentes nos arredores de Kramatorsk e na vizinha Sloviansk. Alguns bairros de Sloviansk já estão ao alcance dos drones FPV russos, por isso os menores de idade já foram evacuados à força da região. Apesar disso, o resto da cidade ainda mostra resiliência. Os cafés estão abertos, e idosos e mulheres com crianças circulam pelas ruas.

"Se eu tivesse dinheiro, eu iria embora. É difícil assistir a tudo isso", diz Iryna, uma senhora idosa. "Se realmente cedêssemos essa parte do Donbass, isso salvaria muitas vidas, tanto de soldados quanto de civis", diz ela. "Mas simplesmente desistir dessa região? Ela faz parte da Ucrânia!"

Sloviansk também é alvo de ataques constantes. No centro da cidade, um hotel foi totalmente destruído por drones Shahed. Vladyslav Samusenko dormia em um dos quartos quando ocorreram os ataques. "Graças a Deus ainda estou vivo", suspira o homem, apontando para o hotel devastado.

Cadáveres nos quintais e nas ruas

Samusenko fundou uma organização sem fins lucrativos chamada Ritmo da Nossa Vida. Inicialmente, ele pretendia ajudar crianças órfãs. Com o início da invasão em grande escala da Rússia, ele também organizou a evacuação de civis de áreas em risco. "Ficou claro para mim, de imediato, que era preciso salvar vidas humanas", afirma ele.

Em 24 de março, ele ajudou a um casal de aposentados, uma mulher e um homem paralisado, a fugirem de Kostiantynivca. Ele teve que percorrer oito quilômetros a pé para chegar à cidade, sempre com medo de ataques russos. "Há muitos cadáveres lá, nos quintais e nas ruas. Dá para sentir o cheiro quando se passa por uma casa", diz Samusenko.

Segundo ele, são principalmente os aposentados que permanecem na cidade. Mas o voluntário também encontrou lá alguns jovens que temiam ser convocados para o exército ucraniano. "Temos poucos combatentes. Nossos soldados estão cansados e faltam reforços."

Mas, enquanto civis estiverem pedindo ajuda, afirma Samusenko à DW, ele estará sempre disposto a ajudá‑los a fugir das cidades atingidas pela guerra.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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