Últimas     Notícias     Mundo     Brasil     Economia     Esporte     Informática     Revistas

INDICADORES
» Cotação do dólar
» Outros indicadores
BOLSA DE VALORES
» Consulte uma cotação
» Bolsas
BASTIDORES
» Claudio Humberto
JORNAIS DA REDE
» Manchetes do dia
PREVISÃO DO TEMPO

» Imagem do satélite
SERVIÇOS
» Agenda
» Cotação de Automóveis
» Empregos
» Horóscopo
» Loterias
» Imposto de Renda
BUSCA
» Busca em notícias
» Busca na Internet

Analista diz que governo do Brasil torce por Bush

Sexta, 10 de novembro de 2000, 04h47min
O governo brasileiro, especialmente o Itamaraty, torce discretamente por uma vitória do governador do Texas, George Walker Bush, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, temendo que o vice-presidente, Albert Gore Jr., seja mais protecionista, afirma o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília e representante no Brasil da organização não-governamental anticorrupção Transparência Internacional.

Mais importante, para esse professor americano naturalizado brasileiro - Fleischer tem dupla nacionalidade -, será o impacto macroeconômico que as políticas de um governo Bush ou Gore terão na economia brasileira.

"No Brasil, a maioria do governo, especialmente o Itamaraty, tem uma ligeira preferência por Bush, achando que ele vai ser menos protecionista, o que eu não sei se vai ser", disse em Londres o professor Fleischer. Ele está na Inglaterra participando de uma banca de doutorado e de palestras e seminários, na London School of Economics, no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Londres e no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, onde analisa os resultados das recentes eleições municipais no Brasil.

Um governo Gore assusta o Planalto e o Itamaraty por causa de sua imagem de ambientalista e de suas ligações com os sindicatos, que o levariam a tentar incluir cláusulas ecológicas e sociais em negociações comerciais. A central sindical americana AFL-CIO recuperou sua poderosa influência política valendo-se da Internet. Ao perceber que as eleições seriam decididas na reta final, os dirigentes sindicais orientaram seus filiados a bombardear os trabalhadores sindicalizados do oeste dos EUA, onde as urnas fecharam por último, mobilizando-os a votar. Têm o que cobrar de um governo Gore.

"Gore perturba bastante a política externa brasileira por pressionar por cláusulas verdes, ambientais, que obrigariam o Brasil a fazer, na área de meio ambiente, coisas mais rapidamente do que teria capacidade de fazer", observa o cientista político da UnB. "Há também as chamadas cláusulas sociais, sobre trabalho infantil, trabalho feminino, adoção das normas da Organização Internacional do Trabalho sobre salários e vantagens dos trabalhadores, direitos sindicais. Gore também dá muita força a essa área de direitos sociais."

Mas o que preocupa mais diretamente Fleischer é o que as eleições americanas vão significar para a economia brasileira: "Não vi no Brasil nem no governo brasileiro nem no Itamaraty nenhuma avaliação sobre o impacto macroeconômico na economia americana de uma vitória de Bush ou Gore, o que é muito importante para o Brasil", comenta Fleischer.

"O Brasil confia em que os EUA vão manter uma política de juros baixos que não leve a um aumento abrupto das taxas básicas de juros do Fed (Federal Reserve Board, o banco central americano), ou seja, a política macroeconômica de Clinton, com inflação, juros e desemprego baixos. Um aumento abrupto das taxas de juros americanas seria desastroso para o Brasil."

As reduções de impostos propostas por Bush seriam um risco macroeconômico, pondera o professor Fleischer: "Muita gente nos EUA desconfia que Bush vá desviar-se dessa rota com um forte corte de impostos para os mais ricos e o afrouxamento da austeridade fiscal americana. É um grande paradoxo porque sempre foram os republicanos que pregaram a austeridade fiscal. Agora, são os democratas."

Na realidade, o resultado extremamente dividido, tanto para a Casa Branca quanto para o Senado e a Câmara dos Representantes dos EUA, indica que os americanos querem a manutenção da política econômica que garantiu um crescimento sem precedentes desde 1991. Não querem nem cortes de impostos muito radicais, como prometeu a direita, porque poderiam trazer de volta o décifit e realimentar a inflação, nem um aumento exagerado nos gastos públicos, que ameaçaria o equilíbrio macroeconômico e pressionaria a inflação, ao aumentar a demanda.

Não haverá uma volta do reaganismo, apesar das comparações que a campanha de Bush gosta de fazer entre o governador do Texas e o ex-presidente Ronald Reagan: "O que Reagan fez foi abrir as portas para as importações. Jogou o déficit comercial para a cucuia, mas acabou com a inflação com produtos importados baratíssimos, roupa, comida, sapato."

Também gastou US$ 2 trilhões em armas, o que estourou o déficit público, mas durante a guerra fria o confronto estratégico com a União Soviética era mais importante. Diante da perspectiva de eleição de um presidente pelo Colégio Eleitoral sem maioria no voto popular, o que aconteceu três vezes e não ocorre desde o século 19, e de um Congresso virtualmente dividido ao meio, não haveria legitimidade para o governo dos EUA tomar medidas muito ousadas nos próximos anos.

Essa continuidade interessa ao mercado. E também ao governo brasileiro, constata o professor Fleischer.

Nos cálculos de recuperação econômica, o governo Fernando Henrique Cardoso conta com a manutenção do dinamismo atual da economia americana e espera tirar proveito político disso, nota Fleischer: "Se a economia brasileira crescer 4% este ano, 5%-6% no ano que vem e 7%-8% em 2002, isto vai trazer de volta a euforia que houve em 1994 e vai fortalecer o presidente. Sua aprovação vai subir, ele vai ter mais força e influência na sucessão", explica Fleischer.

"Se a economia entrar em parafuso, a esquerda, liderada por Luís Inácio Lula da Silva, ou quem quer que seja, terá mais força. Foi o slogan de Clinton em 1992: `É a economia, estúpido.' Concentra na economia. Só fala de economia e não fala mais nada. Mas Gore não teve o mesmo êxito nesta estratégia."

Ele admite, no entanto, que estas são as eleições americanas mais interessantes da história recente. E não só na eleição presidencial: "Até um morto foi eleito. Perder para um morto é ainda mais humilhante do que um candidato presidencial perder no seu próprio Estado, como aconteceu com Gore no Tennessee."

Leia mais:
» Condado do Novo México também reconta votos
» Bush está vencendo Gore na Flórida por apenas 229 votos
» Mulheres votaram em Gore e homens em Bush
» Votos de pessoas no exterior já foram contados na Flórida
» Justiça examina denúncias de irregularidades eleitorais nos EUA
» Resultado da recontagem na Flórida não sairá hoje
» Recontagem de votos aponta diferença menor entre Gore e Bush
» Dois ex-secretários vão à Flórida acompanhar recontagem
» Especialistas dizem que votação online nos EUA seria melhor
» Imprensa francesa questiona suspense na eleição nos EUA
» Recontagem de votos na Flórida recomeça
» Cuba zomba de confusão eleitoral norte-americana
» Imprensa britânica se diverte com eleições nos EUA
» Gore afirma que apoiará Bush se o republicano vencer
» Batalha legal pode adiar resultado de eleição nos EUA
» Saiba tudo sobre as eleições nos EUA

O Estado de S. Paulo

Volta

 

Copyright© 1996 - 2000 Terra Networks, S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved.