Há 23 anos, Knights of the Old Republic reinventou Star Wars
RPG da BioWare levou a saga milhares de anos ao passado e mostrou que o universo de Star Wars era muito maior do que a família Skywalker
Quando Star Wars: Knights of the Old Republic chegou ao primeiro Xbox e ao PC em 2003, muitos fãs acreditavam que um jogo da franquia precisava, obrigatoriamente, girar em torno de Luke Skywalker, Darth Vader ou dos eventos da trilogia clássica para fazer sucesso. A BioWare provou exatamente o contrário.
Conhecido entre os fãs simplesmente como KOTOR, o RPG transportou os jogadores cerca de quatro mil anos antes dos acontecimentos de A Ameaça Fantasma, em uma época em que a Velha República enfrentava uma guerra devastadora contra os Sith. Livre das amarras dos filmes, o estúdio canadense criou uma das histórias mais marcantes de toda a franquia e entregou um dos RPGs mais influentes dos anos 2000.
Mais do que um excelente jogo, Knights of the Old Republic ajudou a consolidar a ideia de que o universo de Star Wars poderia contar grandes histórias sem depender da família Skywalker.
Uma nova era para Star Wars
No início dos anos 2000, a LucasArts ainda buscava explorar diferentes gêneros dentro da franquia. Havia jogos de corrida, simuladores espaciais, shooters e títulos de ação, mas um RPG profundo inspirado em clássicos como Baldur's Gate parecia um desafio ambicioso.
A escolha da BioWare foi natural. O estúdio já havia conquistado prestígio graças a Baldur's Gate e Neverwinter Nights, sendo reconhecido pela qualidade de suas narrativas, personagens complexos e sistemas de escolhas.
A LucasArts deu liberdade quase total para que a equipe desenvolvesse uma história completamente inédita, situada milhares de anos antes dos filmes. Essa decisão permitiu criar novos conflitos, civilizações, planetas e personagens sem contradizer o cânone estabelecido na época. Foi justamente esse distanciamento que deu identidade própria ao jogo.
Não havia Império Galáctico, nem Estrela da Morte, nem Yoda liderando o Conselho em Coruscant (embora houvesse um simpático mestre da mesma espécie chamado Vandar Tokare). Havia uma galáxia inteira em guerra, repleta de milhares de Jedi e Sith duelando pelo destino do universo.
O sistema de escolhas morais entre o Lado da Luz e o Lado Sombrio não alterava apenas habilidades especiais. Ele influenciava diálogos, decisões políticas, aparência do protagonista, relacionamentos com os companheiros e até o desfecho da campanha.
As decisões raramente eram totalmente certas ou erradas. Muitos dilemas colocavam o jogador diante de situações moralmente complexas, algo que se tornaria uma das principais marcas da BioWare nos jogos dos anos seguintes, como Mass Effect e Dragon Age.
Darth Revan entrou para a história
Poucos protagonistas marcaram tanto os videogames quanto Darth Revan. Inicialmente apresentado como um antigo Lorde Sith responsável por uma guerra que devastou a galáxia, o personagem rapidamente se tornou uma das figuras mais fascinantes de todo o universo expandido.
Sem dar spoilers, o grande trunfo de KOTOR está na forma como a narrativa conduz o jogador até uma das maiores reviravoltas da história dos videogames. Mesmo mais de duas décadas depois, esse momento continua sendo lembrado como um exemplo de como construir uma revelação impactante sem depender apenas do fator surpresa.
Ao redor de Revan, a BioWare reuniu um elenco igualmente memorável. Malak, Bastila Shan, Carth Onasi, Mission Vao, Jolee Bindo, HK-47 e Canderous Ordo tornaram-se personagens queridos pelos fãs justamente porque possuíam histórias próprias, conflitos pessoais e opiniões que mudavam de acordo com as escolhas do jogador.
Especialmente HK-47, um droide assassino sarcástico que via os humanos como meros "sacos de carne", ironizando a própria fragilidade da vida biológica.
O legado continua vivo
O sucesso foi imediato. Knights of the Old Republic recebeu diversos prêmios de Jogo do Ano em 2003, vendeu milhões de cópias e rapidamente passou a figurar entre os melhores RPGs já produzidos.
Sua influência também foi enorme para o próprio universo de Star Wars. Diversos elementos criados pela BioWare passaram a fazer parte do antigo Universo Expandido, hoje conhecido como Legends, enquanto personagens como Darth Revan continuam sendo constantemente referenciados em livros, quadrinhos, jogos e outras produções da franquia.
Em 2004, a sequência, Knights of the Old Republic II: The Sith Lords, desenvolvida pela Obsidian Entertainment, expandiu ainda mais os temas filosóficos sobre a Força e consolidou a série como uma das mais respeitadas da história dos RPGs.
Em 2021, um remake foi anunciado para PlayStation 5 e PC. Desde então, o projeto enfrentou mudanças de estúdio, rumores sobre seu desenvolvimento e um longo período sem novidades concretas, mantendo os fãs na expectativa por um retorno oficial.
Um clássico que mostrou o verdadeiro tamanho da galáxia
Mesmo após a Disney resetar o universo expandido e transformá-lo no selo Legends, a influência de KOTOR se provou impossível de apagar. Elementos da Velha República continuam vazando para o cânone oficial atuais — seja em menções na série The Acolyte, em The Clone Wars, ou até no visual de novos Sith.
Enquanto a indústria e os fãs ainda aguardam ansiosamente por novidades concretas sobre o conturbado remake anunciado anos atrás, o jogo original de 2003 permanece perfeitamente jogável e incrivelmente atual em sua essência narrativa.
Há 23 anos, KOTOR apresentou uma das melhores narrativas já ambientadas na galáxia muito distante, e nos ensinou que a Força não pertence a uma única linhagem. Star Wars não é sobre os Skywalker; é sobre o eterno equilíbrio entre a luz e a escuridão, sobre escolhas, sacrifícios e, acima de tudo, sobre a liberdade de traçar o seu próprio caminho pelas estrelas. Que a Força esteja com você.
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