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A nova disputa de poder global: como países fora do eixo EUA-União Europeia remodelam as relações internacionais

A pressão geopolítica criada por sanções, guerras e crises provocadas pelos EUA obrigam países a escolher entre acomodação ou contestação

17 mar 2026 - 14h51
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Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, muitos analistas apostaram que o país seria isolado pelo "Ocidente". Mas China, Índia, Brasil e vários outros Estados não aderiram às sanções. Pelo contrário: aumentaram o comércio com Moscou, negociaram em moedas alternativas e reforçaram fóruns como o BRICS.

Diversos analistas descrevem o momento atual como uma 'multipolaridade instável', isto é, um mundo com vários centros de poder, mas sem regras claras ou liderança estável. Neste artigo, uso essa ideia como ponto de partida para apresentar a minha própria proposta: entender a atuação dos Estados Ativos e Proativos diante do que chamo de imperativo antissistêmico.

O que é o "imperativo antissistêmico"

Num artigo que publiquei na revista Austral, descrevo a Guerra da Ucrânia como um imperativo antissistêmico: um momento em que sanções, guerras e crises produzidas pelo centro do sistema (EUA e União Europeia) pressionam Estados periféricos e semiperiféricos (Sul Global) a escolher entre acomodar‑se ou contestar a ordem vigente. Os Estados Proativos - Rússia, China, Irã - enfrentam diretamente essa ordem geopolítica e buscam transformá‑la; os Estados Ativos - como Brasil e Índia, por exemplo - procuram limitar o poder das grandes potências por meio de diplomacia e iniciativas como o BRICS, sem confronto frontal.

Essa combinação entre choque externo e resposta organizada ajuda a entender por que a guerra não ficou restrita ao campo de batalha. Ela redefiniu alianças, acelerou o processo de desdolarização que certamente levará décadas para competir com o dólar em partes do Sul Global e expôs os limites da hegemonia ocidental.

Estados Proativos: criar uma nova dinâmica geopolítica

Na minha tipologia, Estados Proativos são aqueles que assumem um confronto direto com o centro hegemônico, buscando alterar explicitamente a correlação de forças do sistema internacional. Eles não apenas criticam a ordem liderada pelos EUA e agora agressiva comanda por Donald Trump: investem recursos econômicos, militares e diplomáticos para substituí‑la por outra geopolítica sem afetar necessariamente o sistema econômico.

A Rússia é o exemplo mais evidente desde 2014, e especialmente após 2022. Ao desafiar a expansão da OTAN por meios militares, Moscou aceita o custo de sanções amplas, isolamento em organismos ocidentais e uma guerra prolongada. Em troca, aprofunda laços com China, Irã e Coreia do Norte, tenta contornar o dólar e busca reposicionar‑se como polo de um bloco abertamente antagônico ao Ocidente.

A China atua de forma distinta - com mais ênfase econômica do que militar -, mas também se encaixa na categoria Proativa. A Iniciativa do Cinturão e Rota, os bancos asiáticos alternativos e o uso crescente do yuan em transações internacionais formam um projeto de longo prazo para reduzir a centralidade financeira e logística dos EUA e da Europa.

O ponto em comum é claro: Estados Proativos não se limitam a resistir. Eles planejam alternativas, constroem instituições alternativas e atuam como arquitetos de uma nova ordem, ainda que de forma fragmentada e arriscada inicialmente.

Estados Ativos: reconhecendo as suas limitações sistêmicas

Estados Ativos também contestam a ordem centrada no Ocidente, mas evitam o confronto frontal. Em vez de se colocarem como antagonistas "radicais" da atual ordem geopolítica, preferem explorar brechas e contradições, ampliando sua autonomia passo a passo.

Brasil, Índia e África do Sul são bons exemplos. Eles participam do BRICS, defendem reformas em organismos como FMI e Conselho de Segurança da ONU, ampliam o comércio com China e Rússia, mas ao mesmo tempo mantêm relações importantes com Estados Unidos e União Europeia. É uma estratégia de equilíbrio fino: ganhar espaço sem acender todos os alarmes em Washington e Bruxelas.

No caso brasileiro, essa postura ficou visível após 2022. O país condenou a invasão da Ucrânia na ONU, mas recusou sanções, manteve a compra de fertilizantes russos e apoiou a expansão do BRICS para incluir países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã. Ao mesmo tempo, preservou exportações de commodities para a China e vínculos econômicos e militares com os Estados Unidos.

Ser um Estado Ativo, portanto, não é "ficar em cima do muro". É usar diplomacia, comércio e fóruns multilaterais para ampliar margens de manobra, sem romper com o Ocidente nem aceitar passivamente seu comando.

Por que isso importa?

Pode parecer um debate técnico, mas não é. A forma como Estados Ativos e Proativos respondem ao imperativo antissistêmico afeta diretamente temas do dia a dia: preço de combustíveis e alimentos, estabilidade do câmbio, oportunidades de trabalho, segurança energética, investimentos em infraestrutura.

Quando Rússia e Irã decidem vender petróleo fora do dólar, ou quando BRICS discute maior uso de moedas locais, isso mexe com o custo de financiamento global e com a vulnerabilidade de países endividados. Quando Brasil e Índia se aproximam da China para projetos de infraestrutura e tecnologia, abrem‑se alternativas a empréstimos condicionados de instituições ocidentais.

Ao mesmo tempo, a escalada de tensões entre blocos - OTAN de um lado, eixos Rússia‑China‑Irã de outro - aumenta o risco de conflitos regionais, crises de abastecimento e guerras de informação. Entender quem é Ativo e quem é Proativo ajuda a ler essas movimentações para além da superfície das notícias.

O que está em jogo na próxima década

A guerra na Ucrânia não criou a crise da ordem ocidental, mas acelerou um processo que vinha de antes: desgaste da hegemonia dos EUA, fraturas na União Europeia, ascensão econômica da China e fortalecimento político de atores do Sul Global. O "imperativo antissistêmico" torna mais desafiadora a neutralidade, empurrando Estados a escolher caminhos.

Se Estados Proativos conseguirem consolidar instituições alternativas - financeiras, tecnológicas, militares -, veremos uma multipolaridade mais nítida, com vários centros de poder em competição aberta. Se Estados Ativos ampliarem sua coordenação, especialmente no BRICS ampliado, podem reduzir assimetrias históricas sem cair em novas dependências.

O Brasil está no centro dessa encruzilhada. Ao manter‑se como Estado Ativo, ele pode continuar ganhando espaço de negociação entre Ocidente, BRICS e demais países do Sul Global. A questão é se terá projeto de longo prazo para transformar essa atuação ativa em proatividade em áreas específicas - como transição energética, segurança alimentar e tecnologia crítica - ou se ficará restrito a administrar crises produzidas por outros.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Charles Pennaforte é fundador e membro do Conselho Científico do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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