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Como os estigmas racistas sobre as mulheres se perpetuam na sociedade

Mulheres negras são vistas apenas para sexo e trabalho, enquanto as brancas são as que merecem a cordialidade do patriarcado

19 abr 2022 - 05h00
(atualizado às 11h38)
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Estupro não era algo pontual, as mulheres negras eram estupradas religiosamente para poder gerar mais escravos, que para elas eram filhos, mas para os brancos eram mercadoria
Estupro não era algo pontual, as mulheres negras eram estupradas religiosamente para poder gerar mais escravos, que para elas eram filhos, mas para os brancos eram mercadoria
Foto: iStock

Para entender com plenitude sobre esse tema, precisamos voltar ao regime escravocrata que perdurou por mais de 350 anos no Brasil. Como muitas outras cicatrizes sociais, é lá que nascem os estigmas racistas que afetam, principalmente, a mulher negra, que nesse texto estará dividida em dois grupos. Esse estigma é uma questão de raça e gênero, pois a objetificação da mulher parte do patriarcado europeu, que homens negros reproduzem. Alguns de nós ainda não percebeu, mas lutar contra o machismo, dentro do movimento negro, é lutar com o racismo.

A branca sempre foi vista como modelo ideal de mulher. Isso se dá, primordialmente, pela sua cor. O homem negro vê nela a possibilidade de embranquecer o ventre, e o homem branco enxerga a chance de perpetuar sua brancura. Ela se tornou o ideal materno para ambos os homens. Essa mulher branca sempre foi educada para interpretar o papel de mãe, mulher e dona de casa, no modelo mais patriarcal possível. Logo, durante o correr dos anos, a imagem das brancas sempre foi atrelada a "mulher perfeita".

Por ser a mulher "perfeita", ela sempre teve regalias. O cavalheirismo nasce para conquistar, tratar bem, servir e proteger a mulher BRANCA, ainda que isso subliminarmente fosse oprimir. Para a mulher negra não existia o cavalheirismo, só a violência, como foi perfeitamente dito pela ativista Sojourner Truth no seu discurso "E não sou eu uma mulher?". A mulher preta de pele clara é alvo do desejo carnal do homem. Costumo falar que a castidade da mulher branca, só pôde ser mantida graças violação dos corpos dessas mulheres.

As mais procuradas para fornicação eram aquelas que tinham no rosto a brancura e no corpo a negritude. A pele dela ser mais clara não era o ideal para reprodução, mas caso acontecesse, a chance do filho nascer claro era um conforto, principalmente aos senhores, que as usavam como repasto sexual e aos seus filhos, que tinham nesse corpo iniciadoras das práticas sexuais. Ainda hoje vemos como essas mulheres são hipersexualizadas. O turismo sexual do Brasil é forjado na imagem das negras de pele não retintas. Termos como "mulata tipo importação" e "cor do pecado" nascem disso e também as falácias como "toda pretinha gosta de um branco" e sobre a "quentura da vagina negra".

O símbolo maior disso é a Globeleza, a imagem dela atraia turistas voltados para o entretenimento sexual durante o Carnaval, mas sua figura era replicada o ano todo para que esses mesmos procurassem o Brasil para suas fantasias sexuais. Ser objeto sexual não é privilégio, sobretudo, em uma sociedade judaico-cristã que condena o sexo recreativo e prega a castidade sobre os corpos até o casamento. As pretas retintas eram tidas como animais de cargas. A elas eram reservados trabalhos iguais aos dos homens (sexo frágil sempre foi direcionado as brancas), jornada dupla para mulheres negras sempre existiu.

Eram elas que tomavam a frente da organização das senzalas, limpeza, comida e cuidados medicinais, As retintas também eram alvo de estupro. Um estupro forçado entre negros. A sinhá quando descobria a gravidez obrigava a um negro, ou até um capataz, a estuprar mulheres negras para que seus filhos tivessem ama de leite. O que para muitas era uma benção, pois ganhavam "tratamento especial" para não correr o risco de perder a criança. Esse "benefício", era uma hora a menos na lavoura, pouco mais de comida e não ser açoitada sem motivo. O estupro não era algo pontual, as mulheres negras eram estupradas religiosamente para poder gerar mais escravos, que para elas eram filhos, mas para os brancos eram mercadoria.

Por conta disso, muitas delas não conseguiam ter parceiros, pois a vulnerabilidade ao estupro programado fazia com que não fossem vistas como aptas ao relacionamento. Ainda hoje, a mulher negra retinta é preterida. Elas, proporcionalmente falando, são a maiorias das mães solo, a maioe parte das celibatárias, a maioria em empregos lidos como subalternos, a maioria das solteiras e são, por vezes, a última escolha afetiva. As lutas deveriam partir da mulher negra retinta, pois só colocando o indivíduo com mais atravessamentos no centro da análise, que estaremos caminhando de forma honesta para uma sociedade mais justa.

Para entender um pouco mais sobre esse tema, aconselho a procura da dissertação do doutorado da Doutora @ana_pachecau.

Fonte: Luã Andrade
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