Casal transforma carro mais feio do mundo em motorhome e roda 70 mil km na América do Sul
Fotógrafos desafiam o mito do 4x4 ideal e mostram como a resiliência transformou um ícone produzido pela Fiat em um lar sobre rodas pelas estradas da América do Sul
Num mundo obcecado por motorhomes preparados e veículos de expedição que parecem prontos para invadir Marte, um casal eslovaco decidiu seguir o caminho oposto. Em vez de um 4x4 indestrutível, Ivan e Yana Bustor escolheram uma Fiat Multipla para desbravar o mundo.
Pois é. Uma Multipla (ou "um", caso você, leitor, trate o veículo como um monovolume). Uma minivan frequentemente citada como um dos carros mais feios já produzidos, mas também dos mais engenhosos.
Não há nada de heroico na sua silhueta bulbosa, no para-brisa em dois andares ou nas proporções que desafiam qualquer noção convencional de beleza automotiva. Ainda assim, foi essa minivan italiana dos anos 2000, mais associada a estacionamentos de supermercados europeus do que a travessias continentais, que levou o casal por 11 mil quilômetros na Ásia em 2022.
Agora, depois de rodar cerca de 70 mil quilômetros pela América do Sul e cruzar desertos, cordilheiras e fronteiras, a mesma Multipla chegou ao Brasil carregando no teto não apenas bagagens. Também demove de nossas mentes a tese de que a aventura não depende do carro ideal, mas da disposição de seguir em frente e aceitar as imperfeições.
Desenvolvimento da Fiat Multipla camper
A história começa como uma provocação, quase como um experimento social sobre rodas. Ivan queria "o carro mais feio já feito" e encontrou na Fiat Multipla a materialização perfeita dessa ideia. Comprado usado em 2021, já com 255 mil km rodados, o modelo 1999 parecia mais um objeto de curiosidade do que uma ferramenta de viagem.
No entanto, foi justamente essa lógica invertida que deu origem ao projeto. "Começou como uma piada", admite o casal. A viagem ao Quirguistão, ainda em 2022, foi o primeiro teste, e também o ponto de virada. "Percebemos que não era um carro ruim. Nos apaixonamos rapidamente", apontam os fotógrafos Ivan, 37, e Yana, 27.
E o que era brincadeira e improviso virou método. A Multipla, originalmente configurada com seis assentos e feita sobre a plataforma C1, foi radicalmente transformada. Quatro bancos saíram para dar lugar a um espaço interno que hoje funciona como uma espécie de "micro-casa".
O elemento mais emblemático, no entanto, está no teto. Após a primeira expedição, Jana decidiu que queria um teto pop-top (ideal para campistas). Sem opções prontas e com custo elevado para projetos sob medida, o próprio casal desenhou e construiu a estrutura.
"Ivan projetou no computador e fizemos com perfis de alumínio e painéis compostos, vedados com Sikaflex (selante elástico)", explicam. O resultado é mais do que funcional e redefine o uso do carro, transformando-o em algo próximo de um camper compacto.
Fiat Multipla na América do Sul
Mas a estética e a criatividade encontram limites físicos quando confrontadas com a realidade das estradas sul-americanas. E foi no Peru que esses limites apareceram de modo mais contundente.
Estradas de terra em condições precárias, inclusive em rotas turísticas, submeteram a Fiat Multipla a níveis de estresse para os quais claramente a minivan não foi projetada. O subchassi traseiro sofreu, com três buracos abertos após impactos sucessivos. Dano estrutural sério, resolvido com soldas emergenciais.
Na Bolívia, a situação beirou o colapso. Impacto com uma pedra danificou o câmbio e provocou vazamento de óleo no meio da Rota das Lagoas, a cerca de 350 km do centro urbano mais próximo. "No final, sempre conseguimos resolver de alguma forma", dizem Ivan e Yana, numa síntese que mistura resiliência, improviso e uma boa dose de sorte.
A logística reforça essa condição. A disponibilidade de peças é irregular ("às vezes encontramos, às vezes precisamos importar via DHL") e o motor 1.9 a diesel de 105 cv e 20,4 kgfm, incomum em mercados como o brasileiro, adiciona uma camada extra de complexidade. Ainda assim, a Multipla segue operando em um regime quase experimental, cruzando ambientes para os quais jamais foi concebida.
A experiência no Brasil
E é justamente aí que a narrativa encontra o Brasil. Não como um ponto final, mas sim como uma escala. Durante seis meses, Yana e Ivan percorreram 23 estados brasileiros e visitaram a maioria das capitais do país. "Você só entende o tamanho do Brasil quando tenta atravessá-lo dirigindo", aponta o casal.
A diversidade de cenários se impõe não apenas na paisagem, mas também nas condições de rodagem. No Sul, rodovias bem conservadas permitiram, salienta a dupla, deslocamentos longos e previsíveis. À medida que avançaram para o Norte, o cenário mudou.
"Ao sair das estradas principais, especialmente no extremo Norte, as condições pioraram, com buracos maiores que castigavam a suspensão", salientam. "Mas isso seria difícil para qualquer carro", relativizam, colocando a minivan no mesmo plano de veículos muito mais preparados.
O Brasil também se revela fora do asfalto. A fauna impressionou. O casal de fotógrafos observou tamanduás-bandeira, onças, capivaras, jacarés e araras. Uma sucessão de encontros que transformou a viagem em algo próximo de um documentário vivo.
Houve ainda elementos mais cotidianos, mas não menos marcantes. "Os restaurantes por quilo nos deixaram muito felizes", dizem, com a honestidade de quem entende que a experiência de um país também passa pelo prato.
Nem tudo, porém, escapou ao olhar crítico. Destinos turísticos como Bonito chamaram atenção pelos preços elevados — um contraste com a hospitalidade e a acessibilidade encontradas em outras regiões. Ainda assim, o saldo é amplamente positivo, inclusive no aspecto humano. "Nos sentimos seguros na maior parte do tempo", afirmam, destacando a importância da discrição e da leitura de ambiente.
Reação dos mecânicos
Se o Brasil é um teste de escala, também é um divertido palco para as melhores interações. A Fiat Multipla, figura já curiosa em qualquer lugar do mundo, ganhou por aqui status quase mítico. Mecânicos reagiam com surpresa ao dar de cara com o veículo, mas sempre com curiosidade e boa vontade.
"Todos olhavam com espanto, mas não de uma forma ruim. Os mecânicos estavam principalmente curiosos sobre a aparência estranha e o motor a diesel em um carro tão pequeno. Todos foram muito simpáticos", ressaltam.
Entusiastas pararam, conversaram, fotografaram. Perfis nas redes sociais registraram a passagem da Multipla como se fosse um avistamento raro, e comentários do tipo "os vi ontem em tal lugar" ajudaram a construir uma narrativa paralela, quase coletiva.
"Os entusiastas de adoraram ver a única Multipla do Brasil. Eles acenavam e vinham conversar com a gente sempre que a gente parava por um tempo, e foram extremamente simpáticos", apontam. "Também apareceram muitos spotters que tiraram fotos e marcaram a gente. Foi legal demais", completa o casal.
Próximos passos
E talvez seja justamente aí que reside o ponto mais bacana dessa história. A aventura automotiva é usualmente associada a veículos caros, altamente especializados e quase inacessíveis. No entanto, Yana e Ivan propõem uma inversão simples. O carro ideal pode não ser o mais preparado, mas o mais disponível. "Se a ideia é viajar e conhecer pessoas, há uma grande chance de que o automóvel certo já esteja na sua garagem", afirmam.
Depois de seis meses no Brasil, Ivan e Yana seguiram viagem. Passaram pela Guiana e estão agora na Venezuela, com destino ao Alasca. A Fiat Multipla, taxa de feia e improvável, continua rodando. Não como exceção, mas como prova de que, às vezes, a limitação é apenas o ponto de partida para uma deliciosa história.