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A Amazônia está sob ameaça de desaparecer. Mas quem vive nela ainda não sabe por quê

Pesquisa mostra que tipo de informação as comunidades amazônicas querem receber para entender e reagir às ameaças aos seus territórios

3 jun 2026 - 09h43
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A Amazônia é um dos territórios mais monitorados do planeta. Satélites rastreiam o desmatamento em tempo quase real. Investigações documentam garimpo ilegal, conflitos fundiários e violações de direitos humanos com rigor crescente. Os dados existem. As reportagens existem.

E ainda assim, as comunidades que vivem dentro da floresta (por exemplo, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, moradores de territórios diretamente atingidos por mineradoras e pelo agronegócio) frequentemente são as últimas a receber informações claras e confiáveis sobre o que está acontecendo em sua própria terra.

À primeira vista, isso pode parecer apenas um problema do jornalismo, mas ele revela uma lacuna clara no acesso à informação. A falta de acesso a informações sobre a Amazônia pela população local traz consequências diretas sobre a capacidade dessas comunidades de se organizar e defender seus territórios.

O vazio que a propaganda preenche

Ao longo de 2024, conduzimos um estudo em parceria com o veículo de comunicação InfoAmazonia com brasileiros que têm como característica em comum o interesse na Amazônia. Os participantes incluíam indígenas, ribeirinhos, ativistas, pesquisadores, jornalistas, dentre outros interessados na região. Queríamos entender o que seria necessário para que as pessoas da Amazônia fossem genuinamente informadas sobre o território.

O que ouvimos foi consistente e preocupante: quando informações confiáveis não chegam, outras informações ocupam seu lugar.

"No Pará, há graves violações de direitos humanos por parte de mineradoras e empresas de palma, mas as pessoas não têm acesso a essas informações porque essas empresas realizam campanhas massivas de propaganda para impor suas próprias narrativas", disse uma das participantes.

O fenômeno que observamos retrata a desinformação que é potencializada por uma assimetria estrutural, já que os interesses que lucram com a destruição ambiental têm recursos, alcance e uma mensagem simples. Por outro lado, a informação rigorosa exige tempo, contexto e confiança para ser absorvida. Ou seja, é sistematicamente desfavorecida pelos algoritmos das plataformas digitais, que hoje funcionam como principal porta de entrada para as notícias da maioria da população.

O resultado é que comunidades ficam sem acesso a informações claras sobre ameaças ao seu território e, como consequência, ficam mais vulneráveis à desinformação, têm maior dificuldade em se organizar politicamente e se tornam mais expostas às ameaças sobre os seus próprios territórios, como a desapropriação de terras. A desigualdade informacional estabelece uma relação circular com a crise de desinformação na Amazônia: é produto dela e, simultaneamente, condição que a perpetua.

Ver para entender: o papel do conteúdo visual

Quando perguntamos sobre quais formatos funcionam melhor para comunicar ameaças ambientais, os participantes foram unânimes: o visual não é um complemento estético. Quando os jornalistas utilizam elementos visuais para comunicar dados complexos, como os mapas interativos, os leitores conseguem compreender melhor a informação e tomar decisões informadas.

Os participantes descreveram mapas interativos, imagens de satélite e vídeos curtos como transformadores, especialmente para lideranças indígenas e moradores de comunidades remotas. "Um mapa da própria situação deles será melhor compreendido, melhor interpretado. A receptividade e o conhecimento que vão ganhar pelo aspecto visual será muito maior", disse um participante.

A lógica é direta: uma ameaça abstrata (por exemplo, taxas de desmatamento, contaminação de rios, avanço do garimpo) se torna concreta quando pode ser vista, compartilhada e usada como evidência. Informação visual viaja mais longe do que um texto longo numa tela pequena no intervalo de um dia de trabalho.

Os nossos resultados demonstram que a crise do acesso à informação não está relacionada à complexidade do que é informado. Para eles, o que falta é tornar essa informação acessível, a partir de adaptações de formato que possam traduzir e aproximar os fenômenos da Amazônia para os leitores.

Quem conta a história importa

Em todos os grupos, uma frustração se repetiu: a Amazônia é descrita, analisada e reportada por pessoas de fora, enquanto quem a habita permanece em grande parte silenciado.

"Quando leio sobre o nosso território, sinto muita falta de ver pessoas do nosso território se comunicando. Sou uma ativista de um território que sofre com o garimpo. Tenho plataformas em nível nacional, mas muitas vezes não tenho espaço para comunicar isso", relatou uma participante.

Ao falar sobre o que observam do conteúdo noticioso, os participantes relataram que não é suficiente aparecer como fontes em reportagens de terceiros. O que desejam são espaços comunicacionais onde ativistas de territórios atingidos, lideranças indígenas e membros de comunidades locais possam falar diretamente, com suas próprias palavras, sobre suas próprias realidades. Um fenômeno relatado é que, em muitos casos, o conteúdo sobre a Amazônia é reportado de fora para dentro. Nesse sentido, eles sentem falta que comunidades locais sejam envolvidas enquanto repórteres.

Identificamos também um problema mais amplo de representação: mesmo veículos comprometidos com a cobertura da região tendem a reproduzir uma visão homogeneizada da Amazônia, apagando sua diversidade de povos, línguas e territórios. Adotar um corpo editorial mais diversificado pode ser um caminho para maior representatividade e identificação das comunidades locais.

Menos catástrofe, mais caminhos de ação

A cobertura ambiental da Amazônia é dominada por crises, como queimadas, invasões, grupos armados e assassinatos de jornalistas e defensores ambientais. Os participantes não negaram a importância dessas histórias. Mas identificaram um efeito colateral direto: o excesso de narrativa catastrófica produz paralisia.

Quem se importa começa a se desconectar, não por indiferença, mas porque um horizonte de desastre permanente não oferece nenhum ponto de apoio para a ação. "Há uma tendência de focar apenas no negativo. Falta o jornalismo de soluções, inclusive na Amazônia", disse uma participante.

Informação sobre comunidades que resistiram com sucesso a invasões ilegais, políticas que frearam o desmatamento e práticas que estão sustentando meios de vida não é otimismo ingênuo. Este tipo de conteúdo, na realidade, pode também demonstrar às pessoas ações possíveis de reorganização e resistência para travar retrocessos ambientais.

Acesso à informação ambiental é uma questão de direitos

Nossa pesquisa conclui que o problema não é a ausência de informação qualificada sobre a Amazônia. O maior problema identificado foi que essa informação frequentemente não chega a quem mais precisa dela. E quando não chega, outros atores preenchem o vazio com narrativas que servem a interesses muito diferentes dos das comunidades afetadas.

"Grupos controlam a narrativa para fins eleitorais. Disputas políticas históricas bloqueiam o acesso democrático à informação", disse um participante.

Na Amazônia, onde a desinformação é uma arma e o silêncio serve ao poder, garantir que informações confiáveis cheguem às pessoas certas, em formatos acessíveis e por canais efetivos, não é uma preocupação secundária. Na verdade, o acesso à informação confiável é uma pré-condição para qualquer possibilidade de reação.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Mathias-Felipe de-Lima-Santos recebeu financiamento da ICFJ para realização desse estudo e foi coordenador do projeto da InfoAmazonia em regime de tempo parcial. Isabella Gonçalves não tem conflitos de interesse a declarar.

Isabella Gonçalves não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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